A representação das mulheres no jornalismo independente

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Esta dissertação de mestrado, elaborada por Bibiana Garcez, na Universidade de Coimbra, investiga a representação feminina no jornalismo a partir dos valores editoriais e da análise textual das publicações da Revista AzMina e do portal Gênero e Número.

A autora argumenta que tais plataformas se opõem a práticas do jornalismo tradicional, pois valorizam a experiência das mulheres, utilizam fontes femininas e também consideram questões que se sobrepõem ao gênero, como raça e classe social.

A qual pergunta a pesquisa responde?

De que formas o jornalismo alternativo e feminista contemporâneo pode se configurar na sua produção, em termos de ética, abordagem e representação das mulheres?

Por que isso é relevante?

Em termos de gênero, mesmo que as mulheres estejam crescendo no âmbito da produção jornalística, no conteúdo das notícias elas ainda são sub-representadas, especialmente na posição de fontes especialistas. Ainda assim, muitas vezes são retratadas a partir de estereótipos de gênero nocivos.

Por isso, pensar na forma em que teorias feministas – como a ética do cuidado e a teoria do standpoint feminista, que valoriza a ideia de um ponto de vista situado, construído a partir da “localização social” de cada pessoa, negando a ideia de uma neutralidade absoluta – podem estar presentes no jornalismo é importante para propor uma representação mais cuidadosa e justa não só das mulheres, mas também das populações marginalizadas e da sociedade como um todo.

Resumo da pesquisa

A pesquisa investigou duas iniciativas brasileiras independentes de jornalismo que contêm a ideia de equidade de gênero nos seus posicionamentos: a Revista AzMina e o portal Gênero e Número.

Com base em análise textual, os “estatutos editoriais” das duas publicações foram examinados como forma de entender seus posicionamentos éticos. Na ausência de estatutos formalizados, foram analisadas as páginas “Quem somos” e “Missão, visão e valores” da Revista AzMina e o “Sobre” da Gênero e Número.

Em seguida, todas as reportagens publicadas pelas duas plataformas nos cinco primeiros meses de 2020 foram analisadas por meio de análise textual, a fim de verificar de que maneira os valores editoriais se aplicam na prática e como as publicações se aproximam dos conceitos de jornalismo e das teorias feministas discutidos no referencial teórico.

As pessoas citadas nessas mesmas reportagens foram analisadas quantitativamente, inspiradas na metodologia proposta pelo Global Media Monitoring Project, dando atenção ao gênero, à construção étnico-racial e à função no texto.

Quais foram as conclusões?

A análise demonstrou que ambas as plataformas constroem seus posicionamentos com atenção ao gênero e a outras opressões, como de classe e raça, considerando a maneira que elas podem se sobrepor, propondo-se a ouvir atentamente as suas fontes e valorizar os pontos de vista diversos que diferentes posições sociais oferecem.

Além disso, foi possível concluir que as plataformas elaboram pautas com perspectivas de gênero e raça/etnia, valorizam as experiências das mulheres, dão atenção às populações mais vulneráveis, apoiam o movimento feminista, seus ideais e ideias, orientando ainda para ação. Os portais citam majoritariamente mulheres como fontes e como fontes especialistas.

A Revista AzMina e o portal Gênero e Número, assim, rompem com a objetividade jornalística tradicional, em maior ou menor grau, comprometendo-se com a democracia e ideais feministas por meio de novos posicionamentos éticos. As conclusões demonstram que existem variadas possibilidades de aproximação do jornalismo ao feminismo mantendo o rigor jornalístico, que podem ser analisadas em outros contextos e ampliadas para outros espectros do jornalismo.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados servem para reflexão de estudantes e profissionais do jornalismo, assim como professores/as e pesquisadores/as do campo, de modo que se atentem às ideologias construídas e mantidas na área e às desigualdades perpetuadas pelo conteúdo jornalístico. Às pessoas interessadas no feminismo, a pesquisa serve para demonstrar as possibilidades de aplicação e de mudança estrutural a partir de preceitos feministas. Para os consumidores de materiais jornalísticos, a pesquisa ajuda a desconstruir a ideia de que a imparcialidade é o ideal em uma democracia desigual.

Bibiana Garcez é doutoranda em ciências da comunicação pela FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), em Portugal, e mestra em jornalismo e comunicação pela mesma instituição. Graduou-se em jornalismo pela PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). Seus interesses de pesquisa centram-se no jornalismo, na economia política e nos estudos feministas da mídia.

Referências:

  • CHAMBERS, Deborah; STEINER, Linda; FLEMING, Carole. Women and journalism. Londres: Routledge, 2004.

  • LELO, Thales Vilela. A feminização do jornalismo sob a ótica das desigualdades de gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 27, n. 2, p. 1–14, 2019.

  • SCHUDSON, Michael. The objectivity norm in American journalism. Journalism, v. 2, n. 2, p. 149–170, 2001.

  • STEINER, Linda. Feminist Journalism. In: VOS, Tim P; HANUSCH, Folker (org.). The International Encyclopedia of Journalism Studies. Nova Jersey: Wiley, 2019. p. 1–9.

  • WARD, Stephen J.A. Disrupting journalism ethics: Radical change on the frontier of digital media. Oxon: Routledge, 2018.

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