A ascensão de personalidades midiáticas na política

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Esta tese de doutorado, elaborada por Janaine Aires, na UFRJ (Universidade do Rio de Janeiro), investiga como personagens da mídia brasileira que se candidatam a cargos políticos se beneficiam da exposição que têm enquanto comunicadores.

De acordo com a autora, os apresentadores, por meio de suas próprias plataformas na mídia, começam a promover suas campanhas antes mesmo de terem se candidatado oficialmente. O alcance dos veículos, a popularidade e a capacidade de diálogo com o público contribuem para o bom desempenho de suas candidaturas políticas quando elas, de fato, se concretizam.

A qual pergunta a pesquisa responde?

No contexto de comunicadores que também atuam na política, a área em que eles atuam na mídia está relacionada à sua atuação na política brasileira? Como a construção política de tais personagens é elaborada?

Por que isso é relevante?

Este estudo examina a atuação dos atores sociais que exercem concomitantemente funções na política – seja no poder Executivo ou no Legislativo – e na comunicação, como apresentadores, repórteres e comentaristas de televisão. Presentes no rádio, no jornalismo impresso e no ambiente virtual, tais personagens são importantes na conjuntura eleitoral e política brasileira e seu prestígio está fundamentado no papel social exercido no conjunto das redes simbólicas e clientelares que interligam a produção midiática e seu público.

Desde a redemocratização, comunicadores-políticos se candidatam à Presidência. Atualmente, oito governadores são desse grupo. E desde o processo de reabertura, em 1982, o Congresso brasileiro tem em média 13% de parlamentares com esse perfil. Em geral, são eles que figuram entre os candidatos com o maior número de votos nas casas legislativas. Interpretar esse fenômeno é central para entender como a mídia se reconfigura como grupo de interesse a partir de uma atuação política multidimensional.

Resumo da pesquisa

Com base em conceitos da economia política da comunicação, a pesquisa elaborou uma tipologia considerando a especificidade das emissoras de rádio, o gênero de suas programações e a plataforma política dos candidatos. A partir disso, cinco categorias foram identificadas:

1) Policial: relações diretas com instituições de policiamento e de vigilância. Plataforma midiática jornalística focada na cobertura da violência urbana. A atuação política voltada para a defesa do estado punitivo e encarcerador, da criminalização das drogas e da pobreza;

2) Religioso: exercício concomitante da atuação na mídia e em atividades de liderança religiosa e/ou eclesiástica. Plataforma midiática caracterizada, sobretudo, pelo aconselhamento religioso;

3) Defesa de direitos: mobilização de audiência em torno de direitos, no qual o comunicador-político assume o papel de advogado de sua audiência ou esclarecedor de dúvidas;

4) Assistencialista: cadeias promocionais de assistência e atendimento popular, de necessidades básicas, como distribuição de cadeiras de rodas, cestas básicas e fraldas, e simbólicas, como programas de transformação estética;

5) Outros: plataformas midiáticas variadas de ascensão: programas musicais, esportivos, humorísticos, de variedades, telejornais, entrevistas e políticos.

Quais foram as conclusões?

As campanhas políticas se iniciam com uma antecedência que mesmo os órgãos eleitorais desconhecem. No entanto, a popularidade não é o único elemento para explicar a ascensão destes personagens. Elementos estruturais e simbólicos interferem diretamente nos resultados: o alcance dos veículos, a empatia e a capacidade de diálogo com o público contribuem para o êxito das candidaturas políticas de apresentadores.

Além disso, são igualmente determinantes a natureza do vínculo que o programa/plataforma a partir do qual se lança proporciona; a atuação política do radiodifusor; a conjuntura política local; o nível de pressão midiática que o programa exerce e sobre quem exerce. O uso de concessões públicas como trampolins políticos deve ser objeto de debate público, especialmente pelos impactos na democracia, já que são inúmeros os obstáculos que os radiodifusores, como grupos de interesse econômico e político, podem oferecer à equidade e à pluralidade política.

Analisando cada mandato da Câmara dos Deputados entre 1982 e 2017, foi possível identificar que a maior parte dos comunicadores-políticos ascende através de plataformas midiáticas policiais e religiosas. A plataforma pela qual estes personagens ascendem é determinante para a base política que eles assumem na Câmara. Logo, uma plataforma midiática oriunda da cobertura da violência urbana resulta em uma atuação política voltada para a defesa do estado punitivo e encarcerador, da criminalização das drogas e da pobreza. Observa-se que a categoria religiosa também está hegemonicamente associada à defesa de pautas moralistas e dos interesses da família tradicional. Há, portanto, um intenso diálogo entre a programação televisiva e a política na ascensão da extrema direita no Brasil.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa pode interessar não somente os pesquisadores da comunicação, mas também do campo da ciência política e das ciências sociais.

Janaine Aires é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Líder do EPA! - Grupo de Pesquisa em Economia Política do Audiovisual e integrante do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Cultura.

Referências:

  • AGUIAR, Sonia. Territórios do Jornalismo: geografia da mídia local e regional no Brasil. Rio de Janeiro: PUC Rio/Vozes, 2017.

  • HALLIN, Daniel C. & MANCINI, Paolo. Sistemas de media: estudo comparativo. Três modelos de Comunicação e Política. Lisboa: Livros Horizonte, 2010.

  • HARVEY, David. Spaces of global capitalism: towards a theory of uneven geografical development. London: Verso, 2006.

  • MOREIRA, Sonia Virgínia. Rádio Palanque: fazendo política no ar. Rio de Janeiro: Mil palavras, 1998.

  • PINTO, Pâmela. Brasil e as suas mídias regionais: estudo dos mercados das regiões Norte e Sul. Rio de Janeiro: Luminária Academia, 2017.

  • VIDAL NUNES, Márcia. Rádio e Política: do microfone ao palanque dos radialistas políticos em Fortaleza (1982 – 1996). São Paulo: Annablume, 2001.

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