Como os evangélicos brasileiros lutam contra o racismo

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Esta dissertação, disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP (Universidade de São Paulo), analisa o papel do ativismo negro evangélico. Dialogando com literatura especializada e sociologia pragmática — linha teórica da sociologia que estuda a ação coletiva e os problemas públicos —, o autor explora ações antirracistas promovidas por grupos negros evangélicos.

A obra baseia-se na coleta e análise de fontes documentais, no monitoramento de notícias, publicações das redes sociais e entrevistas. Além disso, o pesquisador realizou observação direta e participante em atividades de grupos evangélicos de ativismo antirracista em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco entre 2019 e 2021.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como negros evangélicos participam da problematização pública do racismo?

Por que isso é relevante?

O Brasil vive uma transição na sua demografia religiosa: os evangélicos crescem numericamente ao mesmo tempo em que expandem seu ativismo político-religioso nas igrejas, nos meios de comunicação em massa e no sistema partidário-eleitoral.

Junto disso, além das altas taxas de autodeclaração racial de pretos e pardos, o movimento negro ganhou força pautando o racismo como um problema público - parte desse saldo é a instituição de leis e políticas antirracistas, a valorização da participação de corpos negros em espaços de prestígio cultural e a ampla discussão em torno das desigualdades raciais e da discriminação racial como problemas nacionais.

Nesse contexto, entender como duas identidades (racial e religiosa) aparentemente alheias uma à outra se combinam politicamente, é importante por mostrar que: 1) o antirracismo está disponível como valor e programa político a diferentes grupos sociais; 2) a identidade evangélica, embora recentemente muito atrelada ao conservadorismo político, também é flexível e pode ser mobilizada para causas progressistas; 3) o reaparecimento de um ativismo negro evangélico mostra uma crescente politização da diferença no Brasil.

Por um lado, esse processo endossa a democratização do país e a demanda por direitos, que passa a ser vocalizada por um grupo cada vez mais diverso de atores; por outro, reforça tensões sociais e multiplica conflitos em torno da definição de bens comuns e do reconhecimento e legitimidade de identidades.

Compreender tudo isso ilumina nosso combate ao racismo e a preservação de um espaço democrático laico e aberto à colaboração de grupos religiosos não fundamentalistas.

Resumo da pesquisa

A pesquisa consistiu em mapear as principais lideranças e grupos evangélicos antirracistas pelo país e descrever e analisar suas formas de ativismo. Com apoio teórico da sociologia pragmática dos “problemas públicos” foram realizadas observação direta e participante de atividades em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco (reuniões, cultos, protestos, cursos); análise documental de materiais produzidos pelos ativistas (cartilhas, livros, textos de imprensa, podcasts, vídeos) e entrevistas semidirigidas (ao todo, 25 ativistas de diferentes grupos e regiões do país foram entrevistados ao menos uma vez).

Quais foram as conclusões?

Primeiro, verificou-se que parte da literatura especializada apontava uma suposta “incompatibilidade” entre a afirmação racial e a filiação religiosa dos evangélicos negros já que estes “rejeitariam as heranças africanas”.

A conclusão decorrente da pesquisa é que os ativistas negros evangélicos configuram suas identidades/identificações racial e religiosa em função das situações problemáticas e arenas públicas de que participam, de forma situacional e relacional, combinando, dosando e filtrando elementos religiosos e racializados de forma autoral na composição de sua identidade negra e evangélica. Não necessitavam, portanto, “escolher” entre uma ou outra.

Uma segunda conclusão foi a de que a trajetória dos ativistas negros evangélicos estava orientada pela meta de aquisição de legitimidade. Por conta da grande visibilidade pública da direita evangélica, os ativistas são alvo de desconfiança e até hostilidade por parte do movimento negro e de grupos de esquerda em geral. Para serem aceitos e reconhecidos, então, precisam provar que não são fundamentalistas e que são antirracistas “de verdade”. Como observado na pesquisa, uma forma desses ativistas obterem legtimidade diante do movimento negro é praticando solidariedade aos cultos afro vítimas de intolerância religiosa, geralmente cometida por evangélicos de direita. Os cultos afro, vale dizer, têm se associado, desde os anos 1970 ao movimento negro. A pauta de defesa destes cultos, por sua vez, tornou-se central na agenda do ativismo negro evangélico.

Por outro lado, os ativistas negros evangélicos têm grande dificuldade em acessar as igrejas e realizarem seu chamado “trabalho de base”, sobretudo em meio à radicalizada polarização político-ideológica que vige no país há quase uma década - em geral, os pastores bloqueiam esse acesso.

Uma terceira conclusão relevante é a de que os ativistas negros evangélicos procuram autenticar a conexão entre sua identidade evangélica e sua identidade negra. Apoiados na teologia negra, racializam personagens bíblicos; situam o berço da tradição judaico-cristã na África; exibem figuras negras cristãs e evangélicas notáveis como Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela; mobilizam crenças, ritos e símbolos religiosos como suportes para significados políticos e estilizam condutas individuais e coletivas com base em noções estéticas definidas como negras.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Cientistas sociais, ativistas do movimento negro e do movimento negro evangélico e formuladores de políticas públicas.

Vítor Queiroz de Medeiros é cientista social, mestre e doutorando em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Recebeu, em 2021, o Prêmio Lélia González de Manuscritos Científicos Sobre Raça e Política. Integra a Cátedra Otávio Frias Filho do IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP.

Referências:

  • Burdick, John. “A queda do profeta negro: O Significado ambivalente de raça no pentecostalismo.”, Comunicações do ISER, vol. 33, p. 43-63, 1989.
  • Burdick, John, “Why is the Black Evangelical Movement Growing in Brazil?” Journal of Latin American Studies, 37(2), 311-332, 2005.
  • Cefaï, Daniel. “Público, problemas públicos, arenas públicas... O que nos ensina o pragmatismo (parte 1).” Novos Estudos, CEBRAP, vol. 36, n. 01, pp. 187-213, 2017.
  • Mariano, Ricardo. “Expansão e ativismo político de grupos evangélicos conservadores, secularização e pluralismo em debate”. Civitas: Revista de Ciências Sociais, v. 16, n. 4, p. 710-728, 2016.
  • Arendt, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

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