O papel da internet no gênero da reportagem jornalística

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Este artigo, elaborado por Branco Di Fátima e publicado na revista acadêmica Media & Jornalismo, analisou 151 reportagens de veículos brasileiros e portugueses para entender o impacto da internet nesse gênero jornalístico.

De acordo com o autor, as publicações no meio digital são combinadas a recursos extras que promovem uma interatividade com o leitor. Além disso, o recorte das reportagens analisadas sugere uma mudança na produção dos textos, que são cada vez mais assinados por times, substituindo as autorias individuais.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como a internet influenciou o gênero da reportagem jornalística em Portugal e no Brasil?

Por que isso é relevante?

A reportagem é considerada um gênero nobre no jornalismo. A sua ampla liberdade narrativa contribui para a integração das potencialidades da internet e, assim, revela as rotinas de trabalho mais sofisticadas das redações. As reportagens também indicam novas formas de narrar histórias reais, elemento importante numa época caracterizada pela aceleração dos processos de produção, pelo consumo de informações digitais mais democratizado e pela dispersão das audiências.

Resumo da pesquisa

Para investigar a evolução da reportagem na internet, a pesquisa examinou 151 textos jornalísticos (57 portugueses e 94 brasileiros), produzidos entre 2012 e 2016, por 37 veículos de comunicação dos dois países.

As reportagens foram analisadas com 57 perguntas para medir a frequência de utilização de recursos como fotos, vídeos, áudios, gráficos e animações.

Quais foram as conclusões?

Os dados revelaram um crescimento de 2.700% no número de reportagens produzidas para a internet. Esse é um alinhamento observado em outros períodos do jornalismo, quando o interesse dos públicos e da indústria confluíram para potencializar a elaboração de conteúdos longos. No contexto da pesquisa, esse novo período da reportagem é chamado de “quarta vaga”.

Além disso, os resultados mostram que a reportagem é assinalada pela preservação de princípios fundadores do gênero, desde o século 19, e pela articulação de potencialidades do jornalismo digital, embora nem todos os recursos tenham a mesma força na narrativa.

No que diz respeito aos veículos analisados, os jornais representam 42,1% da amostra portuguesa e 71,3% da brasileira. Em geral, as temáticas mais frequentes nas reportagens são sociedade (27,8%), justiça e polícia (13,9%) e conflitos armados (12,0%).

Contrariando a ideia de que os conteúdos na web têm ampla liberdade narrativa, a maioria das reportagens segue um modelo linear e a escrita recebe atenção especial — o que deixa claro que a quarta vaga prefere enredos com início, meio e fim bem definidos.

A reportagem na internet depende mais dos recursos multimídia (combinação de mais de um tipo de mídia), da interatividade e do hipertexto – componentes estruturantes da trama –, em comparação à personalização, à memória ou à onipresença – recursos auxiliares para contar a história.

A quarta vaga também impulsionou uma mudança na autoria das reportagens. A ideia do repórter solitário dá lugar aos grupos de base interdepartamentais, nos quais o jornalista está inserido em uma ampla rede de trabalho.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pesquisadores de ciências da comunicação, de gêneros jornalísticos e do jornalismo digital; profissionais de comunicação interessados em storytelling; jornalistas e profissionais da imprensa em geral; estudantes e professores de jornalismo; editores, donos de veículos e patrocinadores.

Branco Di Fátima é jornalista e escritor. Doutor em ciências da comunicação pelo ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa), é membro associado do CIES (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) e do OdeCom (Observatorio de Comunicación) da PUCE (Universidad Católica del Ecuador). É professor na ESCS (Escola Superior de Comunicação Social) e autor do livro-reportagem “Dias de tormenta” (Geração Editorial).

Referências:

  • Di Fátima, B. (2021). Quarta Vaga da reportagem: retratos em português. Media & Jornalismo, 21(38), 77-98.
  • Di Fátima, B., Gouveia, C. & Lapa, T. (2020). Porto vs Benfica. Uma cartografia entre o amor e o ódio no Twitter. Estudos em Comunicação, 1(30), 147-175.
  • Di Fátima, B. (2019). Dias de tormenta. Coleção História Agora, 16. São Paulo: Geração Editorial.
  • Di Fátima, B., Montargil, F. & Miranda, S. (2019). Estudando os comportamentos online: premissas e desafios no desenvolvimento de um painel de utilizadores da internet. Texto Livre: Linguagem e Tecnologia, 12(1), 123-137.
  • Di Fátima, B. (2018). Diálogos com Gabo. Uma crónica do jornalismo na era da internet. In: Cardoso, G., Martinho, A.P. & Crespo, M. (Ed.). Jornalismo, indignação e esperança. Lisboa: Mundos Sociais, 193-200.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.