Como as fãs fomentam o mercado editorial de histórias de amor

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Esta tese de doutorado, realizada por Giovana Santana Carlos, na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), buscou entender como se dão as dinâmicas do mercado de livros de romance. Embora um dos mais rentáveis do país, o gênero é pouco estudado na academia.

Com um público cativo, esses romances sobrevivem de uma relação próxima que as editoras têm com as fãs-parceiras. São essas fãs que ajudam a aplacar polêmicas, trazem novidades e mobilizam campanhas por novos lançamentos. À primeira vista, essa relação pode parecer exploratória, já que as fãs recebem apenas livros como “remuneração”. No entanto, segundo as conclusões do estudo, a parceria revela dinâmicas mais profundas, em que ambos os lados recebem benefícios.

Qual pergunta a pesquisa responde?

Qual o papel das fãs de histórias de amor (“romance novels”, no inglês) como parceiras oficiais das editoras dos livros? Como essas fãs fazem a mediação entre o fandom (os aficcionados em geral) e o mercado do gênero no Brasil?

Por que isso é relevante?

Entender como a relação entre fãs e o mercado editorial favorecem ambos os lados. Entre as principais vantagens estão o desenvolvimento de conteúdos comunicacionais (jornalísticos, publicitários, etc) feitos principalmente pelas fãs (blogueiras, youtubers, instagrammers) e a abertura de um canal de comunicação, que potencializa estratégias e demandas dos dois lados.

A pesquisa também tenta quebrar o preconceito que se tem com relação aos romances de histórias de amor no Brasil. Títulos como “Cinquenta tons de cinza” e “Crepúsculo” estão entre os mais vendidos, mas o gênero literário é pouco estudado nos cursos de letras do país — nos EUA, a área é consolidada como “popular romance studies” (em tradução livre, “estudos de romances de entretenimento”). Mais escassa ainda é a investigação sobre leitores e fãs. A tese se propôs então a fazer uma revisão bibliográfica do gênero e levantar dados sobre quem o consome.

Resumo da pesquisa

Busquei mapear as mediações das fãs do gênero literário romântico no Brasil. A partir da parceria entre blogueiras e editoras nacionais, foi possível encontrar uma relação única entre fãs e indústrias culturais, nas quais as blogueiras realizam diversas atividades para divulgar os títulos das editoras de forma gratuita, recebendo livros como remuneração. A posição de parceiras dá às blogueiras um lugar de privilégio no fandom, tornando-as capazes de intervir e mobilizá-lo, seja a favor dele ou do mercado. Apresento o histórico e elementos narrativos do gênero, a discussão sobre fãs mulheres e um mapa das mediações das fãs de romance.

Durante três anos, observei participantes em diversos eventos literários, entrevistei blogueiras e profissionais, apliquei um questionário online e coletei material na internet com o intuito de traçar um perfil das fãs de romance no país. Com isso, apresentei como as mediações das fãs-parceiras ocorrem e seu papel determinante no sucesso e consolidação do gênero no Brasil.

Quais foram as conclusões?

A primeira conclusão foi a de que o gênero no Brasil é produzido e lido majoritariamente por mulheres. De 723 respondentes de um questionário online de 2018, elas eram 97%. A maior parte delas se identifica também como heterossexuais, na faixa de 18 a 39 anos, brancas, solteiras, sem filhos, com ensino superior completo, que trabalham, possuem uma renda familiar entre 2 a 5 salários mínimos (R$1.908 a R$ 4.770) e residentes na capital ou região metropolitana do sudeste do Brasil. Além de ávidas leitoras do gênero, as fãs também são consumidoras de outros segmentos da cultura pop como séries, quadrinhos e filmes, e podem ser entendidas como fãs de romance de forma geral, pois também buscam conteúdos românticos em outras mídias. Sobre as escritoras, enquanto na literatura em geral as mulheres usam pseudônimo masculino, no romance de história de amor, ocorre o contrário: não é incomum um escritor usar pseudônimo feminino para assinar sua obra.

Apesar da formalidade do processo de seleção para parcerias, a relação entre fãs-parceiras e editoras tem um caráter por vezes mais informal. Em muitos casos, as fãs se apresentam como amigas ou mesmo por uma relação mais próxima do que apenas profissional. Por isso, quando há uma crise, como uma capa que recebe muitas reclamações, por exemplo, as fãs-parceiras podem tentar atenuar a questão. Elas também se mobilizam para pedir pela publicação de uma escritora em específico.

Inicialmente, é natural pensar a estrutura das parcerias como exploratória. Para além de receber um livro, por vezes em cópia digital, elas realizam as atividades de profissionais da comunicação praticamente de forma gratuita. Mas observando o mercado literário internacional, vê-se uma relação mais simbiótica, em que ambos os lados recebem benefícios.

No entanto, a estrutura industrial dos EUA não se repete no Brasil. Não há espaços na mídia tradicional para crítica literária, especialmente para a literatura pop. Os profissionais das editoras, em alguns casos, entram na área sem formação específica. Com o tempo, procuram uma qualificação.

É através das mediações entre fãs-parceiras e editoras que o gênero literário se fortalece no Brasil. Essas fãs produzem as críticas literárias em seus espaços online; divulgam os títulos para venda; realizam encontros presenciais em livrarias pelas capitais do país; respondem às demais fãs sobre dúvidas relacionadas à lançamentos, cancelamentos, escritoras e afins; pautam as leituras ao recomendarem títulos e escritoras; ajudam editoras a impulsionar campanhas, escolher títulos e escritoras e reduzir crises. Essas e outras atividades ajudam a formação e consolidação do fandom e mercado de romances de histórias de amor.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Profissionais e pesquisadores de áreas como comunicação, letras, escrita criativa, produção editorial e afins, cujo objetivo seja encontrar reflexões e dados sobre o mercado editorial, fãs, leitoras e histórias de romance.

Giovana Santana Carlos é doutora em ciências da comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) com doutorado-sanduíche no Departamento de Comunicação na DePaul University, com bolsa Fulbright, entre 2017-2018. Mestra em comunicação e linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), graduada em comunicação social: habilitação em jornalismo pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Foi professora substituta no curso de jornalismo na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, entre 2012 e 2013. Atualmente, ministra aulas de especialização em marketing digital na Unochapecó e FSG (Centro Universitário da Serra Gaúcha). Suas pesquisas envolvem cultura digital, cultura pop e de fãs, cultura pop japonesa (mangá) e literatura (histórias de amor — "romances"), as quais podem ser acessadas em http://gcarlos.wordpress.com/producao-academica/

Referências:

  • BOOTH, P. Playing fans: negotiating fandom and media in the digital age. Iowa: University of Iowa Press. 2015.
  • FRANZ, S. SELINGER, E. New Approaches to Popular Romance Fiction: Critical Essays. McFarland & Company Inc. Publisherws, 2012. [epub]
  • MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.
  • RADWAY, Janice. Reading the romance. The University of Caroline Press, 1984.
  • REGIS, Pamela. A Natural History of the Romance Novel. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2007.

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