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Coluna

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura: finalmente Lima vai invadir a Flip

    Garanto que esse vai ser um autor 'fora da curva'. Negro por origem, opção e literatura, Lima Barreto combateu o darwinismo racial, os racismos de uma forma geral, o preconceito existente por aqui e nos EUA

    “A República no Brasil é o regime da corrupção (...) Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar ideias; ninguém quer dar a emoção. Todos querem ‘comer’. ‘Comem’ os juristas, ‘comem’ os filósofos, ‘comem’ os médicos, ‘comem’ os romancistas, ‘comem’ os engenheiros, ‘comem’ os jornalistas: o Brasil é uma vasta ‘comilança”.

    Faço aqui um teste contigo, caro leitor. Responda rápido: quando e quem escreveu esse texto que você acaba de ler? O “corpo e o jeitinho” são de hoje; a crônica original, porém, tem quase 100 anos de idade. Pode até não parecer, mas o trecho foi publicado nos idos de 1918, mais exatamente no dia 26 de outubro na revista carioca anarquista “A.B.C.”.

    O título tem endereço certo – “A política Republicana” – e o ensaio vem assinado por um colunista da Primeira República; famoso por sua veia crítica e ácida: Afonso Henriques de Lima Barreto. O Lima para os amigos, Isaías Caminha para os leitores, mas também Jonathan, Eran, Inácio Costa, Aquele e outros tantos pseudônimos que (mal) escondiam seu autor. Eram os seus apelidos, ou então os “a pedidos”, conforme ele gostava de ironizar.

    Parece igualmente inacreditável, mas depois de 13 anos, de vários alarmes falsos, chegou finalmente a hora da Flip anunciar que vai homenagear, no próximo ano de 2017, um escritor que foi sempre avesso a esse tipo de evidência. Ele que não se sentia confortável nos chás, convescotes, tertúlias e palestras literárias; que se achava feio, desarrumado e desajeitado, provavelmente teria escrúpulos (mas gostaria também) de ganhar essa forma de reconhecimento que em vida não teve tempo de apreciar.

    Pois garanto que esse vai ser um autor “fora da curva”. Negro por origem, opção e literatura, Lima Barreto combateu o darwinismo racial, os racismos de uma forma geral, o preconceito existente por aqui e nos EUA, e desenhou os personagens de sua obra com uma ternura, toda sua. Eles eram um tanto diferentes daqueles que o público estava habituado a encontrar nos romances de época. Suas religiões híbridas destoavam do catolicismo imperante. Seus personagens variavam nos tons de negro expressos nas suas peles e moravam em locais mais distantes do centro da cidade, que ressoavam a um passado africano.

    O escritor gostava de se definir “pelo contra”: por princípio, para fazer graça e para “enfurecer Copacabana”

    No conto “O moleque”, por exemplo, é de maneira enternecida que ele descreve as vizinhanças desse menino da ficção, que eram, aliás, também as suas: “nas suas redondezas ficava o lugar das macumbas, das práticas de feitiçaria com que a teologia da polícia implica, pois não pode admitir nas nossas almas depósitos de crenças ancestrais. O espiritismo se mistura a eles e a sua difusão é pasmosa. A Igreja católica não satisfaz o nosso povo humilde. (...) O padre, para o grosso do povo, não se comunica no mal com ela; mas o médium, o feiticeiro, o macumbeiro, se não a recebem nos seus transes, recebem, entretanto, almas e espíritos que, por já não serem mais da terra, estão mais perto de Deus e participam um pouco da sua eterna e imensa sabedoria”.

    Lima também esticou a linha do mapa do Rio de Janeiro. Sua cidade era aquela da região central, mas também incluía os subúrbios que percorria nos trilhos da Central do Brasil. Pegava o trem de segunda classe cotidianamente, e conhecia de perto a realidade “dos humildes e desfavorecidos”. De um lado, era freguês costumeiro da vida animada dos bares que pipocavam nas cercanias da rua do Ouvidor. Frequentava, em especial, o café Papagaio, onde, segundo comentava-se, até a ave costumava ser vista ébria, e acabou presa depois de proferir palavrões e propagar contra a República. Mas ele, morador do bairro de Todos os Santos, também usufruía da companhia de seus vizinhos, que se vestiam de forma “opaca” durante os dias de trabalho; de modo “endomingado” nos finais de semana.

    O escritor gostava de se definir “pelo contra”: por princípio, para fazer graça e para “enfurecer Copacabana”. Era contra os políticos afetados, contra a aristocracia improvisada, contra os jornalistas artificiais, contra a “literatura e os literatos de aperitivo”, contra os bovarismos – a mania de gostar de tudo que vinha do estrangeiro – e por isso invocava “solenemente” com Petrópolis e Botafogo.

    Ambiguidade era também seu nome. Se Lima desdizia dos literatos e da Academia Brasileira de Letras, tentou entrar na instituição por três vezes; na última desistiu. Denunciava os abusos que a sociedade cometia contra as mulheres, mas “acusava” o feminismo de importação barata e fora do lugar. Defendia os hábitos populares, mas não gostava nada de futebol, samba e carnaval. Detestava os funcionários públicos, mas tirava seu ganha-pão na Secretaria da Guerra como amanuense, isso a despeito de sua péssima letra. Por sinal, em “Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá”, a pretexto de resumir a atividade desenvolvida em sua repartição, Lima desenvolve uma reflexão (hilária) sobre a profissão que desempenharia durante 14 longos e seguidos anos: “Logo no primeiro dia em que funcionei na secretaria, senti bem que todos nós nascemos para empregado público (...) Tão depressa foi a minha adaptação que me julguei nascido para ofício de auxiliar o Estado, com a minha reduzida gramática e o meu péssimo cursivo, na sua missão de regular a marcha da nação (...) Aquela placidez do ofício, sem atritos; aquele deslizar macio durante cinco horas por dia; aquela mediania de posição e fortuna, garantindo inabalavelmente uma vida medíocre...”.

    Esse era, portanto, Lima Barreto sem tirar nem pôr. Com suas contradições, mas também suas ideias fortes, suas teses recorrentes, suas idiossincrasias, suas angústias, suas dores. Sua mãe, dona Amélia, formou-se professora e foi diretora de uma escola para meninas. Foi ela quem ensinou ao garoto a importância da educação; a real e única forma de emancipação social. Mas a tuberculose a levou cedo demais, e o menino, depois adulto, guardou a imagem da mãe como exemplo e como falta. Seu pai, João Henriques, após conhecer uma carreira de sucesso como tipógrafo, acabou tornando-se o primeiro desempregado da República. Sem mais opções, aceitou trabalhar nas Colônias de Alienados, da Ilha do Governador, e levou consigo a família. Orgulhoso, e querendo para seu primogênito o que não tivera para si, desejou que Lima virasse “doutor”. Desses de canudo, beca e pose. Por isso, resolveu deixar o filho no Rio para completar os estudos, e o mandava buscar, na barca chamada Pinel, todos os finais de semana.

    Nesse percurso de ida e volta, Lima foi se formando no ambiente agitado da Politécnica e no centro borbulhante da capital, mas jamais deixou de sofrer a dor da exclusão social. Uma foto rota o mostra em meio aos colegas mais abonados - vestidos com polainas e sapatos elegantes -, e um tanto isolado. É o único evidentemente negro, e mostra no seu terno justo um mundo de constrangimentos.

    Nesse meio tempo, se Lima ia levando vida de estudante, era na Ilha, que nada tinha de paradisíaca, que desfrutava da liberdade. Lima não conheceu a escravidão tão de perto; suas duas avós, do lado paterno e materno, sim. Foi no hospital de alienados que o garoto conviveu com amigos e aprendeu a importância de, nos seus termos, entender sua “origem”. Manuel Cabinda, que o chamava de Seu Linfonso, tinha acumulado algum dinheiro vendendo no mercado as verduras de seu senhor. Com tal atividade, juntou um pecúlio e na hora certa comprou a carta de alforria. Tempos depois, apaixonou-se por Maria Paulina, comprou a liberdade dela e foram viver juntos. Tudo ia bem até que a moça o deixou, e daí “veio seu semi-delírio”. Foi quando o futuro escritor o conheceu. Cabinda era mesmo uma figura singular, confessa Lima: “Muitos outros fatos se passaram entre nós dessa natureza, e, agora, que o desalento me invade, não posso relembrar essa figura original de negro, sem considerar que o que faz o encanto da vida, mais do que qualquer outra coisa, é a candura dos simples e a resignação dos humildes.”

    É impossível ler Lima Barreto sem se deixar “afetar”: ele, que nos leva numa espécie de tapete mágico junto com sua literatura

    Mas a loucura entraria pra sempre na vida do escritor. Seu pai, por causa de umas contas do hospital que insistiam em não fechar, adoeceu “dos nervos”. Já o rapaz foi obrigado a largar a escola para se converter em arrimo de família; virou amanuense. Para ele, essa sua profissão não passava de mero recurso de sobrevivência; “casava-se”, mesmo, era com a Literatura. Foi em nome dela que criou a sua revista de grupo, a “Floreal” (1907), que durou apenas um ano mas fez muitos desafetos dentre os literatos; que publicou seu primeiro romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1909), e criou uma penca de inimigos no ambiente do jornalismo; que editou “Numa e a Ninfa” (1915) e criticou severamente os políticos de ocasião; que teve a coragem de lançar sua obra mais valente “Triste fim de Policarpo Quaresma” (1916 ), quando denunciou, entre outros, a pátria e a falta de democracia existente no país. Por conta do seu “amor à arte” finalmente lançou “Vida e morte de Gonzaga de Sá” (1919), quando  anunciou, de certa forma, sua própria morte.  

    Nessa sua literatura, auto denominada de “militante e biográfica”, Lima acabou vivendo e virando seus próprios personagens. Era cada um deles, todos juntos, e nenhum também. Escreveu durante a vida toda o romance “Clara dos Anjos”, e não teve tempo de vê-lo publicado. Justo esse que seria seu livro mais suburbano. Também ia misturando ficção e não ficção em outra novela que não chegou a terminar: “Cemitério dos vivos”, obra que narra a história de um personagem que fora internado num manicômio e passou por processos de humilhação semelhantes aos de Lima, quando o escritor foi internado no Manicômio Nacional por duas vezes: em 1914 e 1919. Era a bebida que ia entrando no seu cotidiano e ganhava cada vez mais espaços.

    Lima tinha pressa e mostrava urgência. Não podia prever, claro, que morreria com apenas 41 anos, de enfarte e por conta do excesso de álcool - um dia antes de seu pai.

    Aí está um autor que, como dizem os críticos, “se confessava” o tempo todo. Mas fazia muito mais do que isso. Era um sujeito de seu tempo, desses que vira testemunha mas também artífice do período que lhe foi dado conhecer. Um escritor que escreveu com afeto e alma. E afeto no sentido criador do termo. É impossível ler Lima Barreto sem se deixar “afetar”: ele, que nos leva numa espécie de tapete mágico junto com sua literatura.

    Borrando as fronteiras mais óbvias entre a ficção e a não ficção, Lima mostrou um outro Brasil, que é o mesmo também. Aquele dos mais despossuídos; de alma grande como “seu” Manuel Cabinda, e que carregam uma dor maior que o mundo, mas que - jamais - se deixam, simplesmente, apanhar. Ao contrário, lutam sempre.

    A República que viu nascer também não era aquela dos seus sonhos. Virou, nos seus termos, autoritária, racista, estrangeirizada e, sobretudo, profundamente injusta. Boas testemunhas são aquelas que “ficam” para contar. E mais: que conseguem trazer o passado para o presente e vice-versa. Portanto, mera semelhança não será (com certeza), e no caso de Lima Barreto, qualquer coincidência.  

    PS: Fui surpreendida com a notícia de que Lima seria homenageado na Flip quando escrevia a introdução para um novo livro: uma biografia sobre Lima Barreto ainda sem nome, mas que me acompanha há mais de 10 anos, tal qual fantasma e assombração. Na mesma hora que coloquei um ponto final, recebi um Whatsapp de uma pessoa que não conheço, mas que se apresentava como  Evangelina. Era o nome da (e quem sabe ela própria) irmã de Lima Barreto, me puxando a orelha.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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