O perfil social dos agentes culturais brasileiros

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Esta tese de doutorado, desenvolvida por Rodrigo Correia do Amaral, na USP (Universidade de São Paulo), investigou as características dos profissionais da cultura no Brasil.

Nos últimos anos, o país aumentou a oferta de cursos voltados à formação de produtores e gestores culturais. Esse fenômeno tem base em mudanças ocorridas nas últimas décadas, como as políticas econômicas e culturais e a facilitação do acesso ao ensino superior.

Por meio de entrevistas com profissionais da área, o autor destacou, entre outras descobertas, que o ingresso nessa área frequentemente acontece por meio de indicações feitas a partir de uma rede de contatos. Por outro lado, constatou que o trabalho cultural não oferece muita mobilidade social.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quem são as pessoas que escolhem atuar no mercado das artes e da cultura no Brasil? O que o crescimento desta ocupação indica sobre os rumos políticos e econômicos assumidos pelo país?

Por que isso é relevante?

O estudo dos trabalhadores da cultura nos países desenvolvidos tem contribuído para a compreensão das mudanças ocorridas nas estruturas econômicas, no mundo do trabalho e nos sistemas de ensino.

No contexto brasileiro, os gestores e produtores culturais também apresentam, nos seus valores e nas suas práticas, aspectos das transformações econômicas, nas políticas de cultura e no acesso ao ensino superior ocorridas nas últimas três décadas. Assim, o estudo dessa temática torna-se relevante para a compreensão das manifestações locais dessas transformações, que foram impulsionadas pela globalização.

Resumo da pesquisa

A caracterização do perfil dos produtores e gestores culturais do Brasil se baseou na observação dos meios de ingresso na área, das opiniões dos agentes sobre o exercício da atividade, das suas práticas culturais, das suas preferências quanto ao papel do Estado e dos seus históricos educacionais, pessoais e familiares.

Para isso, o estudo realizou a pesquisa “Perfis dos produtores e gestores culturais do Brasil”. Por meio de convites postados nas redes sociais e de grupos de estudo da USP, o levantamento recebeu 540 participações oriundas de 156 municípios. Na etapa seguinte, foi feita uma análise descritiva dos resultados e uma análise de correspondência múltipla. Com o uso desta última técnica, foi possível visualizar os subgrupos existentes dentro desse campo profissional, gerados pela reunião de certas características comuns a uma parcela dos participantes.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa traçou um perfil social dos trabalhadores da cultura no Brasil. Esse grupo é constituído, na sua maioria, por mulheres, pessoas brancas e com nível superior.

Em 30% dos casos, o ingresso no meio cultural se dá pelo convite de outras pessoas, conhecidas com frequência durante o ensino superior cursado em faculdades de comunicação, jornalismo, produção cultural e outros cursos de humanidades. De forma alternativa, também ocorre pelo autoempreendedorismo daqueles que se veem vocacionados para as artes ou para o trabalho social.

O trabalho cultural oferece baixa mobilidade social, apesar de ser composto por profissionais altamente qualificados. A maioria não consegue reproduzir as condições de suas famílias, como a aquisição de moradia própria. Os entrevistados pela pesquisa revelaram um baixo engajamento político na participação em partidos políticos ou na participação em manifestações, restringindo seus interesses às atividades relacionadas à política cultural.

O cruzamento dessas características pela análise de correspondência múltipla gerou uma visualização de dois grupos opostos. Na primeira “nuvem” estão os participantes que registraram os salários e rendimentos mais altos. Junto a essa característica, há também o alto consumo de práticas culturais legitimadas, como tocar um instrumento e ir a concertos, e estão os participantes com maior escolaridade pessoal e familiar. Na nuvem oposta se concentram os participantes que registraram baixos rendimentos. Nela, também estão os participantes com menor escolaridade e de hábitos culturais menos valorizados nesse meio, como assistir a novelas frequentemente. Mesmo quando observada a religiosidade, a nuvem do grupo mais bem remunerado registra também uma maior presença de ateus e de seguidores de religiões afro-brasileiras e espiritualistas. A nuvem dos participantes menos bem-sucedidos registra uma quantidade maior de neopentecostais e espíritas.

Seguindo esses passos, o estudo demonstrou que o campo da gestão e da produção cultural no Brasil se adensou com o passar dos anos, reunindo dentro de si grupos de profissionais mais bem-sucedidos em oposição àqueles com menor acesso às posições de poder e com baixas remunerações. No entanto, mesmo sendo diversos, esses profissionais formam os contornos de um grupo maior, o qual permite ver nas feições dos seus membros as transformações pelas quais passou o Brasil.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados dessa pesquisa podem interessar aos sociólogos – especialmente os dedicados à sociologia da cultura, aos gestores públicos e privados da cultura e das artes, e aos estudantes de humanidades. De forma mais ampla, também podem interessar aos economistas e demais estudiosos do futuro do trabalho no Brasil.

Rodrigo Correia do Amaral é cientista social pela Universidade de São Paulo e doutor em Sociologia pela mesma instituição . Em 2018, realizou estágio sanduíche na UNESCO Chair "Cultural Policy for the Arts in Development" do Institut für Kulturpolitik da Universität Hildesheim, na Alemanha. Desde 1999, atua com a formulação e o desenvolvimento de políticas públicas. Atualmente coordena a área de pesquisas do Escritório USP Mulheres.

Referências:

  • ARRUDA, M. A. N. Metrópole e Cultura: São Paulo no meio do século XX – 2ª ed. São Paulo: EDUSP, 2015.
  • ARRUDA, M. A. N. A política cultural: regulação estatal e mecenato privado”. In: Tempo Social - revista de sociologia da USP, v. 15, nº 2, p. 177-193, novembro de 2003.

  • BOURDIEU, P. A Distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2017.

  • COULANGEON, P. Sociologia das práticas culturais. São Paulo: Edições SESC São Paulo, 2014.

  • DUBOIS, V. “What has become of the ‘new petite bourgeoisie’?: The case of cultural managers in late 2000s France”. In: COULANGEON, P.; DUVAL, J. The Routledge companion to Bourdieu’s Distinction. New York: Routledge, 2015.

  • DURAND, J. C. G. Arte, privilégio e distinção: artes plásticas, arquitetura e classe dirigente no Brasil (1855/ 1985). São Paulo: Perspectiva, 2009.

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