O racismo ambiental na cidade de São Paulo

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Este paper, publicado na Revista da ABPN, aponta como as desigualdades sociais e ambientais impactam a vida, a saúde e o direito à cidade de populações negras, indígenas, quilombolas, pobres e periféricas.

A pesquisa mostra como o meio ambiente degradado e as piores condições de vida são determinantes para os moradores das periferias da cidade de São Paulo, sobretudo a população negra. O trabalho utiliza dados do Censo de 2010, do Mapa da Desigualdade de 2020 e de material jornalístico, evidenciando o debate do racismo ambiental, as incoerências e complexidades da metrópole paulistana.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como os problemas ambientais estão diretamente relacionados com questões raciais e sociais na cidade de São Paulo?

Por que isso é relevante?

Diante da atual crise socioambiental vivida no mundo, agravada pelas mudanças climáticas, é imprescindível focar nosso olhar para as populações mais vulnerabilizadas, pensar alternativas de planejamentos mais justos, identificando onde há necessidade urgente dessa atuação.

A discussão da pauta ambiental é historicamente dominada por um movimento ambientalista majoritariamente branco, inclusive dentro das universidades, apesar de os maiores defensores do meio ambiente e da vida humana serem os povos racializados, como os povos indígenas, quilombolas e caiçaras.

A degradação ambiental, não está desvinculada de uma problemática social, racial e de gênero, principalmente no Brasil e em outros países da América Latina, pois a população mais impactada pelas problemáticas socioambientais são exatamente as populações racializadas, como os indígenas que sofrem, por exemplo, com a falta de demarcação de terras, contaminação por exploração de minério e conflitos por terra. Além disso, as populações negras e periféricas nas cidades são as que mais sofrem com as ausências de infraestruturas básicas.

A pauta do racismo ambiental deve se tornar conhecida para estar nas agendas públicas, nos planejamentos urbanos e nas propostas de governos. Vivemos em uma estrutura racista, na qual precisamos reconhecer essas problemáticas para combatê-las e começar a pensar um planejamento urbano antirracista, que passe a considerar a humanidade dessas pessoas. O racismo ambiental, assim como todas as outras formas de racismo, trata-se de uma forma de violação dos direitos humanos, portanto é urgente que seja combatido.

Resumo da pesquisa

Para tanto, buscamos demonstrar como o meio ambiente degradado e as piores condições de vida estão determinados à pessoas pobres, negras e moradoras de periferias da cidade de São Paulo. Utilizando dados do Censo de 2010, do Mapa da Desigualdade de 2020 e de material jornalístico, levantamos o debate sobre o racismo ambiental e as incoerências e complexidades da metrópole paulistana.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa concluiu que as desigualdades no acesso a direitos estão concentradas nas regiões onde residem as populações negras e pobres, que moram nas periferias e favelas da cidade de São Paulo e apontou como ocorre a dinâmica do racismo estrutural, que perpetua e sustenta o racismo ambiental gerando mais desigualdade e sofrimento a uns - grupos racializados e empobrecidos - e lucro para outros.

Por isso, o estudo reforçou a necessidade do incentivo e do crescimento de ações coletivas e auto-organizadas que fortaleçam a população negra e indígena (que foi historicamente excluída na elaboração de políticas públicas de planejamento urbano) e da adaptação de políticas ambientais, que são essenciais para a garantia de direitos da população racializada e periférica.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Universitários, professores, acadêmicos e representantes do poder público. Além disso, o tema deveria chegar a toda população brasileira.

Ana Sanches é doutoranda em Mudança Social e Participação Política na EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e consultora de projetos no Instituto Pólis. É pesquisadora sobre desigualdades socioambientais e raça sobre a ótica do racismo ambiental, mobilizações sociais e direito à cidade. É também mulher negra e periférica e atua como ativista na Rede Antirracista Quilombação, movimento negro de São Paulo.

Izabela Santos é engenheira ambiental pela UEPA(Universidade do Estado do Pará) e doutora em Ciência Ambiental pelo Procam-USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo). Atua como especialista climática no Instituto de Referência Negra Peregum. Pesquisadora sobre mudanças climáticas e racismo ambiental, com atuação em pesquisa-ação, riscos associados a mudanças climáticas, gestão de água e políticas participativas. É também é mulher afro-amerindia e nortista e ativista do movimento negro em São Paulo.

Referências:

  • Racializando o olhar (sociológico) sobre a saúde ambiental em saneamento da população negra: um continuum colonial chamado racismo ambiental (Victor de Jesus).
  • BULLARD, R. Enfrentando o racismo ambiental no século XXI. In: ACSELRAD, H.; HERCULANO, S.; PÁDUA, J. A. (Org.). Justiça ambiental e cidadania. Rio de Janeiro: Relume Dumará , 2004. p. 41-68.
  • AGYEMAN, Julian; BULLARD, Robert D.; EVANS, Bob (ed.). Just Sustainabilities: Development in an Unequal World. London: EARTHSCAN Publications Ltd., 2003
  • CAMPOS, A.“Do quilombo à favela –A produção do 'espaço criminalizado'”. Rio de Janeiro, 3º ed. Bertrand Brasil, 2010.
  • Mapa Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP) e Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), 2010

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