Coluna

A Cidade de Deus e de Cesar

    Você ia mesmo amar esse braço que te leva para a delegacia, mesmo sem ter visto você fazendo nada, e alega que você é um suposto traficante?

    No início do mês, de 8 a 13 de novembro, aconteceu a Flupp, Festa Literária das Periferias, que este ano homenageou o Caio F. Abreu. A Flupp foi sediada num (Ciep) Centro Integrado de Educação Pública na Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro, e eu tive a oportunidade de ser curadora dessa edição. Mas não é sobre isso que vou falar hoje.

    Vou contar sobre Paulo Cesar, um menino negro adolescente que cantou um louvor para mim. Sentamos eu e uma amiga para lanchar numa figurada praça de alimentação, quando dois meninos se aproximam, já sentando ao nosso lado e perguntando nossos nomes. Era o Paulo Cesar, que se apresentou como Cesar, e Felipe, seu amigo, também negro, com mechas loiras no cabelo. Felipe era mais calado, só queria saber do açaí que estava tomando. Cesar gostava mais de se comunicar com palavras faladas.

    Simpático e mandando salve para quase todos que passavam por nós, entre moradores e pessoas da equipe que não moravam na comunidade, Cesar me contou que um dia antes havia levado para casa uma mochila arrebentando de tanto livro que garimpou na livraria gratuita que a Flupp montou, com vários caixotes e com milhares de livros. Sempre que eu passava na livraria grátis, ficava encantada. Era o espaço fixo da feira mais frequentado por pessoas de todos os tipos e idades. As mochilas cheias de livros me lembraram o dia de São Cosme e Damião, em que crianças (normalmente em bairros populares), saem peregrinando pelas ruas catando saquinhos de doce que são distribuídos nessa data.

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    Yasmin Thayná é cineasta, diretora e fundadora da Afroflix, curadora da Flupp (Festa Literária das Periferias) e pesquisadora de audiovisual no ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro). Dirigiu, nos últimos meses, “Kbela, o filme”, uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra, “Batalhas”, sobre a primeira vez que teve um espetáculo de funk no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a série Afrotranscendence. Para segui-la no Twitter: @yasmin_thayna

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