Os livros coloniais e a história da arquitetura no Brasil

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Esta dissertação, desenvolvida por Paula de Souza Carmo Lobato na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), explora os conteúdos acadêmicos e sua circulação no mercado editorial e como eles evidenciam a cultura colonial na história da arquitetura no Brasil.

Segundo a autora, os livros produzidos e distribuídos nos ambientes acadêmicos sobre arquitetura refletem a desigualdade imposta durante o período colonial no Brasil, o que, por sua vez, inviabiliza outras narrativas.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Em que medida a edição de livros e a circulação de suas narrativas nos espaços de ensino e circuitos culturais produzem e tensionam o entendimento da história da arquitetura no Brasil?

Por que isso é relevante?

Estamos em um momento no qual é comum diagnosticarmos os entraves na produção de conhecimento na academia brasileira com sua cultura eurocêntrica. A relação entre a escrita da história, o acesso à universidade e o mercado editorial amplifica o entendimento do aspecto colonial que domina a construção dos estudos da arquitetura brasileira.

Tão importante quanto diagnosticar é entender como esse diagnóstico deve influenciar nossas práticas. Nesta pesquisa, centrada no campo da arquitetura, ensaiamos possíveis modos de engajamento com este conteúdo hegemônico, buscando evitar saídas simplistas, como a alteração nas indicações bibliográficas ou um uso passivo desses livros em sala de aula.

Trabalhar o conteúdo desses livros criticamente, através de experimentos práticos, é uma proposta de trazer para o campo da arquitetura o reconhecimento de sua implicação nos processos de violência coloniais, ao mesmo tempo que é também uma tentativa de elaborar modos de desaprendê-lo.

Resumo da pesquisa

Se relações desiguais de poder oriundas do período colonial seguem mantidas e atualizadas no Brasil institucional, no campo da arquitetura elas são frequentemente normalizadas pela universidade e pela história como narrativa científica e universal difundida pela edição e publicação de livros.

Predominantes na transmissão do saber científico, os livros nos apresentam a história como consenso – e não como disputa –, invisibilizando outras práticas arquitetônicas tão ou mais antigas que aquelas por eles legitimadas. Mas esse viés de conhecimento nunca foi completamente aceito, e contra ele vêm sendo feitas críticas em um circuito cultural ampliado, paralelo à academia, e que enxerga na arte um lugar fundamental para a elaboração de pensamento.

A pesquisa considera também a sala de aula como um espaço de desaprendizado e, por isso, ensaia possíveis formas de engajamento, além de propor experimentos e metodologias editoriais que oferecem outros modos de perceber essas narrativas, a fim de evidenciar suas próprias incompletudes.

A partir de títulos recorrentes na bibliografia básica dos cursos públicos de arquitetura e urbanismo do Brasil, foram propostas alternativas de atuação para arquitetos que, de dentro da academia, desejam localizar e desconstruir o saber predominante que os livros carregam.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa traz exemplos de como trabalhar livros, manuais, compêndios e outros formatos de publicação reconhecidos pela academia e que carregam discursos hoje entendidos como reducionistas, diferenciais, exclusivistas, entre outros – testemunhas de um modo de fazer história que deve ser superado.

Uma leitura crítica a esses livros nos traz a possibilidade de nos desprendermos de suas narrativas míticas, únicas e exitosas, e criar formas de engajamento com o presente libertas do passado colonial, que nos permitam transitar por outros imaginários, afastando-nos das divisões propostas pelo campo disciplinar, enquanto nos aproximamos de práticas reais da arquitetura brasileira.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Arquitetos e arquitetas graduados ou em processo de graduação, além de professores e professoras que procuram ter uma abordagem crítica à bibliografia utilizada em sala de aula. Integrantes de áreas afins, como design e arte e pessoas que se incomodam com as narrativas que encontram nos livros didáticos utilizados no Brasil.

Paula de Souza Carmo Lobato é arquiteta, designer e editora, mestre em arquitetura e urbanismo pela UFMG. Trabalha em projetos de edição e design em aliança com instituições de arte, revistas, universidades, coletivos e grupos afroindígenas e LGBTI+.

Referências:

  • Ariella Aïsha Azoulay – Potential History: unlearning imperialism. Londres: Verso Books, 2019.
  • Ariella Aïsha Azoulay – Errata: Fundació Antoni Tàpies.
  • Bruno Moreschi, Ananda Carvalho e Gabriel Pereira – História da _rte. 2017.
  • Renata Marquez – Davi no museu. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 11, pp.02-21,2017.
  • Paulo Tavares – Des-habitat. São Paulo: N-1 edições, 2021.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.