Como a economia circular responde à escassez de recursos

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Esta pesquisa, publicada no periódico Journal of Cleaner Production, fez uma revisão da literatura acadêmica na área da economia circular — conceito que vem ganhando popularidade como uma saída aos problemas ambientais acarretados pela extração de recursos naturais e pelo descarte de resíduos sólidos.

Em linhas gerais, a economia circular propõe uma reforma dos sistemas de produção e consumo, visando reduzir o uso de materiais virgens e promover o reaproveitamento de recursos. Neste artigo, buscou-se identificar quais as principais tendências nas publicações científicas sobre o assunto.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Com o objetivo de estreitar a lacuna identificada na literatura quanto ao conceito de economia circular, o artigo busca responder às seguintes questões:

  1. Quais são as principais correntes de pesquisa na área? Quais os tópicos, autores e revistas mais relevantes?
  2. Qual é a definição do termo “economia circular”?
  3. Quais são os pensamentos e tendências mais atuais na literatura sobre o assunto? Quais as principais lacunas?

Por que isso é relevante?

O termo “economia circular” tem sido mencionado com uma frequência cada vez maior, seja no âmbito acadêmico, profissional ou político, no Brasil e internacionalmente. O conceito ganha força como uma proposta para enfrentar as limitações dos recursos naturais, apresentando um caminho de transição para novas formas de produção e consumo mais sustentáveis.

Nossa economia hoje funciona com uma concepção aberta da cadeia de valor, com começo e final definidos: em linhas gerais, vai desde a extração dos recursos naturais, à fabricação de produtos, o consumo, e por fim o descarte de resíduos. Os impactos ambientais acarretados por esse processo são encarados como externalidades.

A economia circular propõe levar as questões ambientais ao centro de como a cadeia de valor é concebida, repensando cada uma das etapas de modo a reduzir o uso de materiais virgens e promover o reaproveitamento de recursos. A ideia, portanto, exige uma reforma completa de todo o sistema econômico de produção e consumo, unindo as pontas da cadeia aberta — extração e descarte — para formar ciclos fechados. Isso pode ser alcançado por meio de inúmeras estratégias, como reuso, remanufatura, reciclagem, economia compartilhada, servitização, entre outras possibilidades.

Resumo da pesquisa

Apesar da crescente popularidade do tema, o conceito da economia circular vem de diferentes campos epistemológicos, e percebe-se ainda uma falta de consenso e convergência na literatura. Esta pesquisa investiga as tendências e lacunas no entendimento da área, por meio de uma combinação de análise semântica, bibliometria, análise de conteúdo e de redes de conexão, em uma revisão sistemática da literatura. A amostra do estudo foi composta por 327 artigos extraídos das bases de dados Web of Science e Scopus.

Quais foram as conclusões?

Os resultados apontam a falta de consenso sobre terminologias na área da economia circular. Portanto, com base na análise semântica, propõe-se a seguinte definição: “A economia circular é uma estratégia que emerge em oposição ao sistema tradicional aberto, visando enfrentar o desafio da escassez de recursos e disposição de resíduos em uma abordagem ganha-ganha com perspectiva econômica e de valor”.

Além disso, o estudo apresenta um panorama da economia circular dentro da literatura científica em anos recentes, delineando a evolução das publicações sobre o tema, principais autores, periódicos e tendências. A análise estatística demonstra um significativo aumento de publicações sobre o assunto, com os números dobrando anualmente a partir de 2013.

Os artigos mais relevantes da amostra foram identificados por meio da análise quantitativa de citações, e da relevância e impacto dos periódicos onde foram publicados. Dessa forma, foi possível perceber que os artigos de maior impacto abordam a perspectiva da China sobre o assunto, que difere daquela observada em países mais desenvolvidos.

A União Europeia vem desenvolvendo uma economia circular desde 1995, explorando e gerindo resíduos por meio de centros de tratamento e reciclagem de recursos. Por outro lado, o governo central da China garantiu, em 2002, incentivar o desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade, por meio da inovação tecnológica e criação de capacidades em nível empresarial e, principalmente, industrial.

A análise de palavras-chave revelou que os principais tópicos relacionados à economia circular são gestão de resíduos, desenvolvimento sustentável, simbiose e ecologia industrial.

Do ponto de vista de um formulador de políticas públicas, a literatura de ecoparques industriais apresenta exemplos de sucesso, explorando como externalidades, custos de transação e simbiose industrial podem contribuir para uma economia circular. Para as empresas, podem servir de inspiração os novos modelos de negócios explorados pelas publicações, com diferentes tipos de abordagens para o fechamento de ciclos da cadeia, especialmente a economia compartilhada.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Acadêmicos, profissionais, empresas e demais instituições envolvidas com questões ambientais ligadas, principalmente, à produção e ao consumo.

Aline Sacchi Homrich é pós-doutoranda em engenharia de produção pela USP (Universidade de São Paulo). Possui bacharelado em engenharia de produção mecânica, mestrado em lean project/service management pelo Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e doutorado em engenharia de produção (USP) com período sanduíche na Universidade de Cambridge-UK. Atualmente colabora como pesquisadora no Departamento de Engenharia Industrial da Escola Politécnica da USP, no LGP (Laboratório de Gerenciamento de Projetos).

Graziela Darla Araujo Galvão é doutoranda em engenharia de produção pela USP. Ela é bacharel em arquitetura e urbanismo e mestre em administração com ênfase em gerenciamento de projetos e sustentabilidade.Atualmente colabora como pesquisadora de doutorado no Departamento de Engenharia Industrial da Escola Politécnica da USP, em engenharia da qualidade e do produto e no LGP da USP.

Lorena Gamboa Abadia é bacharel em gestão e análise ambiental pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), e possui mestrado em engenharia de produção pela USP, onde realizou pesquisas sobre economia circular e sustentabilidade em modelos de negócios, além de sustentabilidade em gestão de projetos. Atualmente trabalha com consultoria ambiental e projetos de permacultura.

Referências:

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