Uma proposta de estrutura alimentar comunitária

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A pandemia de covid-19 expôs inúmeras pessoas à situação de insegurança alimentar. A partir desse contexto, este estudo, publicado no periódico acadêmico Foods, propõe a criação de um modelo que diminua as desigualdades relacionadas à alimentação.

Ana Paula Turetta, Michelle Bonatti e Stefan Sieber defendem a implementação do Sistema Alimentar Comunitário, uma estrutura para ir além da produção de alimentos, envolvendo processamento, distribuição, consumo e gestão de resíduos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quais são os elementos fundamentais para criar um sistema alimentar mais resiliente e inclusivo, principalmente no contexto de territórios negligenciados?

Por que isso é relevante?

A pandemia de covid-19 expõe a fragilidade do atual sistema alimentar global. Essa é a principal motivação para pensar em novos modelos que sejam capazes de melhorar o funcionamento da cadeia alimentar, encurtando as distâncias do campo ao garfo.

O SAC (Sistema Alimentar Comunitário) é uma solução viável para alcançar a justiça dos sistemas alimentares e aliviar a pobreza e a desnutrição, especialmente em territórios negligenciados, onde o impacto negativo das crises pode ser mais prejudicial.

Resumo da pesquisa

O estudo propõe uma estrutura circular viável que conecte conceitos já bem estabelecidos, como inovações agroambientais, modelos de negócios inclusivos, redes sociais e governança. Apresenta também alternativas para implementar esses conceitos, via adoção de práticas agroecológicas (consórcio e rotação de culturas, adubação verde, por exemplo), acesso a novos mercados (venda direta, turismo rural, e-commerce, etc), engajamento de atores relacionados à cadeia alimentar (além dos produtores, revendedores, técnicos agrícolas, entre outros) e expandir seu alcance para o maior número de pessoas.

A estrutura foi proposta a partir da revisão de estudos já feitos sobre esse tema, unida à experiência dos autores em pesquisas relacionadas à cadeia agroalimentar. Assim foi possível identificar os processos-chave capazes de estabelecer ligações que atendam a objetivos, escalas e setores múltiplos.

Tal estrutura também está vinculada a objetivos nacionais e metas globais, incluindo acordos internacionais sobre clima e biodiversidade, bem como à cultura alimentar/gastronômica e à sustentabilidade. Para uma comunidade aplicar a estrutura SAC, ela poderá definir quais eixos fazem mais sentido para a sua realidade: se à comunidade A fizer mais sentido uma inovação agroambiental diferente da implementada em B, isso não se torna um obstáculo. O mais importante é aplicar os conceitos no contexto de cada comunidade. Essa é a chave para que as experiências sejam bem-sucedidas, o que unirá a experiência local com a oportunidade de aprimorá-la por meio de conhecimentos técnicos.

Quais foram as conclusões?

É proposto o fortalecimento do sistema alimentar comunitário não apenas por meio da produção de alimentos, mas também criando uma conexão entre processamento, distribuição, consumo e gestão de resíduos. Embora seja uma estrutura múltipla, o sistema enfatiza a complementaridade, vinculando a reavaliação abrangente do capital social e da governança em combinação de abordagens inovadoras baseadas em negócios.

Inovações agroecológicas, novos mercados, engajamento das partes interessadas e escalabilidade são as ligações propostas entre os eixos principais da estrutura da pesquisa, que se adequa aos territórios negligenciados, especialmente considerando a realidade latino-americana.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Tomadores de decisão relacionados ao planejamento territorial, produção agrícola e segurança alimentar, de diferentes esferas políticas.

Ana Paula D. Turetta é graduada e licenciada em geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre e doutora em agronomia pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro). É pesquisadora na Embrapa Solos, no Rio de Janeiro. E docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial da UFRRJ.

Michelle Bonatti é engenheira agrônoma com mestrado em desenvolvimento rural pela Universidade de Buenos Aires e doutorado pela Universidade Humboldt, de Berlim. É vice-líder do grupo de pesquisa SusLAND (Uso sustentável da terra em países em desenvolvimento), do Centro Leibniz de Pesquisa em Paisagens agrícolas, na Alemanha. Professora de política ambiental na Universidade Humboldt.

Stefan Sieber é doutor em economia agrícola com foco em economia de recursos e meio ambiente pela Universidade de Bonn. Professor no programa de mestrado Sociologia Ambiental e Política Ambiental na Universidade Humboldt. É líder do grupo SusLAND.

Referências:

  • Anderl, F. Covid-19 and Agriculture: The Coming Contradictory Hunger Pandemic. Open Democracy. 11 May 2020.

  • FAO; IFAD; UNICEF; WFP; WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2019. Safeguarding against Economic Slowdowns and Downturns; FAO: Rome, Italy, 2019.

  • FAO. The 10 Elements of Agroecology—Guiding the Transition to Sustainable Food and Agricultural Systems. 2018.

  • Husain, A.; Sandström, S.; Groder, J.; Pallanch, C. COVID-19: Potential Impact on the World’s Poorest People — A WFP Analysis of the Economic and Food Security Implications of the Pandemic. World Food Programme (WFP). April 2020.

  • Jurgilevich, A.; Birge, T.; Kentala-Lehtonen, J.; Korhonen-Kurki, K.; Pietikinen, J.; Saikku, L.; Schösler, H. Transition towards Circular Economy in the Food System. Sustainability 2016, 8, 69.

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