As bases narrativas dos escândalos na imprensa brasileira

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Esta tese de doutorado, elaborada por Clara Bezerril Câmara, na UFF (Universidade Federal Fluminense), faz uma análise das narrativas jornalísticas que recorrem a um viés escandaloso para relatar notícias relacionadas ao contexto político brasileiro.

Segundo a autora, o escândalo não se sustenta apenas com base no conteúdo, mas também da forma. Assim, são identificadas estruturas argumentativas que constroem o que é chamado na pesquisa de “mentalidade escândalo”.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Apesar dos escândalos políticos parecerem próprios das narrativas jornalísticas, como se derivassem dos conteúdos que as moldam, isso não é o que acontece na prática. Esses escândalos, quando analisados, resguardam as mesmas características de quaisquer outras narrativas jornalísticas não-escandalosas. Sendo assim, não é apenas o conteúdo controverso que as determina; há toda uma série de estruturas narrativas prévias que sustentam sua manifestação no jornalismo.

A tese se debruçou em torno dessas questões, propondo entrelaçar a ideia de escândalo a uma mentalidade julgadora – esta é instaurada pelo jornalismo e gira em torno de quatro polarizações específicas, a fim de estabelecer a noção artificial do escândalo.

Por que isso é relevante?

Esta pesquisa propõe um modo diferente de analisar as narrativas jornalísticas ditas escandalosas e realoca o papel do jornalismo nesse processo. Além de dizer se um jornal é imparcial ou sensacionalista, é preciso compreender como as narrativas são expostas e como produzem sentido. Para isso, é preciso propor novas maneiras de observação e categorização dos relatos.

No jornalismo, a mentalidade do escândalo – forma de avaliar os acontecimentos de acordo com os requisitos estabelecidos para engrandecer um malfeito – está relacionada aos valores da profissão, devido à maneira como são estabelecidos os códigos de abordagem dos fatos. O escândalo julga a relevância dos dados a partir da capacidade de torná-los pessoais e inspira julgamentos morais: ele atua como um metajulgamento.

Resumo da pesquisa

A pesquisa envolveu uma análise das narrativas jornalísticas veiculadas no jornal O Globo, entre 2003 e 2016 – os 13 anos do PT na presidência. Essa investigação foi dividida em quatro etapas. A primeira partiu de um material produzido na época do impeachment de Dilma Rousseff, em que são elencados os escândalos políticos da “Era PT”. Desse conteúdo, foi feita uma linha do tempo com os episódios ditos escandalosos pelo jornal.

Na segunda etapa, com o auxílio da linha do tempo, as capas dos jornais foram checadas, a fim de verificar a existência de alguma manchete ou chamada em relação a escândalos políticos. Assim, foi possível obter um mapeamento geral de quando O Globo tratou desses episódios.

O mapeamento encaminhou a terceira etapa: com as edições que apresentavam chamadas escandalosas na capa, foram examinadas as matérias e as narrativas sobre esses episódios. Dessa forma, foram identificados os principais personagens citados (quais seus cargos no momento da explicitação dos malfeitos), como eles eram citados (em quais ações e quais destaques essas ações recebiam), como a noção de tempo envolvia esses personagens e essas ações – se eram apresentados em narrativa contínua, se havia quebra, quanto tempo durava e se os personagens desapareciam nas narrativas sem explicações.

Com base nessas informações, na quarta etapa, foi possível construir categorias capazes de explicar como esses episódios ditos escandalosos eram apresentados. Assim foram elaboradas as principais ideias que estão contidas nas polarizações propostas.

Quais foram as conclusões?

Foi possível averiguar que os escândalos não existem fora de um esquema apropriado – o qual, na pesquisa, foi chamado de “mentalidade escândalo”. Para instaurar a mentalidade escândalo, narrativamente, é preciso que o jornalismo estabeleça algumas bases de argumentação que sirvam de norte para o caos: as polarizações. Nesta pesquisa, foram identificadas quatro fortes polarizações nas narrativas jornalísticas ditas escandalosas:

1) Polarização personalista/partidária. Nela, há inserção do político, em oposição ao partido, como um ator-chave para a compreensão das disputas políticas.

2) Polarização democrática/caótica. Nela, há sempre uma relação entre escândalo e compromisso democrático que pode ser identificada nas narrativas jornalísticas, em oposição a uma ideia de falta de ordem ou caos. Esse caos, polarizado pela ideia de ordem democrática, seria substancialmente alavancado pelos malfeitos que dão origem aos escândalos.

3) Polarização legal/informal, em que há uma oposição entre atos de corrupção – a quebra de leis e de atitudes esperadas dentro de um sistema de normas – e a clareza e a correção dos atos políticos. Suscita, ainda, mecanismos informais de atuação que possibilitam essas quebras de regras e, junto com isso, quebra de valores morais.

4) Polarização fantástica/ordinária, em que há oposição entre elementos comuns do jogo político e situações incomuns, extraordinárias e, muitas vezes, engraçadas, que são incorporadas à narrativa como se fossem corriqueiras.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Jornalistas, assim como professores e estudantes de jornalismo – interessados pela cobertura jornalística de política ou não. O público em geral, que busca refletir sobre o papel do jornalismo político na manutenção democrática.

Clara Bezerril Câmara é doutora em comunicação, pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal Fluminense. Foi pesquisadora de pós-doutorado no IESP (Instituto de Estudos Sociais e Políticos) da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) onde integrou o Lamep (Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública). É professora convidada no Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPB (Universidade Federal da Paraíba).

Referências:

  • GOLDSTEIN, Ariel. La Prensa Brasileña y sus “Cruzadas Morales”: Un Análisis de los Casos del Segundo Gobierno de Getúlio Vargas y el Primer Gobierno de Lula da Silva. Dados-Revista de Ciências Sociais, v. 60, n. 2, 2017.
  • JÁCOME, P. O jornalismo como singular coletivo: reflexões sobre a historicidade de um fenômeno moderno. Tese de Doutorado. Tese (Doutorado em Comunicação) –Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2017. 259 f.
  • PRIOR, Helder. O Escândalo Político como experiência narrativa. Brazilian Journalism Research, v. 11, n. 2 PT, p. 100-119, 2015.
  • SCHUDSON, Michael. The politics of narrative form: The emergence of news conventions in print and television. Daedalus, p. 97-112, 1982.
  • THOMPSON, J. B. O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

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