Como o agronegócio estimula o apagamento de cafeicultoras

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Este artigo, publicado no periódico acadêmico Les Cahiers ALHIM (História e Memória da América Latina), analisa como o discurso do agronegócio influencia no apagamento de cafeicultoras do Sul de Minas Gerais.

A partir de uma análise do discurso, Mónica Zoppi-Fontana e Sheilla Resende destacam que, apesar da importância das mulheres ser diminuída na revista especializada em cultivo do café analisada no artigo, há um processo de identificação dessas mulheres enquanto cafeicultoras em suas narrativas sobre essa atividade produtiva.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como o discurso do agronegócio colabora para o silenciamento das cafeicultoras do Sul de Minas Gerais?

Por que isso é relevante?

O café é um grande cultivo comercial de exportação no Brasil. Por conta disso, o produto foi sofrendo, sobretudo a partir da primeira metade do século 20, um processo de institucionalização e legitimação, que modificou o seu regime de produção aos moldes da produção industrial. Assim, fazendeiros, detentores de grandes propriedades impuseram esse modelo também a pequenos produtores de grãos de café.

É neste cenário de sobreposição da agricultura como empresa à agricultura familiar que o papel das mulheres na cafeicultura se torna obscurecido, e até mesmo apagado. Deste modo, o artigo lança luz sobre a contradição entre uma cafeicultura praticada sobretudo sob sistema de agricultura familiar e a ausência da voz das cafeicultoras nos discursos legitimados da cadeia produtiva do café.

Resumo da pesquisa

Em uma primeira etapa, o estudo se baseou na análise do discurso no conteúdo de 12 edições da revista agropecuária Folha Rural, publicadas de março de 2018 a fevereiro de 2019. Trata-se de uma revista mensal assinada pela maior cooperativa de café do mundo, a Cooxupé (Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé), situada em Guaxupé, no Sul de Minas Gerais. Nessa etapa, os dados foram tomados como uma representação do discurso do agronegócio cafeeiro.

Na segunda etapa da investigação, 21 cafeicultoras do Sul de Minas Gerais foram entrevistadas. O material foi coletado pelas pesquisadoras e suas colaboradoras (notadamente mulheres produtoras de café), entre novembro de 2019 e junho de 2020, em encontros de formação e educação rural ou em visitas às propriedades das informantes. Foi pedido que as cafeicultoras registrassem vídeos de dois a cinco minutos em que elas pudessem contar sua experiência com o cultivo do café, organizando suas falas em torno das seguintes palavras-chave: “café”, “escola”, “prazeres”, “dificuldades”. Os vídeos foram salvos em arquivos digitais. Todas as informantes são juridicamente consideradas como pequenas produtoras.

Uma análise linguística das edições da Folha Rural e da transcrição dos depoimentos das cafeicultoras foi feita. Primeiro, foram recuperadas as regularidades dos discursos que compõem cada conjunto de dados. Em seguida, essas constantes foram analisadas utilizando conceitos-chave da disciplina Análise do Discurso. De modo geral, os dados foram analisados tendo como norte a compreensão de que fatores sociais e históricos (condições de produção) fazem parte da maneira como os sujeitos e as instituições (como a mídia) se expressam em suas práticas de linguagem.

Quais foram as conclusões?

O estudo mostrou que as edições analisadas da Folha Rural obscurecem o papel das mulheres na cafeicultura. Quando citadas, as mulheres são situadas nos espaços de “cuidado”: com a família, com os filhos, consigo mesmas.

Por outro lado, as análises dos depoimentos das cafeicultoras mostraram por meio de marcas linguísticas (como o uso do “a gente”, do “nós”, do “eu e meu marido”) um processo de produção de identidade/de identificação, que se desenvolve no seio da agricultura familiar. Neste modo de produção, uma identificação plena das mulheres como cafeicultoras é reafirmada em seu discurso.

Esta contradição revela, de um lado, o apagamento praticado pelo discurso do agronegócio sobre as cafeicultoras, e, de outro, o papel ativo dessas mulheres e a importância do seu trabalho para a cadeia produtiva cafeeira, que foi evidenciado em suas falas.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Agrônomos; gestores de empresas públicas e privadas relacionadas à cadeia produtiva do café; professores e estudantes de cursos e formações no domínio das ciências agrárias; jornalistas; linguistas; sociólogos; antropólogos; historiadores.

Mónica Graciela Zoppi-Fontana é doutora em linguística e professora do IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). É autora dos livros “Cidadãos modernos: Discurso e representação política” (1997) e “O português do Brasil como língua transnacional” (2009). Sua pesquisa aborda as temáticas da enunciação e dos processos de subjetivação no discurso, em particular relacionadas às questões de gênero, de políticas linguísticas e dos efeitos do neoliberalismo na argumentação.

Sheilla Maria Resende é doutoranda em linguística (cotutela) no IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e no Centre Universitaire de Recherches sur l'Action Publique et le Politique da Université de Picardie Jules Verne, em Amiens, na França. Licenciada em letras português, inglês e suas respectivas literaturas pela UFLA (Universidade Federal de Lavras) e bacharela em agronomia pela mesma universidade.

Referências:

  • COOXUPÉ, Folha Rural, <https://www.cooxupe.com.br/folharural/>, 1 novembre 2020.

  • COURTINE, Jean-Jacques, "'Le tissu de la mémoire : quelques perspectives de travail historique dans les sciences du langage", , 28ᵉ année, n°114, 1994, p. 5-12 DOI : 10.3406/lgge.1994.1673.

  • HENRY, Paul, HAROCHE, Claudine et PÊCHEUX, Michel, "La sémantique et la coupure saussurienne: langue, langage, discours", , n. 24, 1971, p. 93-106.

  • ORLANDI, Eni Pulcinelli, , Paris, Édition des Cendres, 2000, 152 p.

  • PÊCHEUX, Michel, , Paris, François Maspero, 1975, 280 p.

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