Coluna

Mulheres na praia - parte I

    Zoca vai dizer mais alguma coisa, mas a patroa deita sua falação, contente em ver que seu público aumentou 100% agora.

    "Às vezes dói, né? Se você não tá muito a fim e o cara não for com jeito, pode doer sim. É ou não é Zoca?"

    "Ah, é. Ô se é, dona Mári," responde de pronto a empregada, descalça na areia, de bermuda legging e top de biquini, enquanto acomoda as duas caipirinhas no tamborete de armar que serve de mesinha de centro pra Mári e sua amiga Lili, a dona da confortável casa neocaiçara com grife arquitetônica em que estão hospedadas, a poucos passos ali da areia. As duas jazem refesteladas em espreguiçadeiras de praia, à sombra de uma tenda gazebo, de óculos escuros, biquinis algo ingratos com suas anatomias cinquentonas, curtindo uma breve brisa que sopra do mar em frente. Vão passar juntas o revéillon sem festança, mas com champanhe francesa e pulando as sete ondinhas à meia-noite na pequena e mui chique enseada do litoral norte paulista, cercadas de estupendas casas de verão construídas a uma distância paisagisticamente correta da praia.

    Zoca vai dizer mais alguma coisa, mas a patroa deita sua falação, contente em ver que seu público aumentou 100% agora. Mas não é de impeachment, crise econômica, corrupção ou desastres ambientais que elas tratam no vai da prosa praiana.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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