Som, cena e mídia: como se define um gênero musical

Esta tese de doutorado, realizada por Caroline Govari Nunes, na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), usa o exemplo do rock gaúcho para discutir a lógica a partir da qual são delimitados os gêneros musicais.

Segundo argumenta a autora, um gênero pode ser identificado por mais elementos do que apenas sua sonoridade: o contexto produtivo e midiático em que se insere também tem importância na categorização. Com base nesse entendimento e em levantamentos históricos, ela defende que a definição do rock gaúcho é associada à cena específica do bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, na década de 1980.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Que tipo de rock é o gaúcho, que mistura referências de outras gerações, outros “rocks” e também de outros gêneros musicais?

Assumo a complexidade dessa classificação na medida que, sendo autoexplicativa — rock gaúcho é o rock feito no Rio Grande do Sul, obviamente —, percebi que o termo demarca mais do que apenas um gênero musical e uma geografia: funciona como um atalho semântico difundido pela imprensa musical e aceito pelo público jovem, gerando sua própria audiência, mercado e disposições ideológicas.

Por que isso é relevante?

A tese propõe novas formas para pensar as articulações entre cena e gênero musical, buscando entender como as categorias difundidas pela mídia articulam aspectos sonoros, sociais, estéticos e geográficos. Nesse sentido, a pesquisa pode contribuir também para um entendimento melhor sobre as conexões e diferenças entre BRock, rock baiano, rock brasiliense etc.

Sua relevância está também em fornecer material científico para que futuras pesquisas sobre o tema possam ser desenvolvidas. Abordagens teórico-metodológicas foram usadas para, além da análise, compilar registros acerca da memória da cena local, pensando na importância disso para a economia criativa da cidade.

Resumo da pesquisa

A tese discute a constituição musical, midiática e identitária do rock gaúcho produzido em Porto Alegre na década de 1980, pensando suas configurações como cena e gênero musical. Fiz uma contextualização da década, abordando principalmente questões da indústria fonográfica e do sistema midiático, e dando destaque a alguns acontecimentos e atores importantes como, por exemplo, o surgimento do BRock, a efervescência cultural do bairro Bom Fim, festivais, emissoras de rádio, coletâneas e gravadoras locais.

Meu argumento é de que um gênero musical não diz respeito somente a aspectos sonoros,mas também sociais, econômicos e afetivos, e pode ser baseado em uma cena musical. Ou seja, a cidade é bastante relevante nesse contexto. Para fundamentar essa tese, a pesquisa se apoiou em procedimentos metodológicos como a biografia, a história oral, a pesquisa documental e a memória.

Por último, busco apresentar minha proposta de gênero baseado em cena, discorrendo sobre os pontos que considero essenciais para categorizar o rock gaúcho: 1) questões temporais e espaciais; 2) estética, atitude e sonoridades; 3) aspectos midiáticos. Trato, portanto, de identificações musicais não ligadas somente a sonoridades, mas também a normas operadas em uma cena musical, justamente para tentar apreender como comunidades podem criar gêneros na música popular.

Quais foram as conclusões?

As conclusões sugerem que podemos entender o rock gaúcho como um gênero fundamentado em uma cena musical: no caso, a cena do Bom Fim, durante a década de 1980 — mais precisamente entre os anos 1984 e 1989. A categorização proposta é relacionada a um momento específico, de uma geração de bandas que surgiu nesse período, e cuja caracterização foi muito marcada pelos aspectos produtivos da época (a formação de um mercado local e nacional) e por estereótipos da figura do roqueiro gaúcho. O rock gaúcho sempre foi localizado como uma categoria paralela ao rock brasileiro, isto é, não foi rotulado — nem pela mídia, nem por seus próprios músicos, nem por fãs — como BRock. Algumas de suas particularidades são: música identificada como amadora, um fenômeno regional, com linguagem debochada, muitas vezes pornográfica; vocabulário próprio e imediatamente identificável; música popular massiva que dialoga com o rock a partir dos anos 1950 (e principalmente o rock britânico, a partir de 1960) e com música popular brasileira, mesclando punk, new wave, jovem-guarda, rockabilly, chinelagem, breguice, entre outros elementos. Ou seja, o rock’n’roll gaúcho apresenta múltiplas facetas e sonoridades, sendo, ainda hoje, cultuado por segmentos da população local. Entretanto, essa terminologia não deixa de ser uma imposição — por isso tantas bandas que vieram depois desse “fenômeno”, nas décadas seguintes, se sentem na obrigação de afirmar: “não, eu não sou rock gaúcho. Eu sou gaúcho, faço rock, mas não faço rock gaúcho”.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Eu busquei fazer uma pesquisa que extrapolasse as barreiras acadêmicas, então todas as pessoas que gostam de música e têm interesse especialmente em rock, memória e identidade podem se interessar pela leitura. A discussão também é relevante a jornalistas e pesquisadores de áreas como comunicação, história, sociologia e música.

Caroline Govari Nunes é doutora em ciências da comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), com estágio doutoral na Universidade McGill. É mestre pelo mesmo programa e bacharel em jornalismo pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Atualmente, faz parte do projeto Histories of AI: Genealogy of Power, da Universidade de Cambridge, e é integrante do grupo de pesquisa Cultpop – Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias.

Fotografia cedida por Rochelle Costi.

Referências:

  • BORN, Georgina. Musical and the Materialization of Identities (Sage). Journal of Material Culture, 16(4) 376–388, 2016.
  • JANOTTI Jr., Jeder; PEREIRA DE SÁ, Simone (orgs.). Cenas Musicais. Guararema, SP: Anadarco, 2013.
  • LENA, Jennifer C. Banding Together: How Communities Create Genres in Popular Music. By Jennifer C. Lena. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 2012.
  • ROSENTHAL, Gabriele. História de vida vivenciada e história de vida narrada: Gestalt e estrutura de autoapresentações biográficas / Gabriele Rosenthal; traduzido do alemão por Tomás da Costa. – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2017. 295 p.
  • STRAW, Will. Cenas visíveis e invisíveis. In: Mapeando cenas da música pop: cidades, mediações e arquivos – Volume I. / Adriana Amaral et al (Org.). – Paraíba: Marca de Fantasia, 2017, p 70-84.

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