O fomento de novos métodos contraceptivos masculinos

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Esta dissertação de mestrado, elaborada por Georgia Martins Carvalho Pereira, na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), investiga como a ONG americana Male Contraception Initiative atua na produção e aceitação social de métodos contraceptivos masculinos.

Com embasamento socioantropológico, a autora argumenta que, apesar das transformações vinculadas ao gênero quanto à divisão sexual do trabalho contraceptivo, a contracepção prevalece como uma tarefa executada pelas mulheres.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa responde quais são as estratégias utilizadas pela ONG americana Male Contraception Initiative para fomentar a criação de novos contraceptivos não hormonais para homens cisgêneros (homens que se identificam com o gênero atribuído a eles no nascimento). Além disso, identifica como essa organização busca superar os desafios impostos ao lançamento de tecnologias que subvertem a divisão sexual do trabalho contraceptivo.

Por que isso é relevante?

A importância se dá a partir da análise às barreiras impostas em relação à disponibilização de produtos que romperiam com a associação entre mulheres cisgêneras (mulheres que se identificam com o gênero atribuído a elas no nascimento) e trabalho contraceptivo e as estratégias usadas pela ONG para superá-las.

A partir da descrição e da análise do trabalho da Male Contraception Initiative, questões sobre a configuração da divisão sexual do trabalho contraceptivo nos dias atuais e a manutenção da exclusão da contracepção do universo dos modelos dominantes de masculinidade foram apresentadas. Trazendo reflexões sobre noções de direitos reprodutivos, sobre modelos de paternidade e sobre como a biomedicina compreende e atua sobre homens e mulheres cisgêneros.

No que diz respeito ao cenário de métodos contraceptivos masculinos, há algumas opções em desenvolvimento. Os métodos de barreira, que consistem na inserção de um gel ou um dispositivo nos vasos deferentes (responsáveis pela circulação dos espermatozoides), bloqueariam a passagem dos espermatozoides sem impedir a ejaculação. Com exceção do RISUG (Reversible Inhibition of Sperm Under Guidance, “inibição reversível de esperma sob orientação” em tradução livre), em desenvolvimento na Índia desde a década de 1970, outros produtos que propõem o mesmo bloqueio, como o Vasalgel, o ADAM, o VasDeBlock e o Bimek SLV estão na fase de testagem pré-clínica.

Há métodos hormonais que já se encontram na fase de estudos clínicos. Dentre eles, têm destaque a DMAU, estudada em forma de pílula ou de injeção, o gel conhecido como NES/T e a pílula conhecida como 11-beta-MNTDC. Existem também diversos fármacos não hormonais que focam na produção, maturidade e mobilidade dos espermatozoides. Alguns exemplos são a gendarussa, o EPPIN, a Clean Sheets Pill, o JQ1 e o Adjudin.

Resumo da pesquisa

A partir de uma abordagem socioantropológica, utilizou-se a técnica de análise de documentos para compreender como a Male Contraception Initiative atua para a produção e a aceitação de tais tecnologias e que sentidos atribui a elas quando aponta a necessidade da sua disponibilização no mercado.

Foram selecionados textos publicados no período de setembro de 2014 a dezembro de 2016 no site da organização, com foco nos 34 artigos presentes no blog contido nesse site; 76 postagens na página da ONG na rede social Facebook publicadas no ano de 2016; e dez vídeos de curta duração produzidos pela ONG e disponibilizados em seu canal do YouTube até dezembro de 2016.

Quais foram as conclusões?

Os novos métodos contraceptivos para homens ainda são tecnologias improváveis porque, apesar de circularem na mídia e também nas redes sociais como produtos que em breve estarão disponíveis, a maioria das pesquisas ainda se encontra nas fases iniciais ou ainda não entrou nos estudos clínicos. Ainda, as pesquisas que já se encontram mais avançadas nas testagens encontram entraves ligados ao financiamento ou às concepções de risco e segurança associadas ao corpo masculino.

Apesar de mudanças observadas nas relações de gênero quanto à divisão sexual do trabalho contraceptivo, principalmente em meios urbanos e nos grupos socioeconômicos médios e altos, a contracepção continua sendo, em última instância, uma responsabilidade e prática feminina.

A manutenção da concepção da “pílula masculina” como instrumento para conter o crescimento populacional e ao mesmo tempo garantir a efetivação de direitos reprodutivos foi observada. Na perspectiva da ONG analisada, os homens são priorizados e a necessidade de um contraceptivo masculino é expressa em termos dos seus desejos e direitos, sendo os homens jovens o público-alvo desse novo método. Essa perspectiva do usuário de contraceptivos masculinos como o homem detentor de direitos reprodutivos apresentada pela Male Contraception Initiative materializa uma concepção igualitária de direitos reprodutivos, segundo a qual homens e mulheres são igualmente sujeitos desses direitos.

Uma “pílula masculina” pode ser lançada ou não na próxima década. Além disso, o seu caráter como uma tecnologia com potencial para o avanço da equidade entre gêneros não é algo dado, vai depender dos atores, objetivos e argumentos envolvidos e materializados na sua produção, fomento, comercialização, propaganda e uso.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Toda pessoa que questiona o porquê de as mulheres, na maioria dos casos, se responsabilizarem pelos métodos contraceptivos em uma relação sexual.

Georgia Martins Carvalho Pereira é doutoranda em saúde coletiva no Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Educadora popular e pesquisadora feminista que acredita na necessidade de uma segunda revolução contraceptiva que, além de incluir os homens cisgêneros como corresponsáveis pelo trabalho contraceptivo, disponibilize métodos mais seguros para todas as pessoas férteis e garanta a autonomia dos usuários no uso de tais tecnologias.

Referências:

  • MARTIN, M. The egg and the sperm: How science has constructed a romance based on stereotypical male-female roles. Signs, v. 16, n.3, p. 485-501,1991.
  • OUDSHOORN, N. Beyond the natural body: An archeology of sex hormones. London: Routledge, 1994.
  • OUDSHOORN,N. The male pill: A biography of a technology in the making. Durham: Duke University Press, 2003.
  • ROHDEN, F. O império dos hormônios e a construção da diferença entre os sexos. História, Ciência, Saúde- Manguinhos. Rio de Janeiro, v.15, supl., p.133-152, jun., 2008.
  • SILVA, J. Contracepção e masculinidade. Rev.Esboços. v. 11, n.11, p. 157-166, 2004.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.