A mobilidade urbana a partir da perspectiva das mulheres

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Esta dissertação de mestrado, elaborada por Mariana Imbelloni Braga Albuquerque, na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), analisa o significado do direito à mobilidade urbana por um ângulo que leva o gênero em consideração.

Fundamentada em pesquisa teórica e em entrevistas com oito moradoras da capital e da região metropolitana do Rio de Janeiro, a autora argumenta que a mobilidade urbana impõe barreiras de pertencimento à cidade, afetando, principalmente, mulheres que gastam muito tempo de suas rotinas no transporte público.

A qual pergunta a pesquisa responde?

O que é o direito à mobilidade urbana quando se pensa na mobilidade das mulheres?

Por que isso é relevante?

O crescimento das cidades nas últimas décadas transformou a mobilidade urbana em um dos temas de maior urgência no que diz respeito à reflexão de cidades mais sustentáveis, com um mínimo de qualidade de vida e que garanta direitos aos seus moradores. Para atingir isso, é preciso não só repensar nosso modelo de transporte como um todo, mas compreender os múltiplos deslocamentos dos usuários que dependem do setor de mobilidade.

As linhas de ônibus e trens não atendem satisfatoriamente a essas necessidades, aumentando o tempo do deslocamento, o preço das passagens e o desgaste físico das pessoas que utilizam o transporte público, sobretudo das mulheres. Pensar a mobilidade a partir da realidade das mulheres, em um recorte racial e econômico, modifica a compreensão que se tem das cidades e fornece dados para melhorias do planejamento urbano.

Resumo da pesquisa

O estudo envolveu uma pesquisa documental e teórica sobre a mobilidade urbana de mulheres, somada a uma investigação sobre os deslocamentos delas na capital e na região metropolitana do Rio de Janeiro. A pesquisa documental-teórica, sobretudo nas áreas de urbanismo e sociologia urbana, indicou uma carência de dados quanto aos deslocamentos de mulheres. Os textos, nesse ponto, contribuíram para mapear ausências, mas a continuidade da discussão precisava analisar a questão na prática.

Assim, a pesquisa de campo envolveu oito mulheres que moravam em locais diversos no Rio de Janeiro: duas eram moradoras de São Gonçalo, uma de Niterói, uma de Mesquita e as demais da capital nos bairros do Humaitá, Água Santa, Pechincha e Madureira. Entre elas, seis se identificaram como negras ou pardas e duas como brancas. Nesta parte, elementos como representação racial, etária e de mães com crianças em idade escolar foram levados em consideração, por serem temas que a pesquisa teórica já indicava como essenciais na organização dos deslocamentos característicos de mulheres e da própria cidade.

A parte prática consistiu, assim, em entrevistas realizadas com cada uma das sujeitas de pesquisa e toda a observação envolvendo meios de transporte – em ônibus, metrôs, vans, trens e caminhadas. Um dos dados mais importantes, sobretudo para as mulheres que se deslocam por longos períodos, de até cinco horas por dia, é que muito de suas vidas cotidianas se dá em trânsito. Há muita intimidade por trás do exercício da maternidade, fisicamente ou pelo celular, das preocupações com a casa, do planejamento e das paradas dos meios de transporte. Acompanhar os deslocamentos e suas eventuais alterações, evidenciaram como, além de todas as questões estruturais que a literatura urbana indicava, a dimensão de vida da mobilidade é muito importante.

Quais foram as conclusões?

De modo mais marcante do que na pesquisa teórica, a pesquisa de campo trouxe à tona a divisão racializada da cidade como uma das principais marcas da configuração da mobilidade. Também tornou evidentes os deslocamentos de cuidado – locomoções motivadas com fins de gestão do ambiente doméstico e cuidado com os filhos –, frequentes no cotidiano das mulheres, que desconsideram esse tipo de atividade quando falam de suas rotinas.

Sobretudo, evidenciou como as barreiras de pertencimento da cidade – o acesso a direitos, de pertencimento subjetivo e de possibilidade de existência de uma maneira bem literal – são geridas de maneira cabal pela organização racializada e generificada dos transportes.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pessoas que queiram pensar a cidade, a partir do direito, da arquitetura, do planejamento urbano e da sociologia.

Mariana Imbelloni Braga Albuquerque é graduada em história pela Universidade Federal Fluminense e em direito pela PUC-Rio. Mestra e doutoranda em direito pela mesma universidade.

Referências:

  • BARBOSA, Jorge Luiz. “O significado da mobilidade na construção democrática da cidade” in BALBIM, KRAUSE E CUNHA, (org) Cidade e Movimento. Mobilidades e Interações no Desenvolvimento Urbano. Brasília: IPEA- ITDP, 2016.
  • BUTLER, Judith. Quadros de Guerra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016
  • GARCIA, A. S. Desigualdades Raciais e Segregação Urbana em Antigas Capitais – Salvador, Cidade d’Oxum e Rio de Janeiro – Cidade de Ogum. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
  • JÍRON. P e IMILAN, W. “Observando juntos em movimento: possibilidades, desafios o encrucijadas de uma etnografia colectiva” in Alteridades, Vol 26. N. 52.
  • SCOTT, Joan. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Educação e Realidade. Porto Alegre: Faculdade de Educação/UFRGS, Vol.6, N° 2, jul/dez 1990.

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