O que determina o sucesso de restauração de um ecossistema

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Este paper, publicado no periódico acadêmico Restoration Ecology e desenvolvido por Adriana Manhães, Dulce Mantuano, Jerônimo Sansevero, Laura Pantaleão, Luiz Moraes, Mariana Saavedra e Nino Amazonas, investigou como as espécies plantadas afetam o sucesso da restauração de um ecossistema danificado.

O estudo comparou seis áreas da região da Mata Atlântica em processo de restauração há 20 anos. A partir dessa análise, os pesquisadores argumentam que a diversidade das espécies plantadas nessas comunidades foram um importante fator para a recuperação do ecossistema.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como o plantio de distintas espécies de árvores afeta o sucesso da restauração ecológica de um ecossistema?

Por que isso é relevante?

A restauração ecológica é responsável por recuperar e reabilitar ecossistemas degradados. Na maioria das vezes, para acelerar este processo, acontece o plantio de mudas de espécies vegetais.

Ao longo do tempo, o sucesso de um projeto de restauração pode ser avaliado a partir da comparação entre a diversidade funcional (a função que as espécies plantadas na área têm em relação à reabilitação do ecossistema) da floresta jovem e de uma floresta madura. Desse modo, é possível acompanhar se a área em restauração está retomando suas funções ecológicas, como retenção de água, aumento da quantidade de carbono retirado da atmosfera, entre outros. Alguns percursos de trajetória funcional podem inclusive indicar que o desenvolvimento das comunidades plantadas não está indo em direção ao objetivo e, portanto, indicam que a região de plantio precisa ser redirecionada.

Resumo da pesquisa

O estudo fez uma avaliação comparativa de seis comunidades em processo de restauração ecológica, plantadas com distintas combinações de espécies vegetais, no bioma Mata Atlântica.

Para avaliar o sucesso da restauração, foi monitorado o avanço que cada comunidade teve ao longo de um período de 20 anos, medindo o quanto a área restaurada se distanciou do seu estado inicial e o quanto se aproximou do padrão de referência de uma floresta preservada.

Quais foram as conclusões?

As principais conclusões da pesquisa demonstram que a composição inicial do plantio, ou seja, as espécies das mudas plantadas a fim de recuperar a área, afeta a trajetória funcional e o sucesso restaurativo do ecossistema.

Além disso, entre as comunidades analisadas pelo estudo, a que possuía tanto espécies plantadas com atributos funcionais aquisitivos (por exemplo, crescimento rápido e tolerância ao sol) quanto conservativos (crescimento mais lento e tolerância à sombra), ou seja, maior diversidade funcional, apresentou os melhores resultados de sucesso.

Uma última conclusão diz respeito à trajetória funcional da restauração ecológica, que pode ser utilizada como uma ferramenta eficaz na avaliação do sucesso de áreas em processo de restauração, além de complementar os demais indicadores ecológicos tradicionalmente utilizados no monitoramento dessas regiões.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pesquisadores, tomadores de decisão na área de restauração ecológica e órgãos governamentais que avaliam plantios.

Esta pesquisa é uma parceria entre a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e a Petrobras/ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).

Adriana Manhães é formada em engenharia florestal pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e mestre em ciências florestais pelo INPA (Instituto de Pesquisas da Amazônia). Doutora em ecologia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e tem pós-doutorado em restauração ecológica e serviços do ecossistema pela mesma universidade. Atualmente, desenvolve seu pós-doutorado em restauração ecológica funcional e ecofisiológica na UFRJ.

Dulce Mantuano é professora da UFRJ na área de ecofisiologia vegetal. Doutora pelo JBRJ (Jardim Botânico do Rio de Janeiro). Foi pesquisadora visitante na Radbout University (Holanda) e no Muséum National d’Histoire Naturelle (França). Atualmente, desenvolve pesquisas em restauração ecológica e estresse fisiológico em plantas.

Jerônimo Sansevero é professor da UFRRJ e doutor em botânica pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Coordena o Laboratório de Ecologia Aplicada e desenvolve estudos nas áreas de restauração ecológica, ecologia funcional e serviços ecossistêmicos.

Laura Pantaleão é engenheira florestal (UFRRJ), mestre em ciências ambientais e florestais (UFRRJ) e especialista em projetos sustentáveis, mudanças climáticas e mercado de carbono (Universidade Federal do Paraná). Atualmente, atua como especialista em recursos hídricos na Agevap (Agência de Bacias).

Luiz Moraes é graduado em engenharia agronômica pela ESALQ-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo) com doutorado em Agronomia pela UFRJ. Atualmente é pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), no Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia.

Mariana Saavedra é bióloga da UFRJ. Possui doutorado em em botânica pelo JBRJ. Tem experiência em taxonomia de fanerógamas, principalmente nos temas Dasyphyllum, Asteraceae, filogenia e flora.

Nino Amazonas é diretor técnico do Jardim Botânico de São Paulo. Possui pós-doutorado em ecologia funcional na restauração da Mata Atlântica pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)/UFRJ. Doutor em recursos florestais pela ESALQ-USP. Tem experiência em restauração ecológica sob diversas abordagens.

Referências:

  • Brancalion PH, Holl KD (2016) Functional composition trajectory: a resolution to the debate between Suganuma, Durigan, and Reid. Restoration Ecology 24:1–3.
  • Li L, Cadotte MW, Martínez-Garza C, De La Peña-Domene M, Du G (2018) Planting accelerates restoration of tropical forest but assembly mechanisms appear insensitive to initial composition. Journal of Applied Ecology 55: 986–996.
  • Poorter L, Rozendaal DM, Bongers F, De Jarcilene SA, Alvarez FS, Andrade JL, Villa LFA, Becknell JM, Bhaskar R, Boukili V (2021) Functional recovery of secondary tropical forests. Proceedings of the National Academy of Sciences 118:e2003405118.
  • Suganuma MS, Durigan G (2015) Indicators of restoration success in riparian tropical forests using multiple reference ecosystems. Restoration Ecology 23:238–251.
  • Weidlich EW, Nelson CR, Maron JL, Callaway RM, Delory BM, Temperton VM (2020) Priority effects and ecological restoration. Restoration Ecology 29: e13317.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.