Coluna

Perdeu, papito!

    Minha ideia era explorar um pouco o tema da mulher que passa. Não calculei o grau de fuzilaria a que estava me expondo

    Em outubro passado, a Tati Bernardi, cronista da "Folha de S.Paulo" que sempre me intriga e diverte, ligou me convidando pra escrever no espaço dela no caderno Cotidiano daquele jornal. Tati não queria desmerecer nenhum movimento feminista, apenas acusava um certo incômodo pela radicalização do discurso antipaquera de alguns desses movimentos. Era esse o sentido de inverter o sinal do #AgoraÉqueSãoElas, que tem levado colunistas homens da "Folha" a ceder seu espaço para mulheres,­­ o que também gerou não pouca gritaria feminista, do tipo "não me venha abrir nenhuma porta pra eu passar, seu porco machista fedorento! Eu tenho mãos e sei abrir porta sozinha!"

    Apesar de me considerar inepto para discutir feminismo, aceitei na louca o convite e meti os dedos no teclado. Não calculei o grau de fuzilaria a que estava me expondo, a mim e à generosa Tati, ao passear pelo tema com o descompromisso de quem assobia um samba de Dorival Caymmi, no caso, "A vizinha do lado", de 1946, que eu usei de introdução à minha croniqueta. Trata­-se daquele sambinha delicioso sobre uma certa vizinha do compositor que, ao passar pela rua num provocante vestido grená mexendo as cadeiras pra cá e pra lá, "mexe com o juízo do homem que vai trabalhar" (A quem se interessar pelo meu artigo no jornal concorrente, AQUI está. Mas não contem pro pessoal do Nexo que fui eu que o forneci).

    Minha ideia era explorar um pouco o tema da mulher que passa, presente na letra do Caymmi e celebrizado por Baudelaire no soneto "A uma passante", no qual o dono da voz lírica, em meio ao burburinho de uma rua movimentada, narra a passagem de uma mulher "nobre e fina", que ele contempla "qual bizarro basbaque", só para vê-­la rapidamente desaparecer, "efêmera beldade", deixando para trás um rastro de desejo frustrado: "Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!"

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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