Como as fake news impactam o jornalismo no século 21

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Esta dissertação de mestrado, desenvolvida por Manuella Maria Silva Menezes, na Universidade Católica Portuguesa, investiga o impacto das fake news no campo da comunicação.

Com base em uma análise da história do jornalismo e em entrevistas com especialistas, a autora argumenta que a sociedade se tornou mais polarizada e descrente a partir desse fenômeno, sobretudo no recorte político.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como as fake news impactam o entendimento sobre o mundo de quem consome informação nas mídias sociais?

Por que isso é relevante?

Estudar profundamente este evento torna-se crucial para entender a comunicação da era atual e também evitar que se cometam injustiças baseadas em mentiras. As fake news põem em xeque a verdade e a missão do jornalismo, cuja função primordial é informar corretamente, para que os membros da sociedade se posicionem fundamentados na realidade ou, conscientemente e se preferirem, em seus próprios valores, mas sem utilizar subterfúgios para tal.

Em uma sociedade democrática, não há como debater saudavelmente nenhuma medida, da saúde à imigração, se os cidadãos e as autoridades não estiverem alinhados sobre o que é, de fato, verdade. Ou, pelo menos, sobre o que é a verdade factual. A desinformação confunde e transforma o debate em um duelo infindável de opiniões. Já em um regime autoritário, sem imprensa livre ou diversidade política, e com liberdade de expressão limitada, as mentiras podem tranquilamente ganhar as manchetes dos meios de comunicação sem que sejam ameaçadas por dúvidas ou inquirições.

Resumo da pesquisa

Para investigar o impacto das fake news no comportamento dos consumidores de informações nas mídias sociais, a pesquisa percorre a história do jornalismo, a fim de identificar os contextos sociais em que ocorreram mudanças significativas, e como cada etapa deixou ideias ou modus operandi encontrados hoje na disseminação de desinformação. O enquadramento teórico do estudo inclui a abordagem teórica do contexto das tecnologias de informação e comunicação, das mídias sociais e das fake news em si, sob à luz de autores das ciências humanas e sociais, nos campos da sociologia, antropologia e filosofia, que permitem abordar aspectos e dimensões complementares do fenômeno estudado. Além disso, foi feita uma pesquisa de metodologia mista, através de inquérito e entrevistas com especialistas no tema.

O método quantitativo da pesquisa envolveu a técnica de recolha de dados através de um inquérito de 30 perguntas disponibilizado online para uma amostra de pessoas com características diversas, mas com o traço comum de serem maiores de 18 anos e frequentemente consumirem notícias através de plataformas digitais. As perguntas foram segmentadas em três seções: “Dados Sociodemográficos”, “Práticas Midiáticas” e “Fake News em Questão”.

Já o método qualitativo se baseou em entrevistas, as quais foram fundamentais para o entendimento do fenômeno das fake news, e ainda complementaram a percepção do contexto e dos pontos levantados pelo inquérito quantitativo. O diálogo com especialistas no tema proporcionou respostas amplificadas, que abarcam a subjetividade e a complexidade do fenômeno. Para participar da pesquisa foram contactados seis especialistas que se dividem entre brasileiros e portugueses, de três áreas distintas: academia, jornalismo e política.

A estratégia de entrevistar especialistas do Brasil e de Portugal foi adotada a fim de entender com mais nitidez a manifestação do fenômeno e suas consequências nos dois países – o primeiro, Brasil, país de origem da autora; o segundo, Portugal, onde foi realizado o seu mestrado. Os entrevistados foram José Pacheco Pereira, professor, historiador, jornalista e político, tendo sido deputado e até vice-presidente do Parlamento Europeu em períodos distintos, que aconteceram entre 1987 e 2011; Ana Pinto Martinho, assistente de investigação do ESPP (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) do ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa), doutoranda e mestre em comunicação, cultura e tecnologias da informação e editora online da versão portuguesa do Observatório Europeu de Jornalismo; Paulo Pena, jornalista profissional desde 1998, especializado em jornalismo de investigação; Túlio Gadêlha, deputado federal brasileiro; Eugênio Bucci, professor doutor titular da Escola de Comunicações e Arte da Universidade de São Paulo, escritor, e ex-diretor de redação das revistas Superinteressante e Quatro Rodas e colunista do jornal O Estado de São Paulo; e Natália Leal, diretora de conteúdo da Agência Lupa, primeira agência especializada em fact-checking do Brasil.

Quais foram as conclusões?

As conclusões do trabalho identificam a dúvida, a polarização e a descrença que o fenômeno das fake news gerou na sociedade, com destaque para o campo político e midiático/jornalístico.

Os entrevistados foram unânimes em ressaltar que há um caráter manipulativo intencional em toda fake news, por isso nota-se o quanto esta definição ainda é nebulosa para o público, levando em consideração a amostra utilizada. Apenas 35% apontaram esta mesma característica no inquérito. Ou seja, a maioria ainda pensa que as fake news são o equivalente a mentiras, fofocas e boatos; ou pior, não sabem ou não se preocupam em entender o problema.

Todos os entrevistados afirmaram também que foi graças ao contexto das redes sociais online que o fenômeno das fake news surgiu. Observa-se nitidamente esse novo cenário no inquérito, pois mais da metade da amostra afirma se informar por estas mídias, principalmente pelo Facebook e pelo WhatsApp. As “bolhas” formadas por estas plataformas, seja por opção própria ou devido à exposição ao algoritmo, são identificadas quando uma parcela significativa dos inquiridos (28,3%) diz consumir mais notícias que vão de encontro às suas ideologias, ou que “seguem” um político, um partido específico ou uma instituição alinhada com suas crenças (17,9% - 17%).

Chama a atenção que algumas pessoas “culpem” o jornalismo pelas fake news, assim como é notório que os meios de comunicação impresso e a rádio sejam preteridos na hora da escolha dos canais pelos quais os usuários se informam. Esses dados vão de encontro à afirmação dos entrevistados de que as mídias sociais ganharam “espaço” em meio a uma crise do jornalismo, que começou antes do advento da internet, mas que foi impulsionada pelo estabelecimento e evolução das novas tecnologias. Esse levantamento corrobora também a observação de que as fake news servem para descredibilizar as instituições jornalísticas, pois, para alguns, não fica claro o que é notícia e o que é uma imitação fraudulenta.

Observou-se ainda no inquérito que as notícias que despertam maior interesse na amostra são de cunho político; dessa forma, deduz-se que elas estejam também entre as mais compartilhadas. Esse dado, relacionado com os quase 30% que dão preferência às notícias que validem seu posicionamento, com os 40% que admitiram já terem sido confundidos por alguma fake news e com os 46,5% que disseram já ter mudado de ideia devido à alguma notícia, podem nos indicar que as mídias sociais não são necessariamente – como ressaltaram a maioria dos especialistas – uma ameaça à democracia, mas, por sua capacidade de minar o debate público, colaborem para o enfraquecimento do sistema.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Estudantes e pesquisadores de jornalismo, pessoas interessadas no nosso contexto midiático atual.

Manuella Maria Silva Menezes é jornalista de formação e uma eterna apaixonada pela reportagem e pela escrita. Mestre em Internet e Novas mídias. Atua como coordenadora de mídias sociais na CNN Brasil. Já escreveu para diversos títulos do jornalismo brasileiro e trabalhou na área digital da TV Globo e da Editora Globo.

Referências:

  • BRIGGS, Asa & Burke, Peter (2006), Uma História Social da Mídia, Rio de Janeiro: Zahar.

  • BRUNO, Fernanda (2019), Pós-verdade e fake news, Rio de Janeiro: Editora Cobogó.
  • D’ANCONA, Matthew (2018), Pós-Verdade - A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news. São Paulo: Faro Editorial.
  • MCINTYRE, Lee (2018), Post-Truth, Cambridge: MIT Press
  • MELLO, Patrícia Campos (2020), A Máquina do Ódio, São Paulo: Companhia das Letras.

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