Os efeitos da desigualdade no ensino de matemática

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Esta tese de doutorado, desenvolvida por Túlio Silva de Paula, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), analisou a eficiência do ensino de matemática nas escolas municipais de Belo Horizonte.

A avaliação do nível de aprendizagem é fundamental para que o sistema educacional obtenha investimentos públicos.

Segundo o autor, o aprendizado precisa melhorar para compensar diferenças raciais, socioeconômicas e o atraso escolar.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Qual é a eficácia do ensino de matemática nas escolas municipais de Belo Horizonte?

Por que isso é relevante?

A avaliação dos resultados do ensino-aprendizado proporcionado pelas escolas é crucial para que o sistema educacional brasileiro receba investimentos adequados, de modo a garantir o direito universal à educação.

Além dessa apuração, o estudo compara cenários educacionais que podem tornar a educação excludente, destacando que o combate às desigualdades de aprendizado segundo sexo, cor/raça, nível socioeconômico e distorção idade-série (idade superior à ideal para cursar a etapa de ensino) pode ser estratégico para a melhoria da qualidade de ensino para todos os estudantes.

Resumo da pesquisa

A pesquisa estimou o impacto das escolas da rede municipal de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, sobre o aprendizado em matemática entre o 3º e o 9º ano do ensino fundamental.

Nesta pesquisa, utilizamos dados longitudinais, de 2010 a 2014, de duas fontes: o Censo Escolar e o Avalia-BH (Sistema de Avaliação da Educação Fundamental das Escolas da Prefeitura de Belo Horizonte). Matrículas, proficiência em testes de matemática e questionários contextuais foram analisados.

O Censo Escolar, realizado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), coleta anualmente dados administrativos sobre as matrículas em todas as escolas do Brasil. O Avalia-BH, realizado pelo CAED/UFJF (Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora), avaliou todas as escolas municipais de ensino fundamental de Belo Horizonte, entre 2010 e 2014.

Estudantes do 3º ao 9º ano responderam a testes de matemática e língua portuguesa e a um questionário sociodemográfico. As proficiências nos testes foram estimadas por meio de um modelo de TRI (Teoria da Resposta ao Item), que permite comparar o desempenho entre os anos escolares. Com o apoio da Secretaria de Educação do Município de Belo Horizonte foi possível reunir essas duas informações em uma base de dados para 141.671 alunos de 189 escolas.

A pesquisa acompanhou os estudantes em relação à matrícula no Censo Escolar e à sua proficiência em matemática em cada ano escolar e escola da rede municipal. Itens do questionário foram empregados para estimar o índice de nível socioeconômico dos estudantes e comparar as estimativas desse índice entre anos. O efeito das escolas para o aprendizado ao longo dos anos foi estimado por meio de um modelo de regressão hierárquico linear, adequado para representar a influência das escolas sobre o aprendizado dos estudantes, depois de consideradas as características dos estudantes (sexo, cor/raça, índice de nível socioeconômico, distorção idade-série).

Quais foram as conclusões?

A partir dos resultados, a pesquisa observou que as escolas não mudaram seu nível socioeconômico, dentro do período analisado. Existem indícios de que diferenças entre escolas ajudam a explicar a perda de informações relevantes para o estudo, e que estudantes desprivilegiados têm maiores chances de ficar fora das análises. Verifica-se ainda valores para o efeito das escolas abaixo dos observados em avaliações transversais e abaixo das expectativas para países em desenvolvimento.

A contribuição anual das escolas em relação ao aprendizado dos alunos foi modesta. A condição inicial dos estudantes e das escolas é muito importante. A taxa de aprendizado se mostrou muito homogênea entre escolas e estudantes, com poucas exceções em reverter as desigualdades de desempenho apresentadas pelos alunos no marco inicial do estudo. Escolas favorecidas por um grupo de alto desempenho, em 2010, permaneceram favorecidas até 2014; escolas com muitos estudantes de baixo desempenho não foram capazes de compensar os resultados iniciais.

Diferenças inicialmente observadas entre grupos de cor/raça, nível socioeconômico e distorção idade série também não foram superadas durante o aprendizado. Isso sugere que políticas públicas voltadas para o combate dessas desigualdades podem melhorar a contribuição das escolas para garantir o direito à educação para todos.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pesquisadores em educação, gestores, professores, formuladores de políticas públicas e toda a comunidade escolar. Bem como os demais interessados no tema do efeito das escolas, qualidade e equidade no ensino.

Túlio Silva de Paula é doutor em educação pela UFMG na linha de pesquisa em sociologia da educação. Mestre em sociologia e graduado em ciências sociais pela mesma universidade. Pesquisador do Nupede (Núcleo de Pesquisas em Desigualdades Escolares) da Universidade Federal de Minas Gerais (2016-atual). Analista de avaliação em larga escala pelo Caed (Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação) da Universidade Federal de Juiz de Fora (2011-2016).

Referências:

  • ALVES, Maria Teresa G.; SOARES, José Francisco. Trajetórias escolares no ensino fundamental: análise longitudinal do Censo Escolar. Texto apresentado em 10ª Reunião da Abave – Avaliação Educacional no Brasil: o desafio da Qualidade. São Paulo, 28 a 30 de agosto de 2019.
  • BONAMINO, A. M. L.; OLIVEIRA, L. H. G. Estudos longitudinais e pesquisa na educação básica. Linhas Críticas, Brasília, DF, v. 19, n. 38, p. 33-50, jan./abr. 2013.
  • BROOKE, N.; SOARES, J. F. (Org.). Pesquisa em eficácia escolar: origens e trajetórias. Belo Horizonte: UFMG, 2008.
  • CRAHAY, M. Como a escola pode ser mais justa e eficaz? Cadernos Cenpec, São Paulo, v. 3, n. 1, p.9-40, jun., 2013.
  • FERRÃO, M. E.; BARROS, G. T. F.; BOF, A. M.; OLIVEIRA, A. S. Estudo Longitudinal sobre Eficácia Educacional no Brasil: comparação entre resultados contextualizados e valor acrescentado. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 61, n. 4, p. 265-300, 2018.
  • KARINO, C. A.; LAROS, J. A. Estudos brasileiros sobre eficácia escolar: uma revisão de literatura. Revista Examen, Brasília, v 1., n.1, p. 95-165 jul.-dez, 2017.
  • SAMMONS, P. BAKKUM, L. Effective schools, equity and teacher effectiveness: a review to the literature. Professorado – Revista de curriculum y formación del profesorado, v. 15, n. 3, p. 9-26, deciembre, 2011.
  • SINGER, J. D.; WILLETT, J. B. Applied Longitudinal Data Analysis: Modeling change and event occurrence. New York: Oxford University Press, 2003.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.