Como a caminhada pode servir de método de aprendizagem

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Esta dissertação de mestrado, desenvolvida por Ananda Casanova na Universidade de Cumbria, no Reino Unido, analisa como a caminhada urbana contribui para a discussão de temas como democracia, natureza e memória social.

Com uma proposta metodológica baseada na caminhada de um grupo de pessoas por alguns dos rios invisíveis da cidade de São Paulo, a autora argumenta que os resultados mostram uma mudança no olhar dos participantes em relação ao percurso explorado, ampliando seu conhecimento sobre questões sociopolíticas por trás do trajeto.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como práticas de caminhadas em ambientes urbanos podem contribuir para a aprendizagem ao ar livre enquanto método pedagógico?

Por que isso é relevante?

A pesquisa focou em dois temas: a mobilidade urbana a pé e a aprendizagem ao ar livre.

Para tal, a investigação partiu do tema dos rios invisíveis da cidade São Paulo, cenário de um contexto urbano complexo e multifacetado. A capital tem cerca de 300 cursos d’água que se estendem por mais de 3.500 km em seu território. A maior parte corre debaixo do concreto das ruas ou teve seu curso original retificado, devido a um processo intenso de urbanização que não soube respeitar a abundância de águas na cidade. Caminhar com os rios significa seguir a história de uma paisagem, na qual estão os rastros de muitas narrativas de um passado-presente colonial intimamente relacionado com a história da própria cidade – tanto das tensões, violências, invisibilizações e apagamentos de experiências, saberes e sujeitos ao longo do tempo, quanto da resistência por parte de sua população.

A relevância do estudo se dá pela investigação de possibilidades pedagógicas que fomentam modos afetivos de se relacionar com o espaço habitado da cidade, trazendo à tona o emaranhado de seres, forças e materiais que participam diariamente da vida urbana e tensionando narrativas hegemônicas sobre a paisagem, retornando aos passados que a compuseram para poder enxergar o presente e as possibilidades de futuro dos territórios que habitamos mais claramente.

Resumo da pesquisa

Em relação à metodologia da pesquisa, foram realizadas seis sessões de caminhadas com um grupo de seis participantes com idades entre 28 e 61 anos, mesclando duas abordagens: a deriva psicogeográfica, que investigava o curso invisível dos rios na paisagem a partir da sobreposição dos mapas hidrológico e político dos bairros, e caminhadas guiadas por áudio-guias, que forneciam informações sobre os cursos d’água. As caminhadas foram realizadas junto aos seguintes rios e córregos: Verde, Anhangabaú, Itororó, Bixiga, Itararé, Pirajuçara e Pinheiros.

Os participantes foram convidados a registrar sua experiência por meio de diferentes meios, como fotografia e vídeo. Ao final, a discussão se embasou nos registros audiovisuais, relatos escritos e entrevistas posteriores aos eventos. Entendendo a aprendizagem como um processo relacional e situando os rios como agentes fundamentais da experiência, o estudo apresenta algumas das histórias contadas pelas águas paulistanas, convidando à reflexão de como é possível aprender por meio de encontros sensoriais e corporificados com a paisagem.

Quais foram as conclusões?

Um dos principais elementos que se destacaram nos passeios relacionados à proposta metodológica, de acordo com os participantes, foi a mudança de percepção sobre o espaço urbano, à medida que seguir as trajetórias dos rios revelava nuances e dimensões até então ocultas nas paisagens. Essa transformação perceptiva é particularmente interessante para pensar no caminhar como uma experiência corporificada e situada, não apenas em sua dimensão material (o espaço físico percorrido pelos cidadãos), mas também na mudança dos sistemas de significados e afetos que emergem a partir dos encontros entre corpos e espaços, materialidades e discursos.

Nesse sentido, buscar compreender a cidade do ponto de vista das águas permitiu uma análise mais aprofundada das questões sociais, políticas e econômicas dos rios, seu papel na formação daqueles territórios, da população que ocupava seus entornos e dos desafios de ser pedestre em uma megacidade, onde o espaço público é constantemente reduzido em favor de interesses privados e do progresso econômico em sua matriz modernista e neoliberal.

A partir dos resultados obtidos, sugere-se que a prática da caminhada pode ser um método potente para experiências educativas comprometidas com a promoção de discussões e práticas baseadas em relações de interdependência entre pessoas, lugares e comunidades.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Educadores e pessoas interessadas em metodologias participativas de investigação social e aprendizagem experiencial, que tenham como enfoque uma abordagem transdisciplinar das questões socioambientais. Também pode interessar a profissionais e coletivos engajados com planejamento urbano, patrimônio histórico-cultural-ambiental e a produção do imaginário coletivo em torno da natureza urbana, a partir das interfaces entre educação e relações de interdependência ecológica na cidade.

Ananda Casanova é pedagoga, mestre em educação pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), com período sanduíche na Universidad Nacional de La Plata (Argentina), e mestre em transcultural european outdoor studies, programa financiado pela Comissão Europeia por meio do programa Erasmus +, coordenado pela Philipps-Universität Marburg (Alemanha) em parceria com a University of Cumbria (Reino Unido) e a Norwegian School of Sport Sciences (Noruega).

Referências:

  • BACHELARD, G. & FARREL, E.R. Water and dreams: An essay on the imagination of matter. Dallas: Pegasus Foundation, Dallas Institute of Humanities and Culture, 1994.
  • CARERI, Francisco. Walkscapes: el andar como práctica estética. Barcelona: Gustavo Gil, 2001.
  • INGOLD, Tim. The perception of the environment: Essays on livelihood, dwelling and skill. London: Routledge, 2000.
  • ILLICH, Ivan. H₂O and the waters of forgetfulness: Reflections on the historicity of ‘stuff’. Dallas: Dallas Institute of Humanities and Culture., 1985
  • RICHARDSON, Tina. (ed.) Walking inside out: Contemporary British Psychogeography. United Kingdom: Rowman & Littlefield International, 2015.
  • SANT´ANNA, D.B. ‘O corpo na cidade das águas: São Paulo (1840-1910)’, Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História. ISSN 2176-2767, 25(0), pp. 99–114, 2012.
  • SCHAMA, Simon. Landscape and Memory. New York: Vintage Books, 1996.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.