Os atletas estrangeiros que representam o Brasil nas Olímpiadas

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Esta tese, elaborada por William Douglas Almeida, na USP (Universidade de São Paulo), investiga o senso de pertencimento e identidade nacional entre os esportistas que nasceram no exterior e representam o Brasil nos Jogos Olímpicos.O autor argumenta que os atletas migrantes foram indispensáveis na inserção, no incentivo e no desenvolvimento de determinadas modalidades esportivas no território brasileiro.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como o conceito de identidade nacional se constrói em atletas nascidos no exterior que representam o Brasil em Jogos Olímpicos?

Por que isso é relevante?

De 1920 a 2016, o Brasil teve 52 atletas nascidos fora do território nacional representando o país nas Olimpíadas.

A competição coloca em evidência questões de identidade nacional, representação e pertencimento. Assim, é preciso discutir como tais questões se relacionam à trajetória desses esportistas e como suas identidades se constroem.

Resumo da pesquisa

Todo atleta que participa dos Jogos Olímpicos é vinculado a um Comitê Olímpico Nacional. Entretanto, os critérios que definem a nacionalidade esportiva de um competidor não estão relacionados ao local onde o atleta nasceu. No Brasil, adota-se o critério jus soli, a partir do qual são considerados brasileiros natos todos os nascidos em território nacional. Todavia, a legislação permite em vários casos a concessão de nacionalidade brasileira pelo jus sanguinis, levando em conta a ancestralidade. Há, ainda, a possibilidade de naturalizações.

Para tanto, utiliza-se como método as narrativas biográficas, recurso pelo qual os textos são construídos com base nas falas dos entrevistados sobre suas vidas. As entrevistas utilizadas na pesquisa fazem parte do banco de dados do Grupo de Estudos Olímpicos da USP.

Para a compreensão de identidade, a pesquisa se apoiou em conceitos teóricos sobre diáspora e também sobre globalização e transnacionalismo. Além disso, fez-se uma releitura de como o assunto das trocas de nacionalidade esportiva e dos migrantes internacionais no esporte são abordados em outros países, com base em literatura internacional.

Quais foram as conclusões?

Em um mundo transnacional, identidades turvas, fluídas e mistas são comuns, e os Jogos Olímpicos evidenciam isso. Além do mais, o processo de migração dos atletas acompanha outros movimentos históricos.

Não por acaso, os primeiros migrantes internacionais que representaram o Brasil, nos Jogos Olímpicos de 1920 e de 1932 eram nascidos na Alemanha (Sebastião Wolf e Carlos Woebcken), tendo em vista que o Brasil recebeu um grande número de migrantes germânicos no final do século 19 e início do século 20. A migração alemã também foi importante em relação à fundação de clubes relevantes na formação de atletas olímpicos do Brasil – um deles o Yacht Club Santo Amaro, em São Paulo.

A Segunda Guerra Mundial também influenciou o processo migratório de atletas para o Brasil. Burkhard Cordes, nascido na Alemanha, em 1939, migrou para o Brasil aos seis meses de idade, devido ao conflito. Ao lado de Reinaldo Conrad, Burkhard Cordes conquistou a primeira medalha da vela brasileira em uma Olimpíada (bronze nos Jogos Olímpicos de 1968). Além de Burkhard, outros esportistas que se tornaram brasileiros migraram para o país devido à Segunda Guerra Mundial: Francisco Todesco e Edgard Gjisen (remo), Radvilas Gorauskas e Victor Mirshawka (basquete).

Já na década de 1960, Aladar Szabó, jogador de polo aquático nascido na Hungria, nação que chegou a representar em competições internacionais, fugiu do país devido ao regime comunista. Após um período na Itália, ele se estabeleceu no Brasil e competiu pelo país nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964.

Modalidade mais vitoriosa do Brasil em Jogos Olímpicos, o judô teve seu primeiro pódio por meio de um atleta naturalizado: Chiaki Ishii, nascido no Japão, que migrou para o país e conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1972. Além de ter subido ao pódio como atleta, Ishii destaca-se como técnico formador de outros atletas e também de treinadores do judô brasileiro.

Outro ponto relevante detectado foi um movimento muito forte de migração de retorno, principalmente na delegação que representou o Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Filhos de brasileiros, mas nascidos no exterior, competiram pelo país em diversas modalidades.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Interessados em Olimpismo e questões de identidade nacional.

William Douglas de Almeida é formado em jornalismo pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Doutor pela Escola de Educação Física e Esporte da USP e pós-doutorando na Faculdade de Educação da mesma universidade. Atuou na rede Bom Dia, no Jornal A Cidade (Ribeirão Preto) e na EBC (Empresa Brasil de Comunicação).

Referências:

  • BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. São Paulo: Schwarcz-Companhia das Letras, 1999.

  • HALL, S. Da diáspora. Belo Horizonte: UFMG, 2003.

  • HOULIHAN, B. Sport and Globalization. In: KAREN, D.; ROBERT, E. (Ed.). The Sport and Society Reader. Washington: Routledge, 2010.

  • RUBIO, K. Atletas olímpicos brasileiros. São Paulo: Sesi-SP, 2015.

  • SANTOS, M. Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, 2000.

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