A prevenção ao suicídio juvenil além do método tradicional

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Esta dissertação de mestrado, elaborada por Caio Lo Bianco na Universidade Columbia, analisa as medidas de prevenção ao suicídio dos estudantes adotadas por escolas americanas.

O autor propõe a inserção de perspectivas sociológicas e psicanalíticas à discussão sobre o suicídio, a fim de compor uma abordagem que foque no que os adolescentes têm a dizer. Assim, o tema seria visto como um fenômeno social e subjetivo, ultrapassando a questão biomédica.

A qual pergunta a pesquisa responde?

O que está em jogo quando as escolas conceituam o suicídio de adolescentes exclusivamente como um problema médico? Como isso afeta as orientações sobre prevenção ao suicídio?

Por que isso é relevante?

No que diz respeito ao suicídio juvenil, aproximar as perspectivas sociológicas e psicanalíticas à abordagem biomédica – normalmente baseada em ensaios randomizados controlados – pode resultar em caminhos alternativos para a prevenção ao suicídio.

Para lidar com uma questão de extrema complexidade, é necessário combinar diferentes pesquisas e análises sem priorizar um tipo específico de conhecimento, o que parece ser especialmente importante em um momento em que certos conhecimentos, incluindo os da sociologia e da psicanálise, têm sido continuamente subvalorizados.

Resumo da pesquisa

A pesquisa se deu a partir de uma extensa revisão bibliográfica de livros e artigos nacionais e internacionais que abordavam, conjuntamente ou não, três temas principais: suicídio, adolescência e saúde mental na escola. Como o objetivo da pesquisa foi a integração de diferentes perspectivas, esses livros e artigos foram selecionados buscando um equilíbrio entre publicações e autores de três áreas principais: medicina/psiquiatria, sociologia e psicanálise.

Além disso foram ananalisados seis currículos de prevenção e posvenção ao suicídio presente nos Estados Unidos. Esses currículos foram selecionados levando em conta alguns critérios: tamanho, abordagem e pesquisas publicadas sobre eles. Essas análises incluíram uma inspeção do material utilizado com os alunos e na formação dos professores, além de entrevistas com os autores e autoras dos currículos. Importante ressaltar que essas análises serviram como base para a construção da pesquisa, e não estão incluídas no texto final.

O resultado está organizado em quatro partes principais. A primeira contém uma descrição da abordagem biomédica ao suicídio, – considerada a perspectiva mais popular na área –, e apresenta as consequências para os adolescentes quando as escolas se concentram apenas em tal visão. A segunda e terceira partes abarcam outras perspectivas, encontradas na psicanálise e na sociologia, que, apesar de serem continuamente subestimadas pela pesquisa acadêmica convencional, revelam limitações da abordagem biomédica, oferecendo para consideração das escolas uma outra compreensão acerca do suicídio. Por último, a quarta parte inclui um componente central da prevenção que dialoga com todas essas perspectivas, apontando para a necessidade de uma maior integração entre elas.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa propõe a adoção de uma abordagem de prevenção ao suícidio que crie espaços nos quais os alunos possam comunicar seu sofrimento, o que pode ser precisamente representado pelos comportamentos tão frequentemente considerados como disruptivos, indesejados ou desviantes. Espaços em que os adultos estejam dispostos a escutar esses alunos e analisar o que está por trás desses comportamentos.

Se os alunos muitas vezes expressam ideação suicida antes de uma tentativa real, a prevenção é possível. No entanto, em vez de procurar por “transtornos” e “doenças”, as escolas deveriam reconsiderar o seu papel na escuta do sofrimento.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Educadores, pais, psicólogos e a sociedade em geral.

Caio Lo Bianco é idealizador e diretor do LIV (Laboratório Inteligência de Vida), programa que desenvolve competências socioemocionais em mais de 500 escolas públicas e privadas em todo Brasil. Formado em economia pela FGV (Fundação Getulio Vargas) e arte-educação pelo Arte Ação Brasil, Caio também é professor, mestre em educação pela Universidade Columbia, em Nova York, e pós-graduado em processos educacionais de Reggio Emilia.

Referências:

  • Bangstad, S., & Nilsen, T. T. (2019). Thoughts on the planetary: An interview with Achille Mbembe. Retrieved from https://www.newframe.com/thoughts-on-the planetary-an-interview-with-achille-mbembe/.

  • Costa-Moura, F. (2005). Adolescência: efeitos da ciência no campo do sujeito [Adolescence: effects of science on the subject]. Psicol. clin. [online], 17(2), 113-125.

  • Durkheim, E. (2006). On suicide. (R. Buss, Trans.). New York: Penguin Books. (Original work published 1897).

  • Forget, J-M. (2011). Os transtornos de comportamento: onde está o rolo? [Behavioral disorders: where is the impasse?]. Porto Alegre: CMC.
  • Melman, C. (2009). Que espera o adolescente da sexualidade e da morte? [What does the adolescent expect from sexuality and death?]. In: Adolescent, sexo e morte (pp. 129-143). Porto Alegre: CMC.

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