Os efeitos da produção de corantes a partir do pau-brasil

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Esta tese, elaborada por Fabíola de Almeida Salles Mariano, na USP (Universidade de São Paulo), investiga as consequências da retomada do uso do pau-brasil por artistas, designers e artesãos.

A autora sugere que a reinserção da planta enquanto substrato de corantes e pigmentos seja feita levando em consideração o histórico do pau-brasil no contexto do país, que se relaciona à extração ilegal de árvores e ao genocídio de populações indígenas.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quais as consequências da utilização da Paubrasilia echinata (conhecida como como ibirapitanga por povos indígenas) para produção de corantes e pigmentos? Quais as reflexões e posicionamentos críticos que o uso desse material pode desencadear no contexto contemporâneo?

Por que isso é relevante?

Muitos artistas, designers e artesãos estão retomando o uso de corantes e pigmentos naturais brasileiros. Entretanto, a produção dessas cores está relacionada a elementos históricos. A produção de corantes e pigmentos derivados da Paubrasilia echinata está atrelada à extração compulsiva de árvores, à extinção da espécie e ao genocídio de populações.

Resumo da pesquisa

A pesquisa se deu a partir de levantamento histórico, entrevistas com artistas e pesquisadores do tema e experimentações cromáticas com o uso da planta.

O levantamento histórico contextualiza o porquê do interesse comercial pelo pau-brasil logo que os europeus chegaram aqui e conta, brevemente, como se davam os processos de extração envolvendo as populações locais e o tratamento da matéria-prima na Europa. Para problematizar esse processo histórico e trazer questionamentos do seu uso hoje, foi realizada entrevista com a presidente da Fundação Nacional do Pau-Brasil, Ana Cristina de Siqueira Lima.

Ainda como parte do levantamento histórico, uma coleção de receitas de tingimento e produção de pigmento com o uso do pau-brasil foi compilada, contendo 13 receitas, sendo que a mais antiga data do século 15. Como introdução desta parte da pesquisa, conceitos técnicos foram definidos, a fim de facilitar a compreensão das receitas. Foi também realizada entrevista com a pesquisadora Eva Eis, cuja tese de doutorado defendida no departamento de restauro da Universidade Técnica de Munique se refere à produção de pigmento de laca de pau-brasil.

Além disso, a pesquisa apresenta uma produção poética de autoria própria, tendo o conteúdo da pesquisa como tema. Nesta etapa, foram feitas entrevistas com artistas contemporâneos que têm a materialidade cromática como força motriz de suas produções: Carlos Vergara e Amelia Toledo. As pinturas, desenhos, tingimentos e outros trabalhos, foram compartilhados parcialmente no caderno da tese, e também, em uma exposição de pinturas, gravuras e desenhos, em 2017, no Espaço das Artes, em São Paulo.

Quais foram as conclusões?

A investigação mostrou que o uso da Paubrasilia echinata deve ser revisitado com um olhar crítico para sua história, informativo, e propositivo, em sua continuidade e forma. A fim de trazer consciência, desconstruir e rever as lógicas herdadas do colonialismo que a sua trajetória carrega: extrativista, monocultora, exploratória, genocida.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Artistas, designers que trabalham com tingimento natural, historiadores, curadores, pesquisadores, restauradores e demais interessados.

Fabíola Salles Mariano é artista plástica, pesquisadora e performer. Graduada em comunicação das artes do corpo pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e também em artes plásticas pela ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, é mestre e doutora em artes visuais pela USP.

Referências:

  • CARDON, Dominique. Natural Dyes: Sources, Tradition, Technology and Science. London, Archetype, 2007.
  • GAGE, John. A Cor na Arte. São Paulo, Martins Fontes, 2002.
  • GOETHE, Johann Wolfgang von. Doutrina das Cores. Tradução Marco Garaude Giannotti. São Paulo, Nova Alexandria, 1993.
  • KIRBY, Jo. Natural Colorants for Dyeing and Lake Pigments: Practical Recipes and their Historical Sources. London, Archetypes, 2014.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz; Starling, Heloisa Murgel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo, Companhia das Letras, 2015.
  • VITORINO, Tatiana Mendes. A Closer Look at Brazilwood and its Lake Pigments. Lisboa, Departamento de Conservação e Restauro, Universidade Nova de Lisboa, 2012. (Dissertação de Mestrado).

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