Coluna

Masturbophonia

    A história em si seria das mais banais e corriqueiras, não fosse pelo modo inusitado pelo qual o maridão traído pilhou a mulher em flagrante deleite com outro homem

    Eu tenho porque tenho que contar uma história que acabei de filar numa festa. Certa altura, meio chumbado já, me estiquei num sofá convidativo, de olhos fechados, e fisguei o papo de duas minas que tinham se encaixado numa mesma poltrona, a centímetros da minha cabeça. De copos na mão, as duas viram o velhinho aqui apagado no sofá e desataram as línguas, num tom perfeitamente audível por quem só parecia adormecido, como eu.

    A história que uma contava à outra era clássica: mulher casada arranja amante, marido descobre. A história em si seria das mais banais e corriqueiras, não fosse pelo modo inusitado pelo qual o maridão traído pilhou a mulher em flagrante deleite com outro homem, e não exatamente na cama.

    A locação da história é um bar­-restaurante chiquérrimo no roof de um dos hotéis mais caros e sofisticados de São Paulo. Numa mesa, sob um guarda­-sol – sob um guarda­-lua, na verdade – dois casais amigos, o A e o B, confraternizavam tomando um prosecco cujo preço pagaria o sacolão semanal de uma família de quatro pessoas, com direito a umas cervejinhas e umas tubaínas de lambuja.

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    Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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