A qualidade da água destinada ao consumo humano no Brasil

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Esta tese de doutorado, desenvolvida por Luciano Barros Zini, na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), analisou os riscos para a saúde de contaminação química a partir do consumo de água no Brasil e, em um segundo momento, as chances de infecção por protozoários no estado do Rio Grande do Sul.

Entre os resultados, o pesquisador destaca que algumas das amostras analisadas apresentaram elementos não previstos pelo Padrão Brasileiro de Potabilidade de Água. Além disso, alguns sistemas de abastecimento de água indicaram a presença de protozoários que causam doenças como a Giardia spp. e Cryptosporidium spp.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quais são os contaminantes químicos presentes na água para consumo humano no Brasil? Qual o risco de infecção por protozoários a partir dos sistemas de abastecimento de água do Rio Grande do Sul?

Por que isso é relevante?

O acesso à água potável é essencial à saúde. Além disso, é um direito humano e uma questão relevante nas políticas de proteção da saúde. Assegurar água e saneamento para todos, melhorar a qualidade da água, reduzindo a poluição, figura entre os objetivos do desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 da ONU (Organização das Nações Unidas).

Ao avaliar possíveis contaminações químicas a partir do consumo de água no Brasil e infecções por doenças causadas por protozoários, como Giardia spp. e Cryptosporidium spp, no estado do Rio Grande do Sul, a pesquisa contribui com valores guias para parâmetros químicos não previstos no padrão de potabilidade e com estimativas de risco de infecção.

Resumo da pesquisa

A metodologia do estudo se dividiu em duas etapas. Em um primeiro momento, o foco foi no mapeamento de ocorrências de contaminações químicas no Brasil, a partir de uma revisão sistemática em artigos científicos de 2012 a 2019. Outra parte do mapeamento focou nos dados do Rio Grande do Sul, com buscas adicionais em teses e dissertações publicadas de 2008 a 2021 em universidades do estado.

As concentrações máximas de ocorrência para os parâmetros previstos no padrão brasileiro de potabilidade foram comparadas com o valor máximo permitido e para as substâncias não previstas valores guias foram propostos com base na metodologia de avaliação quantitativa de risco químico, de acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, a partir de dados toxicológicos de exposição via água.

Em um segundo momento foram compilados dados sobre a presença de protozoários na água bruta (água que não recebeu nenhum tipo de tratamento) das estações de tratamento de água do Rio Grande do Sul, no período de 2016 a 2020.

Para o cálculo de infecção por Giardia e Cryptosporidium foi realizada a avaliação quantitativa de risco microbiológica, a partir de modelos matemáticos que consideram os dados da água bruta, a capacidade de tratamento e modelos de dose-resposta de ingestão desses protozoários via água.

Quais foram as conclusões?

Foram encontrados 101 parâmetros químicos na água para consumo humano no Brasil, dos quais 70 não estão previstos no Padrão Brasileiro de Potabilidade. Para 10 parâmetros químicos previstos no padrão de potabilidade e para 15 parâmetros não previstos foram encontradas concentrações de ocorrência acima de limites toleráveis de risco à saúde. Embora o Padrão Brasileiro de Potabilidade, baseado no binômio exposição/toxicidade, seja efetivo para determinar políticas públicas à nível nacional, o modelo não contempla parâmetros químicos que apresentam relevância local.

Neste sentido, os resultados relativos aos parâmetros químicos apresentados no estudo indicam a necessidade de que, em paralelo ao Padrão Brasileiro de Potabilidade, seja adotada uma listagem oficial mais ampla contendo valores guias para todos parâmetros químicos que já foram quantificados na água para consumo da população, a começar pelos 61 propostos pela pesquisa. Desta forma, os representantes do poder público local terão uma referência para adoção de medidas de abrandamento de riscos quando tais parâmetros forem identificados acima de limites toleráveis de risco.

Em relação à investigação feita para identificar os riscos de contaminação por protozoários, de um total de 2.304 análises de água bruta, 223 amostras apresentaram cistos de Giardia e/ou oocistos de Cryptosporidium em concentrações que variaram de 0,1 a 21,5/L. Assim, há sistemas de abastecimento de água que ultrapassaram os limites toleráveis de risco de infecção por Giardia de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Estes resultados poderão nortear órgãos governamentais a tomarem medidas de redução aos riscos à saúde.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Profissionais do saneamento, pesquisadores, e toda a população, para que cobrem dos agentes políticos ações para reduzir os riscos à saúde, como o tratamento de esgoto e dos resíduos da pecuária.

Luciano Barros Zini é engenheiro químico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre e doutor em engenharia química pela mesma instituição. É fiscal sanitário da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, atuando no Programa de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano.

Referências:

  • World Health Organization (WHO). Guidelines for Drinking-water Quality. Fourth edition incorporating the first addendum. 2017.
  • World Health Organization (WHO). Pharmaceuticals in Drinking-water. Public Health and Environment Water, Sanitation, Hygiene and Health. Geneva, Switzerland. 2011.
  • World Health Organization (WHO). Quantitative Microbial Risk Assessment: Application for Water Safety Management. Geneva, Switzerland. 2016.
  • World Health Organization (WHO). Guidelines for Drinking Water Quality. Cryptosporidium. EHC Cryptosporidium draft 2. 2006a.
  • Brasil. Ministério da Saúde. 2021. Portaria Nº888. Dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. Brasília.

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