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Coluna

A Crise e os Porcos

    Em co-autoria com Carlos Eduardo Gonçalves

    A combinação de recessão de quase 4% com inflação acima de 10% não é obra de amadores. A política dos últimos cinco anos, com a expansão dos gastos públicos acima do crescimento do PIB, a tentativa de controle da inflação por meio da intervenção em setores como combustíveis e energia elétrica, e a concessão de benefícios a setores selecionados resultou na desaceleração da economia a partir de 2011 e na grave crise atual.

    O fracasso, como conclui nosso amigo Samuel Pessoa, é órfão. Muitos dos que defenderam a política econômica dos últimos cinco anos atribuem a recessão que se iniciou em 2014 à tentativa de ajuste fiscal de 2015. Nada como o curioso argumento que propõe que as causas decorrem das consequências, como sintetizou um economista. Se a frase ficou difícil, agradeça-se à lógica convoluta daqueles que se indignam com parábolas, renegam o apoio à política econômica dos últimos anos e, talvez, preferissem reescrever a autoria dos fracassos dos planos econômicos dos anos 1980, sobretudo o infeliz Cruzado II.

    A heterodoxia nacional não quer assumir a paternidade da Nova Matriz Econômica e das intervenções setoriais que minaram a produtividade total dos fatores. Alguns economistas, inclusive, propõem retomar a expansão do gasto público e do crédito para estimular a produção e a retomada do emprego, mesmo após o fracasso dos últimos anos. O aumento do gasto seria mais do que compensado pela expansão da receita tributária, permitindo um ajuste fiscal virtuoso. O argumento não é descabido. Apenas incompatível com os dados.

    A pesquisa econômica recente, que, ao contrário das teses ligeiras, procura utilizar bases de dados e a estatística disponível, sugere que expansões fiscais não resultam na retomada do crescimento em países que têm dívida elevada, poucos sinais de capacidade ociosa (que se reflete em inflação alta) e elevadas taxas de juros.

    A heterodoxia prefere a propaganda ao debate embasado pela evidência. Diagnósticos e propostas de política econômica são denunciados por, supostamente, refletirem interesses indevidos. Os argumentos contra e a favor da independência do Banco Central (há ambos!) foram substituídos por uma propaganda com banqueiros roubando a comida de uma família de trabalhadores. Parte relevante da heterodoxia brasileira se assemelha aos clérigos na peça de Brecht, que rejeitam o telescópio e optam pela inquisição.

    Existem economistas que defendem teses heterodoxas com base em evidências. Dani Rodrik aponta para a eficácia de políticas industriais e intervenções públicas em certos setores. Richard Thaler e outros argumentam que a hipótese de racionalidade não parece adequada em algumas circunstâncias, como no caso da poupança ou da aquisição de imóveis. Paul Krugman aponta que, na presença de retornos crescentes de escala e curva de aprendizado, pode ser vantajoso para um país afastar-se do livre-comércio. Barry Eichengreen tem evidência de que as liberalizações dos fluxos de capital causam mais danos que benefícios. Joseph Stiglitz, na sequência de muitos economistas, alerta para diversas falhas de mercado. Thomas Piketty e Emmanuel Saez argumentam em favor de impostos mais elevados, usando dados e a boa estatística para sugerir que a oferta de trabalho dos mais ricos é menos sensível à tributação na margem do que pensávamos. E così via.

    No mundo acadêmico internacional, economistas debatem com base na análise dos dados disponíveis. A demonização da divergência pode agradar à retórica, ainda que não à política econômica. No Brasil, prefere-se a escolástica ligeira e o estratagema 34 de Schopenhauer ao debate sobre a evidência e o telescópio do herege.

     

    Marcos Lisboa é presidente do Insper, Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilvânia. Atuou como professor assistente no Departamento de Economia da Universidade de Stanford e da EPGE/FGV. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Instituto de Resseguros do Brasil. Diretor executivo do Itaú-Unibanco, entre 2006 e 2009, e vice-presidente até 2013.

     

    Carlos Eduardo Gonçalves é professor titular licenciado da FEA-USP e economista do projeto www.porque.com.br, da Bei Editora

     

     

    O trecho "Paul Krugman aponta que em um mundo de comércio intra-indústria e com concorrência monopolística, o laissez-faire pode não ser a melhor escolha" Publicado originalmente, foi substituído por "Paul Krugman aponta que, na presença de retornos crescentes de escala e curva de aprendizado, pode ser vantajoso para um país afastar-se do livre-comércio."

    Marcos Lisboa é presidente do Insper, Ph.D. em economia pela Universidade da Pensilvânia. Atuou como professor assistente no Departamento de Economia da Universidade de Stanford e da EPGE/FGV. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Instituto de Resseguros do Brasil. Diretor executivo do Itaú-Unibanco, entre 2006 e 2009, e vice-presidente até 2013.

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