A escravidão vista pelas páginas do romantismo brasileiro

Esta tese de doutorado, elaborada por Dayana Façanha de Carvalho, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), examina como a literatura brasileira do período romântico foi marcada por debates acerca da escravidão que vinham se fortalecendo no século 19.

O estudo discute o legado da lei antitráfico de 1831, que proibia a importação de escravizados de fora do país, mas que na prática foi amplamente desrespeitada. Críticas ao tráfico ilegal repercutiram nas obras de um grupo de escritores românticos, concentrados principalmente no Maranhão e no Rio de Janeiro.

Entre os maranhenses, destaca-se a existência de um núcleo de argumentos humanitários e antiescravistas, primeiro em torno de Gonçalves Dias e veículos de imprensa onde publicou seus primeiros poemas, e se desdobrando na poesia de Trajano Galvão de Carvalho e no romance de estreia de Maria Firmina dos Reis. Já no Rio de Janeiro, textos de José de Alencar buscavam reabilitar a figura do senhor de escravos, embora não conseguissem mais ignorar o sofrimento dos escravizados.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Em que medida as obras literárias brasileiras do período romântico discutiram também o problema da escravidão? E, dada a recorrência na representação de personagens africanas e os elementos de suas origens, até que ponto essas obras estariam em diálogo com os debates políticos brasileiros pelo fim do tráfico de escravizados a partir de 1831?

Por que isso é relevante?

A pesquisa atua no campo da história social da cultura e compõe um conjunto mais amplo de trabalhos que investigam as relações entre literatura, política e escravidão no Brasil oitocentista. Assim, a relevância da pesquisa está na maneira de abordar as obras literárias em foco, valorizando perguntas de historiador e investigando a produção dos textos escolhidos em relação à posição social dos escritores, bem como a inserção do material literário em suas linhas de interlocução social originais — ou seja, em diálogo com os debates políticos e sociais de interesse, conforme a própria literatura sugere quando é lida como documento de época em diálogo com outras fontes, como a imprensa à sua volta, por exemplo.

Muitos dos escritores oitocentistas que escreveram e publicaram literatura nas primeiras décadas do Brasil independente se formaram em direito e conjugavam a escrita literária ao trabalho na imprensa e em diversas instituições do Estado Imperial. Além disso, no contexto da formação da cultura nacional, conferiam à literatura o papel social de intervir, iluminar e promover o que às vezes chamavam — principalmente os românticos — de “transformação dos costumes”. Tratava-se de um interesse geral em formar o gosto e transmitir algumas lições, algo que fica mais claro em narradores comentadores como os de José de Alencar.

Portanto, estudar o contexto de debates sociais em que esses escritores se envolviam, bem como suas escolhas e diálogos ao produzir literatura sobre a escravidão, oferece um viés de análise muito rico (por causa das complexidades inerentes à forma literária). Essa perspectiva ilumina as trincheiras políticas do período, revelando como os autores entendiam a escravidão no Brasil, como imaginavam aboli-la e qual era o lugar social dos ex-escravizados de ascendência africana.

Resumo da pesquisa

Pesquisas recentes da área da história da escravidão têm reinterpretado os entendimentos em torno da lei antitráfico de 7 de novembro de 1831. Longe de ter sido “para inglês ver”, afirmam que houve um esforço inicial em aplicá-la, assim como um empenho político posterior em fazer vista grossa à entrada ilegal de africanos no país até 1850. O impasse político e social ligado à continuação do comércio de africanos de forma ilegal perpassa os três capítulos da tese.

A interpretação se desenvolve por meio de três pontos principais: 1) o lugar que africanos e seus descendentes poderiam ocupar na formação da nação, de acordo com debates que emergiram com a Independência e percorreram os anos subsequentes, oscilando e sobrevivendo com dificuldades conforme o fortalecimento do consenso pela escravidão dificulta propostas inclusivas; 2) a reflexão política que as obras literárias selecionadas desenvolvem sobre o problema da vigência e do legado do tráfico de escravizados no país; 3) a análise de uma tentativa simbólica, na literatura, de expurgar um sentimento de culpa e responsabilizar senhores de escravizados por meio da criação de fantasmas e assombrações.

O estudo se concentra entre os anos 1830 e 1871, e analisa, em conjunto, obras de autores variados, centrados entre Maranhão e Rio de Janeiro, às vezes passando pelo Ceará (Juvenal Galeno, “Lendas e canções populares”). São eles: do Maranhão, Antonio Gonçalves Dias (“Primeiros cantos” e “Meditação”), Maria Firmina dos Reis (“Úrsula”) e Trajano Galvão de Carvalho (“Três liras”); do Rio de Janeiro, Joaquim Manuel de Macedo (“As vítimas-algozes”) e José de Alencar (“O tronco do ipê” e “Til”). Por um lado, a tese explora uma coesão de temas e interesses antiescravistas entre o três escritores maranhenses, destacando seu potencial crítico ao tráfico ilegal de africanos no Brasil. Por outro lado, considerando os romances de Macedo e Alencar, no Rio de Janeiro, ligados principalmente às discussões que culminam na Lei do Ventre Livre, em 1871, a tese explora a representação da escravidão nesses textos em perspectiva com a produção maranhense, discutindo aproximações e distâncias. O objetivo é entender a inserção política da literatura oitocentista nas questões da escravidão ao longo das décadas, buscando observar diálogos e conexões entre os autores.

Quais foram as conclusões?

A tese traz uma contribuição geral aos estudos sobre as relações entre literatura brasileira oitocentista e o problema da escravidão, destacando a existência de um núcleo de argumentos humanitários e antiescravistas no Maranhão dos anos 1840: primeiro em torno de Gonçalves Dias e veículos de imprensa onde publicou seus primeiros poemas (“Jornal de instrução e recreio” e “Archivo”), e se desdobrando na poesia de Trajano Galvão de Carvalho e no romance de Maria Firmina dos Reis. O testemunho presente nos romances e poesias estudados oferece um espaço de reflexão histórica acerca de uma luta de trincheiras sobre os rumos da escravidão e da população escravizada no país, tendo como calcanhar de aquiles o legado da escolha política pela manutenção do comércio ilegal de africanos, mantendo homens e mulheres injustamente escravizados e anistiando fazendeiros. A leitura conjunta dos textos de Gonçalves Dias, Trajano Galvão de Carvalho, Maria Firmina dos Reis e Juvenal Galeno mostra a elaboração de um descontentamento que se expressa como crítica política e se transforma em frustração e reafirmação dos males após 1850.

Essa trilha de disputas lança um novo olhar sobre os romances de José de Alencar em torno da Lei do Ventre Livre em 1871. “O tronco do ipê” e “Til” são conhecidos pelo esforço em dirimir as tensões das relações senhor-escravizado, tolerando o cativeiro como algo possível de administrar, capaz de cumprir determinadas funções. Quando lidos em conjunto com as obras maranhenses, evidenciam-se os limites da construção literária de Alencar, destacando seu desejo de silenciar o passado (o tráfico ilegal), ao mesmo tempo mantendo-se presa a ele, assombrada por fantasmas mal escondidos. Diferentemente de como ocorre no romance de Maria Firmina dos Reis — no qual o terror e as visões são utilizados abertamente para ferir e responsabilizar o espírito do grande senhor de escravos —, nos textos de Alencar, isso acontece de forma indireta e sinuosa, enquanto o enredo se empenha em reabilitar os senhores. Isso é de se esperar, diante do que sabemos sobre sua posição política. Apesar disso, é interessante notar como o autor não consegue se desviar totalmente de determinados temas e imagens, como o que se encontra no sofrimento da personagem escrava Zana. Ao cruzar o material literário com outros documentos sobre a escravidão, o trabalho traça um mapa geral que percebe linhas cruzadas de conversas ligando diferentes regiões do país e da Europa (Inglaterra, França e Coimbra, em Portugal), centralizadas entre Rio de Janeiro e Maranhão.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Qualquer pessoa que se interesse por literatura brasileira e história da escravidão, em particular quanto ao problema do legado do tráfico oitocentista de africanos para o Brasil.

Dayana Façanha de Carvalho é doutora em história pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), com mestrado e bacharelado em história pela mesma instituição.

Referências:

  • CHALHOUB, Sidney e PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda (org.), A História contada: capítulos de história social da literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
  • CHALHOUB, Sidney, A força da escravidão. Ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo, Companhia das letras, 2012.
  • FAÇANHA, Dayana, Política e escravidão em José de Alencar. São Paulo, Alameda, 2017.
  • MARQUES, Wilton, Gonçalves Dias, o poeta na contramão. Literatura e escravidão no romantismo brasileiro. São Carlos, Edufscar, 2010.
  • SLENES, Robert W. A., “As provações de um Abraão africano: a nascente nação brasileira na Viagem alegórica de Johann Moritz Rugendas”. Revista de Arte e Arqueologia, n. 2, 1995-1996, pp. 271-294.
  • RAMOS, Ana Flávia C., As máscaras de Lélio. Política e humor nas crônicas de Machado de Assis (1883-1886). Campinas, Ed. da Unicamp, 2016.

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