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Coluna

A agenda é extensa

23 de mar de 2016 (atualizado 23/03/16 às 10h39)

    A interrupção da longa recessão requer uma agenda profunda de reformas. Todos seremos penalizados pelas consequências dos equívocos dos últimos anos

    A crise se agrava na economia e na política. A radicalização do debate tem o mérito de congregar muitos para a discussão sobre os nossos desafios. Por outro lado, são tantas as dificuldades que corre-se o risco de subestimar a extensão das reformas necessárias para que o país possa retomar uma trajetória de normalidade econômica.

    A recessão deve continuar este ano, podendo resultar em uma queda da renda per capita de 10% em 3 anos, próxima da maior queda de renda per capita registrada, que ocorreu no começo dos anos 1980. A inflação permanece em cerca de 10% ao ano. O desemprego continua a aumentar, prejudicando, pela primeira vez em muitos anos, os chefes de família, e deve aumentar nos próximos meses.

    Os seguidos equívocos de política econômica nos últimos seis anos contribuíram para a crise econômica. A incapacidade do governo de rever os seus equívocos e enfrentar os difíceis dilemas, as propostas por parte da base aliada de retomada de medidas semelhantes às que resultaram na longa recessão com inflação elevada e progressiva deterioração do mercado de trabalho, e a ausência de uma estratégia consistente por parte do governo sobre as dificuldades e as políticas a serem adotadas aumentam o ceticismo sobre a possibilidade da atual equipe econômica de enfrentar a grave crise.

    Esse ceticismo tem sido ampliado nas últimas semanas com a sequência de revelações e fatos que fragilizaram ainda mais o atual governo.  A sua incapacidade na gestão econômica é apenas equivalente à sua incapacidade na política.

    A interrupção da longa recessão requer uma agenda profunda de reformas. Diversas normas legais no Brasil resultam no crescimento da despesa pública acima do crescimento da renda. As intervenções setoriais dos últimos anos prejudicaram o ambiente de negócios e comprometem a produtividade do setor privado. A sequência de diversas medidas tributárias equivocadas aumentou de forma desorganizada a carga tributária e a incerteza sobre as regras, que resultam em um impressionante contencioso entre a Receita e as empresas. O aumento dos gastos obrigatórios com pessoal resulta na incapacidade de diversos estados de cumprir as suas obrigações. A crise fiscal coloca em risco a solvência das contas públicas.

    Por mais que alguns argumentem que não vão pagar o custo da crise, surpreendente quando se trata daqueles que apoiaram as políticas responsáveis pelo grave quadro do país, todos seremos penalizados pelas consequências dos equívocos dos últimos anos.

    Uma eventual insolvência das contas públicas penalizaria a todos. Fundos de previdência, depósitos em conta corrente e as diversas aplicações financeiras são lastreados em títulos da dívida pública. Caso o setor público não consiga cumprir as suas dívidas todos teremos perdas ainda maiores do que as dos últimos anos.

    Superar a atual crise requer reconhecer as graves dificuldades que atravessamos e enfrentar difíceis dilemas e escolhas de política pública. Não será fácil. Podemos enfrentá-los. Ou imaginar que existem soluções simples em que o ônus será apenas dos demais. A culpa do fracasso será nossa apenas. 

    Marcos Lisboa é presidente do Insper, Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilvânia. Atuou como professor assistente no Departamento de Economia da Universidade de Stanford e da EPGE/FGV. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Instituto de Resseguros do Brasil. Diretor executivo do Itaú-Unibanco, entre 2006 e 2009, e vice-presidente até 2013.

    Marcos Lisboa é presidente do Insper, Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilvânia. Atuou como professor assistente no Departamento de Economia da Universidade de Stanford e da EPGE/FGV. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Instituto de Resseguros do Brasil. Diretor executivo do Itaú-Unibanco, entre 2006 e 2009, e vice-presidente até 2013.

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