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Coluna

500 anos de ‘Utopia’

    A narrativa que Thomas More publicou em 1516 tem uma moldura ficcional sem grande importância que serve apenas de pretexto para a exposição das ideias e ideais de teor igualitário de seu autor

    É uma pena, mas não estou conseguindo achar meu velho volume da “Utopia”, do Thomas More, caindo aos pedaços, mas ainda legível. Achei a preciosidade muitos anos atrás na lixeira do meu andar, num antigo prédio onde morei. Um vizinho de uns 70 anos e uma bronquite crônica que se ouvia de longe tinha descartado o título famoso em meio a outros livros de páginas amarelecidas que já não lhe deviam servir pra nada. Conforme me revelou aquele antigo vizinho numa curta viagem de elevador, seu médico lhe recomendara desfazer-se dos livros e papéis velhos, criatórios de fungos que bombardeavam seus brônquios muito mais do que alimentavam seus neurônios.

    Eu, que vivo arranhando a garganta entre as velharias das estantes do mocó onde trabalho, sei bem o que é isso. Um dia desses também terei de jogar tudo fora, inclusive essa minha “Utopia” estropiada e de segunda mão que já deveria ter seguido pra reciclagem e virado um muito mais útil rolo de papel higiênico, por exemplo. Não poucas utopias, por sinal, partilham essa mesma sina: envelhecer, criar mofo e ser descartada numa lata de lixo, seja a da história ou de um prédio de apartamentos.

    O livro, que deve estar entocado em algum lugar dessa bibliobarafunda que me cerca, está tão velho e capenga que parece ter sido impresso pelo próprio Thomas More em 1516, quando foi publicado pela primeira vez em Louvain, na Bélgica - há 500 anos redondinhos, portanto. Só de me lembrar dele já começo a espirrar e tossir. Devo ter criado alguma forma de alergia a velhas utopias. Para escrever esta crônica me valho, pois, de uma cópia digitalizada que achei na internet, livre de fungos e cupins.

    Escrito originalmente em latim, “Utopia” só ganharia a primeira tradução para o inglês na Inglaterra, terra natal de More, em 1551, quase duas décadas depois de sua morte, em 1535, por decapitação. E não foi o Estado Islâmico o seu carrasco, e sim o rei da Inglaterra, Henrique 8º, com quem More, importante funcionário da justiça, da igreja católica e da diplomacia de seu país, bateu de frente. O rei tinha rompido com o papa por alegadas razões político-religiosas, arvorando-se, a partir de então, em líder máximo da igreja em seus domínios. More, defensor da causa do Vaticano, acabou perdendo literalmente a cabeça por isso.

    Nosso autor era o que chamaríamos de um caráter inflexível, irrredutível, inegociável. O homem não dava mole nem pra si mesmo. Enquanto estudante de direito, o jovem Thomas More procurava domar seus instintos carnais submetendo-se a uma disciplina rígida que incluía uma camisa de crina que lhe pinicava cruelmente a pele, um toco de árvore usado de travesseiro e um chicotinho com o qual se açoitava todas as sextas-feiras. E não se dobrava nem diante da vontade dos reis.

    Em 1503, por exemplo, Henrique 7º, antecessor do 8º que lhe faria descer a acha sobre o pescoço,  solicitara à Câmara dos Comuns um subsídio para compor o dote matrimonial de sua filha Margaret. O futuro autor de “Utopia”, recém-formado em leis e já atuante nas cortes inglesas, se opôs com tanta energia e eloquência às pretensões financeiras do rei que a grana lhe foi negada. O rei ficou uma arara com o brilhante e imberbe advogado que ousava se colocar em seu caminho, e More, ou Morus, como o autor viria a latinizar seu nome, cogitou seriamente em cair fora do país.

    O homem tinha um senso de justiça delirante de tão estrito. Nos tribunais, recusava-se a advogar contra pessoas que, a seus olhos, fossem vítimas de injustiças. E não cobrava honorários de viúvas, órfãos e pobres em geral. Na vida pessoal, a mesma coisa. Quando se interessou por uma garota e foi pedir ao pai sua mão em casamento, teve um gesto que bagunçou todas as expectativas: pediu, na real, a mão da irmã mais velha da sua preferida, de modo que a primogênita não caísse em descrédito por não ter sido escolhida antes da caçula. Ou seja, o jovem More se dispôs a casar com a mulher errada por puro cavalheirismo.

    Vai ser escrupuloso assim na casa do chapéu, diria um plebeu boquiaberto. Não é à toa que exatos 400 anos depois de sua morte, em 1935, Thomas More foi canonizado pelo papa de plantão na época, ganhando a irônica fama de patrono dos políticos e dos governantes, pois até hoje não se tem notícia de nenhum político ou governante que tenha acendido uma reles velinha pro corretíssimo e virtuoso Saint Thomas More da Inglaterra, da mesma forma que, no Brasil, nenhum político ou diretor de estatal indicado pelos Cunhas da vida pensaria em rezar pela cartilha de outro Moro, o Sergio, no caso.

    A narrativa que Thomas More ou Morus terminou de escrever no mesmo ano de sua primeira edição, 1516, tem uma moldura ficcional sem grande importância que serve apenas de pretexto para a exposição das ideias e ideais de teor igualitário de seu autor. Basicamente acompanhamos o próprio More a um jantar onde um viajante recém-chegado de terras remotas e exóticas relata a sua experiência na Ilha de Utopia, palavra formada a partir dos componentes gregos, U+topos, significando "lugar nenhum". Ali viceja uma sociedade ideal que aboliu o dinheiro e a guerra, e onde o bem-estar comum se sobrepõe às ambições pessoais. Tudo que se produz é dividido igualitariamente por todos os cidadãos que, em contrapartida, têm de andar numa rígida linha moral, sob pena de sanções de toda ordem, inclusive físicas. Ladrões, por exemplo, se não são enforcados em Utopia, como era hábito em grande parte das sociedades europeias, têm uma orelha cortada e são obrigados a envergar um uniforme de condenado, indicando a todos a sua condição de réprobo. O criminoso tem, todavia, a chance de se regenerar, mesmo com uma orelha a menos.

    Se eu tivesse agora a minha “Utopia” em mãos, com trechos que assinalei e comentei em outros tempos com entusiasmo juvenil, poderia deitar falação mais abalizada sobre essa obra de título tão universalmente conhecido a ponto de ter entrado para o léxico de praticamente todas as línguas modernas designando qualquer tipo de idealização sem base na intranscendente realidade. Mas seria utópico tentar encontrá-la em tempo hábil de escrever minha coluna. Esse, aliás, é o problema geral de qualquer utopia: ela nunca está onde a pomos, porque nunca a pomos onde nós estamos, como mais ou menos poderia ter dito certo bardo português que, entre as utopias e a realidade, optou pela poesia, e em grande estilo, diga-se de passagem.

     

    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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