Como se estruturou o jornalismo televisivo no Brasil e na França

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Esta tese de doutorado, elaborada por Pedro Serra, na USP (Universidade de São Paulo), faz um estudo histórico-comparativo sobre a formação do jornalismo televisivo na segunda metade do século 20 no Brasil e na França.

Segundo o autor, alcançar posições de notoriedade em programas jornalísticos da televisão francesa estava relacionado à experiência na imprensa e à proximidade com grupos no poder. No Brasil, a consagração no jornalismo televisivo estava relacionada à experiência na radiodifusão comercial, na publicidade e em outros gêneros televisivos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como se manifesta o fenômeno geral de aproximação entre “entretenimento” e “jornalismo” na televisão, a partir das últimas décadas do século 20, na França e no Brasil? E quais as suas relações com a história do jornalismo televisivo nos dois países?

Por que isso é relevante?

A televisão permanece um importante meio de comunicação apesar da ascensão das mídias digitais. Assim, o trabalho dos jornalistas televisivos é responsável por parte significativa das informações disponíveis aos indivíduos para a conformação de sua visão e opinião sobre o mundo.

Observar como o jornalismo se adaptou historicamente dentro da indústria da televisão, seu modo de operação e de que maneira consolidou determinadas linguagens e perfis profissionais é uma forma de enxergar esse meio criticamente, bem como seus conteúdos.

Resumo da pesquisa

A tese faz um estudo histórico e comparado das relações entre jornalismo e televisão na França e no Brasil. Para compreender o jornalismo televisivo, a pesquisa investigou a estruturação desse meio como um domínio de atividades marcado por frágeis delimitações profissionais.

Assim, a abordagem privilegiou a análise do grupo dos produtores televisivos (de suas características sociológicas, dos padrões de carreira que seguem, dos processos de socialização a que estão sujeitos, suas relações com a política, etc.) e observou a evolução dos principais programas jornalísticos ao longo da segunda metade do século 20.

A evolução histórica dos programas e de seus conteúdos pôde ser analisada a partir de dados disponibilizados pelas emissoras em seus websites ou em materiais institucionais, além de entrevistas, dicionários bibliográficos, vídeos disponíveis na internet e publicações sobre a história da imprensa e da televisão.

No caso francês, o enfoque foi nas duas principais emissoras do país: TF1 (privatizada em 1988) e France 2 (pública). No caso brasileiro, a pesquisa compreendeu a história de diferentes canais de televisão concorrentes (como a TV Tupi, a TV Record, a Bandeirantes, a TV Excelsior e a TV Rio) até a chegada e consolidação da Rede Globo (criada em 1965), que constituiu o principal caso estudado a partir dos anos 1970-1980.

Esses materiais serviram de base para a análise das características distintivas de alguns programas, como os noticiários – principalmente os de horário nobre, cujo processo de produção além de acelerado é bastante padronizado – programas de debates, reportagens longas ou entrevistas (mais abundantes na televisão francesa) – cujo processo de produção, mais lento, aumenta o nível de elaboração dos conteúdos e da autonomia dos profissionais envolvidos. Tais informações também foram importantes para delinear as trajetórias escolares e profissionais de figuras centrais de seus grupos produtores – como diretores das emissoras e dos setores de jornalismo, apresentadores e editores-chefes.

As entrevistas feitas com profissionais do setor concederam uma visão interna sobre algumas questões do jornalismo televisivo, como: quais são os tipos de trajetórias que levam os profissionais a esse tipo de jornalismo e como funciona a organização das rotinas de trabalho dos noticiários.

Quais foram as conclusões?

Os departamentos de jornalismo da televisão francesa se estabeleceram como setores separados do restante da programação televisiva e criaram relações próximas e duradouras com outros âmbitos de produção cultural, como a grande imprensa e o rádio estatal, já consolidados e estreitamente articulados com o Estado francês.

Com base nisso, a pesquisa observa que o acesso a posições de notoriedade no jornalismo audiovisual têm influência estatal. Inicialmente – as transmissões televisivas diárias começaram em 1947 – pela intervenção direta do Estado; a partir das décadas de 1970 e 1980, por meio da formação educacional em seletas instituições de ensino, as quais são frequentadas pelas camadas mais ricas da sociedade.

Já no Brasil, a TV Globo se beneficiou da profunda transformação do sistema televisivo que ocorreu no país durante o período autoritário que se estendeu de 1964 a 1985, quando foram gestadas as formas dominantes desse tipo de mídia de acordo com suas estratégias comerciais. Neste caso, submetida à censura do Estado mas não controlada por ele, a direção de jornalismo foi liderada pela cúpula do setor de entretenimento, comandada por profissionais provenientes do setor da radiodifusão comercial e formados sobretudo no setor da publicidade. A televisão brasileira se constituiu como uma mídia mais autônoma, com migrações mais fluidas de profissionais das áreas de publicidade, entretenimento e jornalismo.

A história do jornalismo televisivo é fruto de um conjunto de relações entre diversos campos sociais, tanto no Brasil quanto na França. De forma geral, as trajetórias profissionais que levam a posições de poder no jornalismo televisivo brasileiro prescindem, com maior frequência, de qualquer tipo de consagração em outros espaços jornalísticos como a imprensa ou o rádio.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Interessados em compreender as particularidades da história e do modo como se formou e evoluiu o jornalismo televisivo do Brasil e da França ao longo do século 20.

Pedro Serra é formado em ciências sociais e econômicas pelo Institut Catholique de Paris, mestre em estudos internacionais pela Université Paris 3 – Sorbonne Nouvelle e doutor em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), com período de pesquisa na EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales). É membro da Comissão Executiva da Revista Plural. Participa do Núcleo de Sociologia da Cultura da USP e atua também como tradutor.

Referências:

  • ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. A Embalagem do Sistema: A Publicidade no Capitalismo Brasileiro. Bauru, Edusc, 2004.

  • BENSON, Rodney. Field Theory in Comparative Context: A New Paradigm for Media Studies, Theory and Society, Vol. 28, No 3, 1999, pp. 463 – 498.

  • BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: Sobre a teoria da ação. Trad: Mariza Corrêa, Campinas, SP: Papirus, 1996.

  • BOURDON, Jerôme. Haute Fidélité. Pouvoir et Télévision 1935-1994. Paris, Éditions du Seuil, 1994.

  • MICELI, Sergio. “O Papel Político dos Meios de Comunicação de Massa”. In: SCHWARTZ, Jorge & SOSNOWSKI, Saúl (org.). Brasil: O Trânsito da Memória. São Paulo, Edusp, 1994.

  • WILLIAMS, Raymond. Televisão: tecnologia e forma cultural; tradução Marcio Serelle; Mário F. I. Viggiano, 1a Edição, São Paulo: Boitempo, 2016 (1974).

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.