O impacto do transporte urbano nas emissões de gás carbônico

Este estudo, publicado no periódico científico internacional Sustainability, avalia quais modalidades do transporte urbano na cidade de Natal (RN) mais contribuem para a emissão de gases do efeito estufa. Dados de 2015 apontam que o transporte motorizado individual responde por quase 60% do CO2 equivalente emitido.

Os autores traçaram projeções para as emissões da cidade de 2015 a 2025. Segundo suas conclusões, o cenário desenhado pelo Plano de Mobilidade Urbana de Natal deve resultar num aumento de 20,45% nas emissões de CO2 até 2025. As propostas de mitigação envolvem incentivos ao transporte coletivo e a veículos não motorizados (como bicicletas), e a substituição de combustíveis fósseis por motores elétricos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Qual o papel da mobilidade urbana nas emissões de gás carbônico da cidade de Natal (RN)?

Por que isso é relevante?

As emissões antrópicas de CO2 são responsáveis pelas alterações climáticas globais, gerando impactos negativos em toda a sociedade. A principal fonte de emissões de gás carbônico para atmosfera é a queima de combustíveis fósseis. Esses combustíveis fósseis são queimados principalmente para geração de eletricidade e para o setor de transportes. Portanto, é importante saber que os veículos automotores que compõem a mobilidade urbana e os motores à combustão interna são algumas das principais fontes de emissão de CO2.

Resumo da pesquisa

Este estudo tem como objetivo aprofundar a compreensão do papel do setor de mobilidade urbana nas emissões atuais e futuras de gases de efeito estufa (GEE) de Natal, uma cidade de médio porte do Brasil, que também é uma economia em desenvolvimento. Com base no cruzamento de dados de mobilidade urbana rodoviária e ferroviária, e no Plano de Mobilidade (PlanMob) do governo municipal, foi possível traçar projeções para as emissões do transporte na cidade de 2015 a 2025, seguindo diferentes cenários hipotéticos. Para tanto, foi aplicado o Protocolo Global para Inventários de Emissões de Gases de Efeito Estufa em Escala Comunitária da metodologia de quantificação de emissões do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

Quais foram as conclusões?

Os resultados obtidos neste estudo permitem a caracterização do transporte urbano, definindo os subsetores que apresentam maior impacto. O transporte motorizado individual responde por 59,43% das emissões de gases de efeito estufa do transporte urbano em Natal para o ano base de 2015. Em segundo lugar, com 28,3%, está o setor de frete e serviços urbanos, que engloba todos os veículos a diesel que prestam serviços à cidade (caminhões de lixo, ambulâncias, viaturas etc). Já o setor de transporte público de ônibus, com uma frota de apenas 0,23% do total de veículos da cidade, contribui com 10,43% das emissões de CO2e. As emissões proporcionalmente altas dos ônibus são explicadas pelo uso de veículos a diesel com idade média alta e quilometragem mensal média alta.

O detalhamento das emissões de GEE no transporte urbano reforça a necessidade de direcionar políticas públicas para o transporte coletivo, o que melhoraria a eficiência e a atratividade energética, tornaria o transporte urbano confortável e seguro e desencorajaria o deslocamento de veículos motorizados individuais. O Plano de Mobilidade Urbana de Natal distanciou-se das políticas nacionais de incentivo ao transporte público e não motorizado, com consequências negativas nos cenários de emissão de GEE resultantes. O cenário planejado pela cidade deve resultar em um aumento de 20,45% nas emissões de CO2e em 2025.

Por sua vez, os cenários de mitigação incluem ações para incentivar o transporte coletivo, a substituição de combustíveis fósseis por motores elétricos e incentivos a veículos não motorizados. Essas medidas resultariam em uma mitigação inicial de até 44.800 toneladas de CO2e até 2025, e podem atingir valores de mitigação de até um terço das emissões totais de GEE da mobilidade urbana em Natal, se transporte público eletrificado e de alta capacidade, como o de tramway, fosse integrado na rede de transporte.

O desenvolvimento dos cenários também indicou que a execução de um sistema de bicicletas levaria às maiores reduções diretas de emissões, mantendo o sistema de transporte rodoviário urbano de maneira semelhante à atual. Os modos de eletromobilidade — um sistema de trólebus e um sistema tramway — permitiriam mitigações adicionais com maior capacidade operacional de transporte urbano. Somente o tramway, que foi calculado como uma simples substituição ao modo rodoviário, tem o potencial de mitigar pelo menos 71 mil toneladas de CO2e, o que representa cerca de 9% das emissões totais da cidade. Sua implementação deve estar associada à reorganização do fluxo diário de transporte coletivo e incentivos à migração do transporte individual.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados devem apoiar os formuladores de políticas públicas municipais na revisão dos critérios adotados pelo Plano de Mobilidade Urbana, abordando os compromissos nacionais de redução de emissões, direcionando investimentos para setores menos emissores, como transporte público não motorizado e eletrificado, e adotando medidas de mitigação nos setores mais emissores.

André Luiz Lopes Toledo é doutor em planejamento energético pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e engenheiro de fortificação e construção pelo Instituto Militar de Engenharia. Leciona no IFRN (Instituto Federal de Educação do Rio Grande do Norte) e atua como Pesquisador nas áreas de mobilidade urbana, planejamento urbano, emissões de GEE, edifícios limpos e transporte limpo.

Emílio Lèbre La Rovere é professor titular do Programa de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pesquisa e Pós-Graduação de Engenharia, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde coordena o Lima (Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente) e o Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas. Participou, desde 1992, da autoria de diversos relatórios do IPCC, sendo membro deste grupo de cientistas que recebeu, em 2007, o Prêmio Nobel da Paz, em conjunto com Al Gore.

Referências:

  • IPCC. Summary for Policymakers; IPCC: Geneva, Switzerland, 2014; ISBN 9789291691432.
  • IEA. CO2 Emissions from Fuel Combustion 2017—Highlights; IEA: Paris, France, 2017.
  • BID. Leading the Sustainable Development of Cities—Transport System; BID: Washington, DC, USA, 2017; ISBN 8572271600.
  • Gössling, S.; Cohen, S. Why sustainable transport policies will fail: EU climate policy in the light of transport taboos. J. Transp. Geogr. 2014, 39, 197–207.
  • Eliasson, J.; Proost, S. Is sustainable transport policy sustainable? Transp. Policy 2015, 37, 92–100.

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