O rap como ferramenta no ensino de história afro-brasileira

Esta dissertação de mestrado, realizada na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), defende que o rap pode ser um auxílio valioso para promover a identificação dos alunos com temáticas trabalhadas em sala de aula.

Segundo o autor, as letras do gênero musical, frequentemente marcadas por problemáticas sociais dos centros urbanos, ajudam na discussão de assuntos como preconceito, racismo, exclusão social, violência policial e empoderamento negro — e na inclusão de história e cultura afro-brasileira ao currículo escolar.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Esta pesquisa é resultado de minha inquietação como professor em relação a minha trajetória docente e às aulas de história. Buscando fontes e formas alternativas de trabalhar temas sensíveis na sala de aula, foi pensada e articulada a utilização de determinadas canções de rap como linguagem e fonte no ensino de história para tratar de assuntos como preconceito, racismo, exclusão social, violência policial e empoderamento negro. Pode-se dizer que essa dissertação é fruto da Lei nº 10.639/03, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de “história e cultura afro-brasileira”, trazendo novas perspectivas que antes eram ocultadas nas escolas, nos livros e nos currículos escolares.

Por que isso é relevante?

A relevância da pesquisa consiste em demonstrar as possibilidades do uso de música no ensino de história, tendo em vista evidenciar de que modo a letra e a sonoridade de algumas canções — nesse caso específico, o rap — podem estimular relações às múltiplas identidades afro-brasileiras.

Resumo da pesquisa

O estudo pesquisou as potencialidades do uso da canção como instrumento pedagógico. Buscou-se aproximar o ensino de história de discussões sobre a construção da identidade, com base nos estudos culturais. Discuto de que modo a diversidade e a diferença se relacionam com a temática das identidades afro-brasileiras associadas à constituição da identidade nacional, por meio de ocultamentos e entranhamentos. Esse trabalho também levantou algumas características do rap, analisando canções dos discos “Sobrevivendo no inferno” (1997), dos Racionais MCs, e “Nó na orelha” (2011), do Criolo, que marcam o dinamismo do gênero musical no Brasil.

Quais foram as conclusões?

O rap é uma boa ferramenta para o ensino de história por contar com forte aderência e ressonância na juventude de grande parte das cidades brasileiras e, em especial, na população jovem dos centros urbanos. Sua musicalidade, ora simples, seca e direta, ora dançante e contagiante, caiu no gosto popular.

Outro ponto de identificação diz respeito às temáticas contidas em muitas das letras de rap, que se referem a problemas sociais presentes em todas as grandes cidades brasileiras. Vivências e experiências do passado e do presente e expectativas sobre o futuro da juventude estão presentes nessas narrativas. Portanto, optou-se pelo rap por ser um gênero musical que possibilita relações de pertencimento, abrindo perspectivas para se pensar conceitos e conteúdos específicos do ensino de história.

Algumas estratégias podem ser utilizadas para implementar a música na sala de aula. Uma delas pode ser a simples leitura/audição de canções para se debater temáticas políticas e sociais, que previamente ou posteriormente podem ser aprofundadas no ensino. Outro método interessante é estimular os alunos a se apropriarem dessa linguagem musical para produzirem canções de rap que tratam de temas presentes em seu cotidiano e que podem ser trabalhados tanto no ensino de história como interdisciplinarmente.

As canções de rap também podem ser usadas como apoio no preparo de atividades avaliativas e preparatórias para o ensino superior. Muitos vestibulares e o Enem já se utilizam de várias linguagens no enunciado de suas questões, entre elas o rap, o que estimula escolas e professores a trabalharem esse gênero musical em suas aulas. Cabe lembrar que a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) colocou em sua lista de obras obrigatórias para o vestibular 2020 o álbum “Sobrevivendo no inferno” do grupo Racionais MCs.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Professores, pesquisadores, músicos e público em geral com interesse em música, história e educação.

Sandro José Celeste é bacharel em direito pela Unifeob (Centro Universitário Fundação de Ensino Octávio Bastos), licenciado em história pela Feuc (Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do Rio Pardo). Possui especialização em direito civil pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e mestrado em história pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Professor de história desde 2005, atuando em diversas escolas públicas, privadas e no Sistema S. Professor palestrante pela Escola do Legislativo de Santa Catarina nos projetos “Câmara Mirim” e “Parlamento Jovem”.

Referências:

  • BRASIL. Presidência da República. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Brasília, 2003.
  • HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: Dp&a, 2011.
  • NAPOLITANO, Marcos. História & Música: História cultural da música popular. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. (Coleção História & Reflexões, 2).
  • OLIVEIRA, Acauam Silvério de. O evangelho marginal dos Racionais MC's. In: RACIONAIS MC'S. Sobrevivendo no Inferno: Racionais MC's. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 19-37.
  • OLIVEIRA, Roberto de Camargos de. Rap e política: percepções da vida social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2015.
  • RACIONAIS MC'S. Sobrevivendo no Inferno: Racionais MC's. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
  • TEPERMAN, Ricardo. Se liga no som: as transformações do rap no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2015 (Coleção Agenda Brasileira).

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