Como as plataformas de streaming afetam a produção audiovisual

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Este estudo, publicado na Revista Movimento, investigou as estratégias que plataformas de streaming utilizam para produzir e gerar destaque a seus catálogos. Esse consumo midiático – que envolve aspectos sociais e tecnológicos – foi acelerado a partir do êxito das plataformas, o que também impactou os modos de produção artística contemporâneos.

Luiz Felipe Rocha Baute argumenta que a produção e distribuição de obras audiovisuais nessas plataformas pode resultar em processos socioculturais significativos, pois enfraquecem a produção nacional e regional ao homogeneizar os conteúdos em escala mundial.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quais são as estratégias utilizadas pelas plataformas de streaming para construírem e destacarem seus acervos?

Por que isso é relevante?

A formulação de um debate sobre os usos das tecnologias advindas de plataformas de Subscription Video on Demand (“vídeo sob demanda por assinatura”, em tradução livre) é bastante necessária. Principalmente para que as empresas e os seus algoritmos não sejam os principais agentes – como foram os grandes investidores e os conglomerados no cinema, televisão e rádio – na disputa pelo controle dos produtos audiovisuais no meio digital.

Resumo da pesquisa

A Netflix foi o principal objeto de análise para compreender as estratégias das plataformas de streaming em relação à produção e distribuição de seus acervos. Foi considerado o investimento dessa plataforma em produções originais no primeiro semestre de 2020, especialmente em relação ao Prime Video, seu competidor direto.

Também foram exploradas a utilização de dados dos usuários e de mecanismos digitais envolvidos na organização de interfaces das plataformas. Esses aspectos se relacionam aos desdobramentos formais e culturais de tais serviços na contemporaneidade, como os possíveis impactos na identificação, produção e exibição de gêneros audiovisuais a partir de exemplos de indexação da Netflix; formas de engajamento para “maratonar” conteúdos audiovisuais; e o aumento significativo no interesse do público em assistir a obras em casa durante a pandemia de covid-19, considerando os meses de cinemas fechados ou operando com menor capacidade.

Quais foram as conclusões?

O processo de construção e valorização de acervos das plataformas de streaming envolve questões tecnológicas e culturais, como técnicas de engajamento e retenção de usuários em redes sociais, métodos de rastreamento online e formulação de algoritmos específicos para a organização de interfaces digitais.

Além disso, as experiências realizadas em outros meios de comunicação, sobretudo na televisão, caracterizam estratégias diretamente adaptadas para potencializar a imersão e engajamento de usuários em uma nova formação cultural. Deste modo, a retomada de experiências em radiodifusão feitas pelas plataformas de streaming não foram realizadas apenas por conta de sua familiarização ao público, mas como uma forma sagaz de desenvolvimento próprio.

Nos primeiros anos de expansão das plataformas de streaming (a partir de 2010 para a Netflix e 2014 para o Prime Video), produções e distribuições americanas tiveram maior destaque nos catálogos: “House of cards e “Orange is the new black, da Netflix; e “Jack Ryan e “American Gods, do Prime Video. Ainda que o recorte temático dessas séries seja relacionado à realidade dos EUA, as plataformas de streaming desenvolveram acervos distintos para regiões e países específicos, seguindo diferentes processos de leis regionais e nacionais de distribuição – o que pode resultar em diferentes cenários para as indústrias e aos trabalhadores locais. Nesse sentido, é importante destacar que o Brasil não possui uma regulamentação ampla de vídeo sob demanda até o momento, o que poderia enfraquecer a produção nacional ao mesmo tempo em que fortalece a disponibilização de obras do centro hegemônico.

Assim, o debate crítico relativo à popularização desses serviços está atrelado ao potencial que eles têm de se tornarem formas dominantes de produção e distribuição de obras audiovisuais, o que pode encaminhar a processos socioculturais prejudiciais se não devidamente legislados e fiscalizados.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Estudantes e pesquisadores de comunicação e artes, bem como o público em geral, dada a influência de plataformas de streaming no nosso cotidiano.

Luiz Felipe Rocha Baute é doutorando em Multimeios pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e editor da revista Zanzalá. Atualmente, desenvolve estudos sobre diversas formações culturais no audiovisual, investigando aspectos da produção, distribuição e recepção de gêneros na contemporaneidade, com ênfase em suas propostas, influências e desdobramentos sociais.

Referências:

  • AGUIAR, L; WALDFOGEL, J. “Netflix: global hegemon or facilitator of frictionless digital trade?” em J Cult Econ, n. 42, p. 419–445, 2018. DOI: https://doi.org/10.1007/s10824-017-9315-z.

  • LADEIRA, João D. “O Algoritmo e o Fluxo: Netflix, Aprendizado de Máquina e Algoritmos de Recomendações” em Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n. 47, p. 166-184, set./dez. 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.19132/1807-8583201947.166-184.

  • LAWRENCE, E. “Everything is a Recommendation: Netflix, Altgenres and the Construction of Taste” em Knowl. Org. 42, n. 5, 2015, p. 358-364.

  • MORETTI, F. A literatura vista de longe. Porto Alegre: Arquipélago editorial, 2008.

  • WILLIAMS, R. Televisão: tecnologia e forma cultural. São Paulo: Boitempo, 2016.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.