O samba e as reformas na modernização urbana de São Paulo

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Esta dissertação de mestrado, elaborada por Bruno Ribeiro da Silva Pereira, na Universidade de São Paulo, propôs uma investigação antropológica da relação entre o samba e a modernização urbana da cidade de São Paulo no período de 1938 a 1945.

Enquanto a metrópole paulistana colocava em prática os projetos urbanísticos que objetivavam modernizar a sua imagem, os habitantes da cidade reagiam às reformas de modos diversos. Para entender essas vivências, o autor escolheu o samba, gênero musical que se consolidava como símbolo nacional.

Entre os resultados, o próprio samba é apresentado como um agente da modernização, ainda que o planejamento urbano categorizasse os espaços ocupados por sambistas como opostos à modernização, bem como os próprios habitantes desses locais, invisibilizados no processo.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa buscou entender experiências cotidianas de modernização em curso na cidade de São Paulo durante os anos de 1938 e 1945. Por meio do cruzamento de dois processos que se desenvolviam de maneira aparentemente paralela – a modernização urbana comandada pelo prefeito Prestes Maia e práticas do samba distribuídas pela cidade – construiu-se um mosaico de encontros entre ideias de modernidade nos bairros, bem como nas regiões centrais.

Por que isso é relevante?

A cidade de São Paulo se apresenta ao habitante por meio de um conjunto de vias que a atravessam e dividem a metrópole paulista entre bairros e centro: as marginais dos rios Pinheiros e Tietê, as avenidas 23 de Maio e 9 de Julho e, na região central, relativamente próximo ao seu local de fundação, encontramos ainda uma espécie de anel viário que contorna o centro da cidade.

Essa forma viária que constitui a ideia que temos da cidade foi pensada e implantada com o auxílio de projetos urbanísticos, em especial o “Estudo de um Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo” (1930), de autoria de Ulhôa Cintra e Francisco Prestes Maia. O período de 1938 a 1945 foi essencial para consolidação de uma imagem de cidade moderna associada ao reformismo urbano que marcaria a escolha da cidade pelo transporte individual, pelo processo de periferização da pobreza, pelo embranquecimento da população do centro e também pelo deslocamento de sua centralidade para outras regiões.

Porém, em uma tentativa de reconstruir esse período e entender como os sujeitos daquela época reagiram a tais mudanças, encontram-se muitas práticas, sobretudo nos bairros que ao redor do centro – então em transformação, como Bixiga e Barra Funda –, que também, à sua maneira, se modernizavam, criavam diálogos com outras formas de estarem na cidade e entenderem-se como habitantes de uma metrópole moderna.

Entre as várias práticas que poderiam ajudar a entender essas experiências de modernização pela perspectiva dos fazeres, escolheu-se o samba, o qual se construía como símbolo de nacionalidade, como gênero corrente no rádio e meio de ascensão social de muitos sujeitos, sobretudo negros. O gênero musical tomava a cidade em reforma como palco de seu desenvolvimento, transformando em canção e memória tudo aquilo que nela se passava, inclusive a modernização urbana.

Resumo da pesquisa

Esta pesquisa teve por objetivo mapear as “práticas de espaço” do samba em São Paulo entre os anos de 1938 e 1945. Tal período é marcado pela continuação da implantação do projeto urbanístico Plano de Avenidas, cujo foco recaía sobre a remodelação do sistema viário da cidade. Assim, no que toca aos métodos e fontes, foi preciso também buscar esse aparentemente inusitado cruzamento entre samba e reformas urbanas.

No contexto do Estado Novo (1937-1945) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os praticantes do samba produzem articulações políticas. Dessa forma, relatam uma paisagem cotidiana, produto e produtora de uma nova cidade, sob uma perspectiva bastante específica: a da circulação. As investidas do samba em direção às diferentes centralidades do período são formas de saberes próprios que são aqui tomados como ferramentas para a compreensão de uma modernização que caminha em todas as direções da cidade.

Como forma de analisar o encontro entre cidade e cultura, foram examinados depoimentos registrados por outros pesquisadores e canções de sambistas contemporâneos, tais como Henricão (1908-1984), Geraldo Filme (1927-1995), Madrinha Eunice (1909-1995) e outros paulistas associados ao samba. Outras fontes foram notícias de jornal da época, que refletiam tanto as reformas quanto episódios relacionados à prática musical.

Quais foram as conclusões?

Entre as principais conclusões da pesquisa, destaca-se o fato de que as ideias de modernidade e modernização do período encontravam como agentes não somente os planejadores urbanos, mas também o samba, que naquele momento buscava se apoiar no moderno, tendo a cidade como principal plataforma dessa construção.

A partir dos cordões carnavalescos, das trajetórias de músicos, das disputas pelo uso do espaço público durante o carnaval e das canções associadas ao gênero samba do período, notou-se forte engajamento dessas diferentes formas do samba naquilo que era então pensado como moderno.

Assim, a pesquisa ajudou a problematizar uma constante na bibliografia que trata do samba na cidade de São Paulo, que o opõe às diferentes modernizações que acontecem na cidade no século 20. Ao encontrar esse protagonismo do samba – em geral associado à ideia de tradição e resistência – em relação à modernidade, a análise também concluiu que o planejamento urbano – por outro lado, entendido como portador do “novo” – também colaborou para a produção de espaços marcados como não modernos, atrasados e cujos habitantes deveriam ser menosprezados no processo de construção de uma cidade moderna.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa interessa a todos que desejem conhecer um pouco mais sobre São Paulo e o cotidiano das décadas de 1930 e 1940, pois aborda cultura popular, protagonismo da população negra, história do samba e também da cidade. Além disso, pode interessar a pesquisadores da área da arquitetura e urbanismo, bem como antropólogos, sociólogos e historiadores interessados nas questões urbanas.

Bruno Ribeiro da Silva Pereira é cientista social e antropólogo, membro do grupo de pesquisa do CNPq Coletivo ASA (Artes, Saberes e Antropologia). Atualmente é doutorando no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da USP, no qual realiza pesquisa sobre a trajetória do artista Henrique Felipe da Costa (1908-1984). Também atua como professor de sociologia na educação básica.

Referências:

  • CERTEAU, Michel de. L’invention Du quotidien. Volume 1. Arts de faire. Paris: Gallimard, 2010.
  • MENEZES BASTOS, R. J. de. “A Origem do Samba como Invenção do Brasil: Sobre o Feitio de Oração de Vadico e Noel Rosa (Por que as Canções Têm Música?)”. Antropologia em Primeira Mão, Florianópolis, SC, v. 1, p. 1-40, 1995.
  • MORAES, José Geraldo Vinci de Moraes. Metrópole em Sinfonia: cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.
  • MORSE, R. Formação histórica de São Paulo: de comunidade à metrópole. São Paulo: Difel, 1970.
  • SEVCENKO, N. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  • SIMSOM, Olga Rodrigues de Morais Von. Carnaval em branco e negro: Carnaval popular paulistano – 1914-1988 [1990]. Campinas: Ed. Unicamp, 2007.

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