A contribuição das editoras às ciências sociais no Brasil

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Esta tese de doutorado, elaborada por Leonardo Nóbrega, na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), dá destaque ao papel que editoras de ciências sociais cumpriram na formação de gerações de intelectuais brasileiros.

A pesquisa faz um estudo de caso da Zahar Editores. Na esteira do surgimento de cursos universitários e centros de pesquisa no Brasil entre as décadas de 1950 e 1970, a casa editorial colocou em circulação títulos clássicos da disciplina e publicou novos livros de autores nacionais — contribuindo para o desenvolvimento de importantes debates acadêmicos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A tese tomou como questão central o papel das editoras na institucionalização das ciências sociais no Brasil. Disciplinas como a sociologia, a ciência política e a antropologia passaram por um processo de expansão e consolidação entre os anos de 1950 e 1970, com o aumento no número de cursos universitários e centros de pesquisa. O mercado editorial foi um dos suportes fundamentais para esse movimento, com o surgimento de editoras que passaram a publicar sistematicamente livros de ciências sociais.

Para compreender a relação entre a produção de conhecimento especializado e sua publicação em livros, a pesquisa buscou elementos que explicassem a emergência de agendas de pesquisa, temas, autores e a configuração de debates públicos fundamentais ao Brasil da segunda metade do século 20.

Por que isso é relevante?

Diversas pesquisas já se dedicaram a examinar as condições de institucionalização das ciências sociais no Brasil, com ênfase sobretudo na criação de cursos universitários, institutos de pesquisa, programas de pós-graduação ou na trajetória de intelectuais de destaque. Poucos estudos, entretanto, ocuparam-se das condições materiais de inscrição e circulação das ideias produzidas pelos cientistas sociais.

Os resultados desta pesquisa reforçam a centralidade dos livros para as ciências sociais e humanas, contribuindo para superar uma infundada crença no trabalho intelectual como atividade individual. O mercado editorial influencia parte significativa das discussões acadêmicas e contribui para ultrapassar suas fronteiras, fazendo com que ideias cheguem aos mais distintos interlocutores. A publicação de livros exerce, portanto, função central na formação de novos profissionais, na alimentação de pesquisas e no engajamento de intelectuais em debates públicos.

Resumo da pesquisa

A pesquisa toma como estudo de caso a trajetória da Zahar Editores entre os anos de 1957 e 1984. A Zahar foi uma das mais importantes editoras nacionais da segunda metade do século 20 e teve uma atuação destacada na área de ciências sociais e humanas, contribuindo para a consolidação desse gênero editorial no Brasil.

Foram analisados dados sobre os cerca de 1.200 livros identificados no catálogo — compilados a partir de um caderno de anotações deixado por Jorge Zahar e gentilmente disponibilizado por sua filha, Ana Cristina Zahar —, além de dados biográficos, jornais contemporâneos ao funcionamento da editora, cartas e outros documentos históricos. Também foram conduzidas entrevistas com intelectuais, ex-funcionários da empresa e familiares de Jorge Zahar.

Quais foram as conclusões?

Foi possível identificar que a Zahar Editores cumpriu um papel central na estruturação das ciências sociais brasileiras da segunda metade do século 20. Inicialmente, a editora investiu na tradução de autores estrangeiros, privilegiando textos clássicos, livros de introdução e divulgação, compilações e trabalhos monográficos, voltados sobretudo para suprir a crescente demanda de material para estudantes universitários. Esse processo foi acompanhado pela edição de obras de tom mais político, marcadas pelo contexto de efervescência dos movimentos estudantis dos anos 1960. Os livros publicados pela Zahar Editores contribuíram de forma significativa para uma ampla circulação de ideias vindas de toda parte do mundo, o que possibilitou a formação de uma comunidade intelectual nacional.

Foi sobretudo a partir dos anos 1970, no momento em que os cursos de pós-graduação passavam a se expandir no país, que a editora começou a investir também na publicação de autores brasileiros, contribuindo para o desenvolvimento de debates de ampla importância à época, como a discussão sobre dependência e desenvolvimento, a expansão das grandes cidades, as modificações no campo, os debates sobre o lugar social da mulher, a violência urbana, entre outros.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A pesquisa é relevante a qualquer pessoa que tenha curiosidade por compreender os processos envolvidos na construção e circulação de um texto, que passa inevitavelmente por diversas etapas até que chegue ao leitor final. Editores, historiadores, sociólogos, antropólogos e cientistas políticos devem ter um interesse especial por se tratar da análise histórica da atuação de uma editora que foi fundamental para a formação de diversas gerações de intelectuais nessas áreas.

Leonardo Nóbrega da Silva é professor de sociologia do Ifpe (Instituto Federal de Pernambuco) e pesquisador de pós-doutorado do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Possui doutorado em sociologia pelo Iesp/Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e mestrado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Foi professor substituto no Departamento de Ciências Sociais da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) entre 2017 e 2019.

Referências:

  • BAERT, Patrick. The existentialist moment: the rise of Sartre as a public intellectual. Cambridge, UK: Polity Press, 2015.
  • BOURDIEU, Pierre. Une révolution conservatrice dans l´édition. Actes de la recherché en science socieales, 1999a.
  • HALLEWELL, Laurence. O Livro no Brasil: sua história. São Paulo: EDUSP, 2005.
  • MICELI, Sérgio. História das ciências sociais no Brasil, vol. 1. São Paulo: Vértice/IDESP, 1989.
  • SORÁ, Gustavo. Brasilianas: José Olympio e a gênese do mercado editorial brasileiro. São Paulo: EDUSP; Com-Arte, 2010.
  • VILAS BÔAS, Gláucia. A Vocação das Ciências Sociais no Brasil: um estudo da sua produção em livros no acervo da Biblioteca Nacional 1945-1966. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2007.

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