As percepções dos brasileiros sobre as mudanças climáticas

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Esta dissertação de mestrado, desenvolvida por Marina Tomás Teixeira Carvalho, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), analisou como a população brasileira se posiciona em relação à crise do clima.

De acordo com a pesquisadora, apesar de a maior parte dos brasileiros acreditar nas mudanças climáticas, é possível dividir toda a população em quatro grupos: os antenados, os perdidos, os incrédulos e os desligados. Carvalho argumenta que identificar esses diferentes agrupamentos é importante para suprir as necessidades de cada público, que pode precisar de diferentes níveis de informações sobre o assunto, ou então de alguma proposta que auxilie na construção de confiança sobre a veracidade e relevância dos problemas climáticos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como a população brasileira pode ser segmentada de acordo com as suas opiniões em relação às mudanças climáticas?

Por que isso é relevante?

Ao investigar a percepção dos brasileiros sobre as mudanças climáticas, a pesquisa auxiliou na comunicação e na mobilização da população sobre o tema, com informações adequadas ao contexto específico do Brasil. A análise também apresentou informações que esclarecem a relação entre confiança na ciência e aceitação de evidências científicas no contexto do Brasil.

Resumo da pesquisa

Em um primeiro momento, o estudo verificou como as atitudes dos brasileiros em torno das mudanças climáticas se relacionam com algumas características sociodemográficas e opiniões da população sobre o tema. Isso foi feito a partir de modelos de regressão logística, que analisam a correlação entre determinadas características dos indivíduos e como elas podem afetar suas atitudes utilizando os dados da pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil de 2019. No caso da pesquisa, como cada cidadão se preocupa com as mudanças climáticas.

Essa análise mostrou que grande parte da população brasileira acredita que as mudanças climáticas estão acontecendo e têm causas humanas. Além disso, esclareceu que existem pequenos efeitos da escolaridade, gênero, valores e outros fatores nas atitudes sobre mudanças climáticas, mas que nenhum desses fatores sozinho explica as atitudes dos brasileiros quanto ao tema.

Na próxima etapa, a pesquisa agrupou as percepções das pessoas em quatro públicos: “antenados” (66%), “perdidos” (29%), “incrédulos” (3%) e “desligados” (2%). Antenados são aqueles que sabem as principais informações sobre o tema e acreditam que as mudanças climáticas são reais e que o tema é importante. Os perdidos também acreditam que as mudanças climáticas são reais, mas têm dúvidas sobre as demais questões relacionadas ao tema. Os desligados acreditam que o fenômeno acontece, mas que não irá afetá-los, nem à sua família ou às gerações futuras. E os incrédulos duvidam do fenômeno e não demonstram preocupação com o tema ou com o meio ambiente.

Essa classificação foi feita com base nos dados da edição de 2020 da pesquisa Mudanças climáticas na percepção dos brasileiros, realizada pelo ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade) em parceria com o Programa de Mudança Climática da Universidade de Yale (Yale Program on Climate Change Communication) e o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria). Essa pesquisa entrevistou 2.600 pessoas maiores de 18 anos, das cinco regiões do Brasil, entre os dias 24 de setembro e 16 de outubro de 2020. A investigação utilizou a metodologia de análise de classes latentes, técnica que permite dividir a população em grupos de indivíduos a partir dos padrões de suas respostas na pesquisa.

Quais foram as conclusões?

Além de identificar os quatro públicos (antenados, perdidos, desligados e incrédulos), a pesquisa mostrou que a maioria da população do país está preocupada com as mudanças climáticas e que isso se verifica em todos os grupos sociodemográficos, ainda que características como escolaridade, gênero, raça e valores influenciem na percepção brasileira sobre mudanças climáticas.

A identificação desses públicos distintos é um fator importante a ser considerado na comunicação sobre a crise climática, entendendo que cada público tem necessidades específicas. Por exemplo, o grupo dos antenados já se preocupa e sabe das principais informações sobre o tema. Assim, para esse público, o ideal é ir além da informação e auxiliar as pessoas que fazem parte dele na mobilização em prol do meio ambiente.

Quanto aos outros grupos identificados pela pesquisa, os perdidos podem ser beneficiados por campanhas de informação focadas em reforçar as crenças-chave do tema, com mensagens simples e abrangentes; os desligados precisam ser alertados sobre a relevância de discutir as mudanças climáticas no momento atual, devido à gravidade do problema; e, para os incrédulos, somente a informação não será suficiente para mudar suas opiniões, o foco está na construção de confiança.

Quem deveria conhecer seus resultados?

ONGs relacionadas ao meio ambiente e mudanças climáticas, cientistas que desejam se comunicar com público, jornalistas, educadores e divulgadores de ciência e meio ambiente. Além disso, a pesquisa pode enriquecer as discussões de pessoas preocupadas com o tema.

Marina Tomás Teixeira Carvalho é mestre em sociologia pela UFMG. Graduada em engenharia química pela mesma universidade. Pesquisadora pelo INCT-CPCT (Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia) e do Observatório InCiTe-UFMG (Inovação, Cidadania, Tecnociência da UFMG). Dedica-se à área de percepção e comunicação pública da ciência, com foco em análises quantitativas, além de atuar como divulgadora científica no podcast Dragões de Garagem.

Referências:

  • CAPSTICK, S. et al. International trends in public perceptions of climate change over the past quarter century. WIREs Climate Change, v. 6, n. 1, p. 35–61, jan. 2015.
  • CASTELFRANCHI, Y. et al. As opiniões dos brasileiros sobre ciência e tecnologia: o paradoxo da relação entre informação e atitudes. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 20, n. suppl 1, p. 1163–1183, 30 nov. 2013a.
  • LEISEROWITZ, A. et al. Global Warming’s Six Americas: a review and recommendations for climate change communication. Current Opinion in Behavioral Sciences, v. 42, p. 97–103, dez. 2021c.
  • MAIBACH, E. W. et al. Identifying Like-Minded Audiences for Global Warming Public Engagement Campaigns: An Audience Segmentation Analysis and Tool Development. PLoS ONE, v. 6, n. 3, p. e17571, 10 mar. 2011.
  • VAN DER LINDEN, S. Determinants and Measurement of Climate Change Risk Perception, Worry, and Concern. In: VAN DER LINDEN, S. (Ed.). Oxford Research Encyclopedia of Climate Science. [s.l.] Oxford University Press, 2017a.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.