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Coluna

A Depressão Econômica e Santa Teresa de Ávila

    Ao invés do ajuste e das reformas, quando seu custo seria bem menor, adotamos medidas oportunistas, ao encontro das demandas de diversas lideranças empresariais

    A economia brasileira caminha para uma depressão econômica. Há certamente o rescaldo de uma crise internacional, mas os nossos problemas são muito mais graves. Os demais países cresciam cerca de 4% ao ano antes da crise, e nos últimos anos cresceram pouco mais de 3%. No caso do Brasil, porém, o crescimento de cerca de 4% transformou-se em uma queda da renda de 4% nos últimos 12 meses. Uma crise apenas comparável a de países em guerra, como a Rússia e a Ucrânia. O pior desempenho da economia brasileira é responsabilidade da política econômica dos últimos seis anos.

    Há quatro anos, o Brasil enfrentava a necessidade de um ajuste de curto prazo, em decorrência da inflação elevada, além dos problemas estruturais, que resultam na trajetória de crescimento dos gastos públicos acima da renda nacional.

    O ajuste de curto prazo busca corrigir desequilíbrios, como inflação elevada, e reduz temporariamente a expansão da atividade econômica tendo por objetivo preservar o potencial de crescimento. Menos empregos hoje em troca de maior geração sustentável de empregos no futuro.

    Essa agenda deve garantir a estabilização da dívida pública como fração do PIB nos próximos anos, melhorar o ambiente de negócios, estimulando o aumento da produtividade, e reformar as políticas públicas, com base na avaliação dos resultados e dos grupos beneficiados.

    Deve-se, em particular, preservar as políticas efetivas em proteger os grupos sociais mais vulneráveis, e as políticas horizontais em saúde e educação que beneficiem a grande maioria.

    Ao invés do ajuste e das reformas, quando seu custo seria bem menor, adotamos medidas oportunistas, ao encontro das demandas de diversas lideranças empresariais.

    Acreditava-se que a proteção ao setor produtivo e a adoção de nova matriz econômica estimulariam o crescimento. Procurou-se enfrentar a inflação elevada com instrumentos não convencionais, como o controle dos preços dos combustíveis e a intervenção no setor elétrico. Foram adotadas diversas medidas de estímulo aos setores produtivos, como a expansão do crédito subsidiado, a desoneração tributária para produtos selecionados, e a maior proteção à produção doméstica, como as leis de conteúdo nacional.

    A estratégia fracassou. Malgrado o aumento do gasto público, o investimento caiu progressivamente a partir de 2011, assim como o crescimento econômico e a geração de empregos. E o desequilíbrio fiscal se ampliou.

    A adoção de medidas populistas permitiu a expansão temporária da atividade e do emprego, porém comprometeu o crescimento sustentável. Não realizamos as reformas necessárias acreditando que os problemas poderiam ser prorrogados para as próximas gerações.

    Nós somos a próxima geração.

    A recusa em fazer o ajuste em 2011 e enfrentar as reformas necessárias resultou em uma crise muito mais severa, e que se anuncia longa. A profunda recessão que vivenciamos não irá resultar na retomada do crescimento nos meses à frente. Depressão, e não uma recessão cíclica.

    Na ausência de reformas profundas, teremos muitos trimestres de retração da atividade econômica e o risco de retrocesso dos avanços sociais da década de 2000.

    A expansão dos gastos públicos nos últimos anos, sobretudo os subsídios para o setor produtivo, ampliou o desequilíbrio fiscal, aprofundando as causas da recessão que se iniciou em 2014. A campanha eleitoral que negou os problemas do país e desqualificou a divergência dificultou a possibilidade de soluções legislativas para enfrentar os desafios da economia.

    O reconhecimento dos equívocos dos últimos anos, da política econômica e da campanha, contribuiria para o diálogo com as diversas lideranças para a adoção de uma agenda de reformas que enfrente nossos graves problemas e permita retomar o crescimento econômico.

    O governo, no entanto, tem sido pequeno, incapaz de reconhecer seus erros, o que impede o enfrentamento dos graves problemas.

    A incompetência do executivo não deve justificar movimentos que fragilizem as instituições democráticas, mesmo que signifiquem o agravamento da crise econômica. A sua substituição, na ausência de comprovação de grave crime de responsabilidade, implica risco de banalização do impeachment e retrocesso das nossas instituições.

    O atalho, tanto na economia quanto na política, promete muito, mas, usualmente, entrega pouco. A grave crise econômica decorre da promessa fracassada de que uma nova política econômica e a utilização de instrumentos criativos permitiriam preservar o crescimento sem a necessidade de ajustes de curto prazo ou de reformas estruturais. Um governo demasiadamente sensível aos grupos de interesse concedeu benefícios e estímulos a diversos setores econômicos na expectativa de aumento do investimento e da geração de emprego.

    Truman Capote lembrava com frequência o velho adágio de Santa Teresa de Ávila: são derramadas mais lágrimas pelas preces atendidas do que pelas não atendidas.

     

    Marcos Lisboa é presidente do Insper, Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilvânia. Atuou como professor assistente no Departamento de Economia da Universidade de Stanford e da EPGE/FGV. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Instituto de Resseguros do Brasil. Diretor executivo do Itaú-Unibanco, entre 2006 e 2009, e vice-presidente até 2013.

    Marcos Lisboa é presidente do Insper, Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilvânia. Atuou como professor assistente no Departamento de Economia da Universidade de Stanford e da EPGE/FGV. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Instituto de Resseguros do Brasil. Diretor executivo do Itaú-Unibanco, entre 2006 e 2009, e vice-presidente até 2013.

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