O valor da autenticidade nas batalhas de rap

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Esta dissertação de mestrado, realizada por Caio César de Azevedo Barros, na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é resultado de uma etnografia da “Sagrada Terça Feira Rap”, evento de hip hop ao vivo que acontece semanalmente no Espaço Cultural Viaduto de Realengo, localizado na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Segundo observa o autor, tanto nas batalhas de rap cariocas quanto na indústria fonográfica americana, a trajetória pessoal dos artistas — narrada por meio das rimas — conta como um fator muito importante. A vivência do cotidiano é usada para legitimar o discurso dos rappers e atacar o de seus oponentes.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Quais são os elementos em disputa numa roda de hip hop da zona oeste do Rio de Janeiro?

Por que isso é relevante?

A bibliografia em ciências sociais no Brasil possui poucas etnografias sobre batalhas de hip hop — duelos que podem ser definidos como “torneios de injúrias, concursos de jactâncias”, com origens nas brincadeiras de rimas da comunidade afro-americana dos Estados Unidos, no repente e no partido alto.

Além disso, a literatura sobre a zona oeste do Rio de Janeiro aborda três temas, no geral: remoções, milícias e violência. Tentei, nesta dissertação, fugir desses assuntos “clássicos” e focar na potência criativa de uma área historicamente marginalizada pelo Estado.

Resumo da pesquisa

Esta dissertação baseia-se numa etnografia realizada durante um período de aproximadamente sete meses (entre abril e novembro de 2019), na “Sagrada Terça Feira Rap”, evento de hip hop ao vivo que acontece semanalmente no Espaço Cultural Viaduto de Realengo, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Lá ocorrem batalhas de rap do tipo “sangue”, nas quais o objetivo principal é ridicularizar, por meio das rimas, o oponente. Os duelos ocorrem em esquemas de um contra um, “double three” (em que três participantes duelam entre si, e os dois melhores passam para a próxima fase), ou em duplas.

Ao acompanhar um grupo de jovens batalhadores de rap — homens negros, em sua maioria — pude observar suas dinâmicas de disputa nas batalhas de freestyle e os significados que o rap e o hip hop assumem nesse movimento de ocupação de uma fresta urbana por meio de uma roda cultural.

Quais foram as conclusões?

Pude perceber a forma como as rimas dos batalhadores eram usadas para autopromoção ou difamação dos oponentes. Essas letras passavam pela perspectiva do próprio batalhador, que fazia referência a sua vivência na zona oeste para legitimar o seu lugar no hip hop. Na roda de Realengo ou nos versos de MCs famosos, a narração de sua própria história conta como fator significativo. Ter um discurso percebido como “verdadeiro” é importante para o artista de rap na roda e também na indústria fonográfica. O rapper tem uma trajetória que o localiza politicamente: é, no geral, um morador de uma periferia (seja no Brasil ou nos EUA) e negro. É uma trajetória específica, traduzida nas performances das rodas ou nas músicas gravadas em estúdio. E é essa vivência que confere legitimidade às letras.

Quem deveria conhecer seus resultados?

A sociedade civil, a academia de ciências sociais e os próprios moradores de Realengo e redondezas.

Caio César de Azevedo Barros é doutorando em antropologia social pelo PPGAS/MN/UFRJ (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro) e mestre pela mesma instituição. Também é bacharel em ciências sociais pela UFRJ e licenciando no mesmo curso pela UFF (Universidade Federal Fluminense). É professor de filosofia e sociologia do ensino médio.

Referências:

  • DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo, Boitempo, 2016.
  • FOUCAULT, Michel. Segurança, Território, População. São Paulo: Martins Fontes, 2008. [Aulade 11 de janeiro de 1978; Aula de 18 de janeiro de 1978: pp 03-38; pp. 39-72].
  • SIMAS, Luiz Antônio e RUFINO, Luiz. Pedrinhas miudinhas: Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros. Mórula Editorial, Rio de Janeiro, 1ª edição, 2013.
  • PIGNARRE, Philippe e STENGERS, Isabelle. 2005. La Sorcellerie Capitaliste: Pratiques de Désenvoûtement. Paris: La Découverte.
  • TEPERMAN, Ricardo. Tem que ter suingue: batalhas de freestyle no metrô Santa Cruz, São Paulo, 2011. Dissertação (mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

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