O aumento da autodeclaração de negros na população brasileira

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Este estudo, publicado na Revista Brasileira de Estudos de População, investiga os motivos por trás do aumento do número de pessoas que se autodeclaram negras no Brasil.

Josimar Gonçalves de Jesus analisou dados da PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) para quantificar esse processo. O autor destaca que o processo de mudança na identificação racial varia nas regiões brasileiras, sendo mais forte no Sul e no Sudeste, onde a porcentagem de pessoas que se identificam como brancas é historicamente maior.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Qual é a explicação do aumento significativo, a partir dos anos 2000, da proporção de pessoas negras no contexto da totalidade da população brasileira e do crescimento do número de pessoas que assim se identificam racialmente?

Por que isso é relevante?

O estudo é relevante por reconstruir o processo de variação do contingente populacional brasileiro entre 1995 e 2015, à luz das mudanças em sua composição racial. As estimativas nacionais já seriam por si só importantes, mas o estudo acrescenta o componente regional como algo ainda mais relevante.

Resumo da pesquisa

O conceito de fluidez racial se fundamenta na ideia de que as classificações raciais não são fixas, mas sim construções sociais em perspectivas temporais, socioeconômicas e contextuais.

No Brasil, a partir de 2007, as pessoas negras se tornaram maioria na população brasileira. A princípio, poderiam ser três as possíveis explicações para esse fenômeno. A primeira diz respeito à taxa de fecundidade das mulheres negras, que é maior do que a das brancas. A segunda estaria associada à miscigenação e a outros fatores que envolvem a identificação racial ao nascer. A terceira se relacionaria a um forte processo de mudança na identificação racial no Brasil – onde o processo de identificação racial é o de autoatribuição, o que não garante que as pessoas mantenham a mesma autoclassificação de cor ou raça ao longo da vida.

A pesquisa atualizou e reconstruiu, sob alguns aspectos, as análises realizadas em estudos anteriores sobre o fenômeno da mudança na identificação racial que acontece no Brasil desde o início dos anos 2000. Dada a diversidade brasileira, a existência de diferenças regionais também foi investigada em relação a esse processo.

As análises utilizaram dados da PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios), divulgadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referentes ao período de 1995 a 2015. Com base nesses dados foi aplicada uma metodologia de decomposição que permitiu quantificar o efeito da mudança na identificação racial sobre o substancial aumento observado tanto na proporção como no número de negros na população brasileira neste período, dando destaque para diferenças regionais.

Quais foram as conclusões?

O aumento observado na porcentagem de negros no país como um todo e em todas as suas grandes regiões, a partir dos anos 2000, está majoritariamente relacionado à mudança ocorrida no modo como as próprias pessoas se veem – deixando os elementos de cunho demográficos em segundo plano.

Quanto ao efeito da mudança na identificação racial sobre o aumento no número de negros, verificou-se que este aspecto também é relevante e que varia consideravelmente de região para região, sendo mais forte no sul e sudeste, onde, historicamente, se concentra a maior parte daqueles que se autodeclaram como brancos.

Qualquer análise intertemporal, a partir dos anos 2000, que envolva autodeclaração de cor ou raça, é potencialmente afetada por esse processo de mudança na identificação racial.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os institutos de pesquisa, os pesquisadores e os demais interessados no tema.

Josimar Gonçalves de Jesus é doutor e mestre em ciências (economia aplicada) pela ESALQ-USP (Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da Universidade de São Paulo e graduado em ciências econômicas pela UNESP (Universidade Estadual Paulista).

Referências:

  • GOMES, F. Escravidão. Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. São Paulo: Globo Livros, v. 1, 2019.

  • GUIMARÃES, A. S. A. Como trabalhar com “raça” em sociologia. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 29, n. 1, p. 93-107, 2003.

  • SCHWARCZ, L. M. Raça como negociação: sobre teorias raciais em finais do século XIX no Brasil. Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

  • SCHWARTZMAN, L. F. Does money whiten? Intergenerational changes in racial classification in Brazil. American Sociological Review, v. 72, n. 6, p. 940-963, 2007.

  • SOARES, S. S. D. A demografia da cor: a composição da população brasileira de 1870 a 2007. In: THEODORO, M. (org.). As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos após a abolição. Brasília: Ipea, 2008. p. 97-117.

  • TELLES, E. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, Fundação Ford, 2003.

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