O papel das mulheres na gestão de desastres no Brasil

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Esta tese de doutorado, elaborada por Julia Lopes da Silva, na PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), analisou a importância da participação feminina na gestão de desastres no Brasil.

Com base em estudos de caso focados em duas comunidades da cidade de Campinas, no interior de São Paulo, Silva defende que as mulheres se destacam em situações de crise. No entanto, essa participação fica restrita à sociedade civil. No âmbito político, as mulheres não têm a chance de atuar na gestão de desastres, devido à desigualdade de gênero e às dificuldades de alcançar influência nesse meio.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como funciona e qual é a importância da participação das mulheres na gestão de desastres urbano-ambientais no Brasil?

Por que isso é relevante?

Ao longo das últimas décadas, inúmeros desastres foram registrados no Brasil e no mundo. Eles acarretaram severos danos socioeconômicos e ambientais. Nesses eventos, as mulheres sofrem expressivamente mais do que os homens, devido a fatores culturais, sociais e econômicos.

Apesar disso, as mulheres possuem grande potencial para a promoção de ações de mitigação e gestão de desastres. Todavia, no Brasil, as políticas e os planos institucionais que lidam com prevenção e gestão do risco, de caráter essencialmente tecnicista, não possuem uma abordagem de gênero ou uma preocupação em envolver as comunidades afetadas, mantendo-se em desacordo com o que prega o consenso científico sobre o tema.

Resumo da pesquisa

O estudo se baseou em três eixos: revisão teórico-conceitual, levantamento documental e pesquisa de campo.

Na etapa da pesquisa de campo, foram analisados dois estudos de caso, ambos referentes ao município de Campinas, no interior do estado de São Paulo. As comunidades estudadas, Vila Moscou e complexo do Parque Oziel, além de expostas a riscos urbano-ambientais, foram impactadas pela pandemia – compreendida como um desastre. Nessas regiões, as mulheres foram protagonistas no enfrentamento da covid-19 e dos seus efeitos na população local.

A escolha de estudar a relação entre gestão de desastres e a pandemia nessa pesquisa se relaciona às lições resultantes desse fenômeno, que possuem potencial de serem aplicadas em um urbanismo de base social para enfrentamento de outros riscos de desastres comumente observados no Brasil, como enchentes e inundações.

Dessa forma, o estudo apresentou uma contribuição para a construção de um novo paradigma – menos tecnocrático, mais emancipatório e igualitário – para pensar a questão do risco no país, que necessariamente passa pelo engajamento popular e pelo protagonismo feminino como elementos centrais da construção de cidades resilientes.

Quais foram as conclusões?

Ao final do estudo, concluiu-se a importância de ouvir e dar voz às demandas, reflexões e contribuições dos cidadãos quanto aos problemas que eles vivenciam. O primeiro passo é reconhecer que as comunidades afetadas não são apenas vítimas. Pelo contrário, elas muito têm a contribuir na busca por soluções que pretendem reduzir a vulnerabilidade e aumentar a capacidade de recuperação.

O fortalecimento de um modelo de gestão urbana participativo aparece como caminho para o aprofundamento da democracia, para o empoderamento de setores historicamente marginalizados e para o aperfeiçoamento de cidades resilientes. Para tanto, é fundamental que o Estado se mostre mais permeável à participação popular, bem como reconheça a importância do conhecimento local e do desenvolvimento de uma perspectiva que envolva as mulheres e as comunidades nas políticas de redução dos riscos de desastres.

Embora as mulheres tenham maior participação no âmbito da sociedade civil, no âmbito da representação política junto ao Estado, sua participação ainda é bastante reduzida. Essa situação está ancorada em um contexto sistêmico de desigualdades de gênero, o qual apresenta maiores obstáculos para que mulheres cheguem a posições de prestígio e influência. Não por acaso, a gestão institucional da prevenção e do manejo de desastres está tradicionalmente atrelada a uma perspectiva colonial, racista e patriarcal à medida que perpetua um modelo de gestão de risco essencialmente tecnicista e invisibiliza os grupos mais afetados por desastres, excluindo-os dos processos de gestão e mitigação do risco.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Gestores públicos, profissionais e técnicos que lidam com gestão de desastres, o movimento feminista e a sociedade em geral.

Julia Lopes da Silva é gestora e analista ambiental formada pela Universidade Federal de São Carlos, mestre e doutora em arquitetura e urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Pós-graduanda em meio ambiente e sustentabilidade pela Fundação Getulio Vargas.

Referências:

  • ACSELRAD, H. et al. O que é justiça ambiental? Rio de Janeiro: Garamond, 2008.
  • PORTO, M.; FINAMORE, R. Riscos, saúde e justiça ambiental: o protagonismo das populações atingidas na produção de conhecimento. In: Ciência & Saúde Coletiva, 17(6), p.1493-1501, 2012.
  • SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 532 p., 2009.
  • UNITED NATIONS; INTERNATIONAL STRATEGY FOR DISASTER REDUCTION. Gender Perspectives: Integrating Disaster Risk Reduction into Climate Change Adaptation. Good Practices and Lessons Learned. Genebra, 2008.
  • VALENCIO, N. et al. Sociologia dos desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: RiMa Editora, 2009.
  • ZAIDI, Z.; FORDHAM, M. The missing half of the Sendai framework: Gender and women in the implementation of global disaster risk reduction policy. In: Progress in Disaster Science, v. 10, p. 1-7, 2021.

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