As escritoras brasileiras esquecidas pelo cânone literário

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Este artigo, desenvolvido por Laura Junqueira de Mello Reis e publicado na revista acadêmica Ars Historica, analisou o processo de esquecimento de escritoras brasileiras dos séculos 18 e 19 sob uma perspectiva de gênero, classe e raça.

Com uma investigação baseada em menções em revistas e jornais, a autora defende que as escritoras tinham certo reconhecimento no período estudado, entretanto, elas foram sumindo da memória da sociedade com o passar das décadas, atingindo o total apagamento no século 21.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Por que escritoras atuantes e reconhecidas pela sociedade nos séculos 18 e 19 foram esquecidas na contemporaneidade?

Por que isso é relevante?

A pesquisa investiga os motivos pelos quais as escritoras brasileiras Angela do Amaral Rangel, Barbara Heliodora, Beatriz Francisca de Assis Brandão, Delfina Benigna da Cunha e Ildenfonsa Laura César perderam o seu reconhecimento gradualmente dos séculos 18 ao 21. Ao mesmo tempo, seus pares masculinos, como Machado de Assis e José de Alencar, ainda se sustentam no cânone literário.

Assim, a pesquisa se torna relevante tanto por examinar os critérios que designam os cânones literários quanto por ressaltar a importância da história e dos escritos das autoras analisadas.

Um ponto de destaque para a análise é que todas as escritoras estudadas eram mulheres brancas. Apesar de não pertencerem a uma classe com alto poder aquisitivo, elas sabiam ler e escrever – o que, no período, significava uma inserção de um estrato, no mínimo, mediano. Assim, o reconhecimento dessas autoras recai também sobre a questão racial. Por serem brancas em um contexto no qual a escravidão era a base econômica do país, isso consistia em uma série de privilégios, como a introdução em espaços de sociabilidade específicos, que aumentava as chances de publicações nos jornais e revistas do período.

Resumo da pesquisa

O processo metodológico da pesquisa foi realizado a partir da leitura das chamadas “seções femininas” presentes nos jornais de grande circulação dos séculos 19 e 20, a exemplo da Revista da Semana. Nessas seções, os periódicos dedicavam-se a tratar de assuntos designados às mulheres. Os textos das escritoras analisadas caberiam, portanto, a esse espaço.

A análise dos textos se deu de forma qualitativa e quantitativa, ou seja, cada seção foi lida e, posteriormente, contabilizada. Assim, identificou-se uma redução de menções às escritoras nos veículos de imprensa e, consequentemente, na sociedade brasileira.

Quais foram as conclusões?

Os resultados expõem que o cânone literário oitocentista tinha uma base estritamente masculina Contudo, é necessário ir além desses cânones para alcançar as muitas mulheres que escreveram nesse período, sobretudo as que publicaram nos mais diversos jornais da época. As cinco autoras estudadas nesse artigo são apenas alguns exemplos de uma imensidão de mulheres que ultrapassaram barreiras e escreveram sobre política, estudos e relacionamentos no século 19.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Toda a população brasileira deve conhecer esses resultados, ampliando o alcance dessas autoras oitocentistas. Por meio da Hemeroteca Digital, projeto realizado pela Biblioteca Nacional, grande parte dos periódicos que essas escritoras publicaram estão disponíveis online sendo, portanto, de fácil acesso.

Laura Junqueira de Mello Reis é doutoranda em história política na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Graduada e mestre em história na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Pesquisadora integrante do Laboratório Redes de Poder e Relações Culturais da Uerj e associada ao Núcleo de História Social da Política da UFJF.

Referências:

  • DUARTE, Constância Lima. Arquivos de mulheres e mulheres anarquivadas: histórias de uma história mal contada. Gênero, Niterói, v. 9, p. 11-18, 2009.
  • GONZÁLEZ, Lélia. O papel da mulher negra na sociedade brasileira: Uma abordagem políticoeconômica. In: Spring Symposium the Political Economy of the Black World, Center for AfroAmerican Studies. Los Angeles: UCLA, 10-12 de maio de 1979 (mimeo), p.03.
  • JOB, Sandra Maria. Cânone, feminismo, literatura: relações e implicações. Revista eletrônica Falas Breves, Breves-PA, v. 2, n. 2, p. 59-71, fev. 2015.
  • MUZART, Zahidé Lupinacci. A questão do cânone. In: SCHMIDT, Rita T. (org) Mulheres e literatura: (trans)formando identidades. Porto Alegre: Palloti, 1997.
  • PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
  • TELLES, Norma. Escritoras, escritas, escrituras. In: DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009.

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