Como a dengue impulsionou a pesquisa brasileira em virologia

Esta dissertação de mestrado conta a história de como uma epidemia de dengue no Rio de Janeiro, em 1986, contribuiu para estruturar estudos em virologia na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) — hoje um centro de referência na pesquisa sobre o novo coronavírus.

Por meio de uma análise historiográfica de relatórios, correspondências, cadernos de laboratório, artigos científicos, teses e depoimentos orais, o autor demonstra o papel das epidemias na expansão do conhecimento científico. No Brasil, a dengue preparou o caminho nos anos 1980 para a resposta a outras arboviroses mais recentes, como zika e chikungunya.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como a dengue emergiu como problema científico nos anos 1980? Como a doença apareceu no campo de visão de virologistas, infectologistas, epidemiologistas e gestores de saúde? A primeira epidemia oficial de dengue no Brasil ocorreu no ano de 1981, na cidade de Boa Vista, Roraima. No mesmo ano, a dengue chegava com intensidade em Cuba, sendo registrados os primeiros casos de febre hemorrágica de dengue nas Américas. Ao todo, 344.203 casos foram notificados, com 158 óbitos, sendo 100 crianças e 58 adultos. Cinco anos depois, em 1986, a dengue finalmente chegava num grande centro urbano: o Rio de Janeiro. Na época, embora alguns cientistas estivessem sondando a doença, praticamente não havia estudos sobre dengue no Brasil. Nos jornais, nos discursos das autoridades públicas e na sociedade, a dengue aparecia como algo “novo” ou benigno”, não muito preocupante. Por outro lado, mobilizou diversos grupos de pesquisa, e se tornou um dos principais temas da pesquisa biomédica brasileira. No Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, um dos principais centros de pesquisa do país, a dengue impactou significativamente os estudos de vírus, que até então se dedicavam a outros problemas. Esta pesquisa buscou entender como a doença foi vista como oportunidade para a ciência, ao mesmo tempo em que se consolidava como endemia nacional.

Por que isso é relevante?

Em alta hoje, devido a pandemia já histórica (ainda em curso) de covid-19, os vírus são objetos de estudo da ciência desde o final do século 19. Até a publicação desta pesquisa, poucos trabalhos propuseram investigar, ainda que de modo recortado, a história das pesquisas com vírus no Brasil. Tendo como fio condutor a dengue, mas também a história da virologia no Instituto Oswaldo Cruz, a relevância desta pesquisa reside, para além de sua contribuição historiográfica — como um trabalho de história das ciências — na possibilidade de refletir sobre a relação entre ciência, Estado e demandas sociais. Ao investigar como a dengue foi apropriada por virologistas, como foi debatida por diferentes especialistas, e como foi pensada pelos órgãos sanitários da época, é possível alcançar, com dados históricos, uma importante e atual discussão sobre o papel da ciência na contenção de surtos epidêmicos e sobre o descompasso entre ciência e política. Se hoje o Departamento de Virologia da Fundação Oswaldo Cruz é composto pelos principais laboratórios de referência em vírus, e, com a pandemia de Sars-CoV-2, apresenta concretamente a sua relevância social — construindo kits de pesquisa, formando pessoal e fazendo isolamento e diagnóstico viral —, com a dengue, na década de 1980, essa expertise começava a tomar forma, ainda que pouca atenção política fosse dada ao problema.

Resumo da pesquisa

Investigando a história da dengue e da virologia, busco entender como a doença emergiu como problema no campo científico, na década de 1980. Analiso em detalhes o processo de evidenciação da doença pelo grupo de virologistas sediados no Departamento de Virologia do Instituto Oswaldo Cruz. A construção do departamento, as diferentes agendas de pesquisas das décadas de 1950, 1960 e 1970, a relação com os principais problemas de saúde pública e o surgimento da dengue como oportunidade para a consolidação dos estudos das arboviroses e de carreiras científicas individuais são os principais pontos abordados neste trabalho. A partir de relatórios, correspondências, cadernos de laboratório, artigos científicos, teses e depoimentos orais, examina-se a chegada da dengue em 1986 e o desenvolvimento da virologia no Brasil. A análise privilegia a relação entre ciência, Estado e demandas sociais, buscando entender como as epidemias impulsionam áreas do conhecimento biomédico, e como as doenças funcionam como atores sociais nesse processo.

Quais foram as conclusões?

A dengue foi um importante vetor para a consolidação das pesquisas com vírus e, em especial, para o estudo das arboviroses, no Instituto Oswaldo Cruz. Se, desde as décadas de 1940 e 1950, pesquisas com os vírus da febre amarela, da poliomielite e da gripe preenchiam o pequeno espaço destinado a esses estudos na instituição, a chegada da nova arbovirose, recebida por um núcleo de pesquisas que já vinha se estruturando desde os anos 1960, e que, na década de 1970 começaria a ganhar relevância científica e social, selou a permanência dos estudos em virologia na instituição, marcando a história de cientistas como Hermann Schatzmayr, Ortrud Monika Barth e Rita Maria Ribeiro Nogueira. A dengue, como problema científico, reorientou os rumos dos laboratórios de virologia, assim como fez em outras especialidades, tornando-se um dos principais temas de pesquisa no Brasil. Assim como a chikungunya e a zika, a dengue é, ainda nos dias de hoje, um dos principais temas de pesquisa na virologia brasileira.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Historiadores, sociólogos, epidemiologistas e demais especialistas em ciência e saúde pública. Acredito que o trabalho possa contribuir para discussões contemporâneas, bem como para pontos ainda não elucidados pela historiografia das ciências e da saúde. Embora a dengue seja atualmente a principal arbovirose do mundo, a história da doença ainda é muito pouco investigada, tanto nacional quanto internacionalmente. Do mesmo modo, a virologia, como disciplina científica moderna basal para a resolução de grandes problemas de saúde pública, como hoje podemos presenciar, pouco foi observada do ponto de vista histórico.

Jorge Tibilletti de Lara é doutorando do PPGHCS/Fiocruz (Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz). Mestre em história das ciências e da saúde pela mesma instituição, e graduado em história (licenciatura) pela Unespar (Universidade Estadual do Paraná). É membro da SBHC (Sociedade Brasileira de História da Ciência).

Referências:

  • BENCHIMOL, Jaime Larry (coord.) Febre amarela: a doença e a vacina, uma história inacabada. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001.
  • LANDECKER, Hannah. The Matter of Practice in the Historiography of the Experimental Life Sciences. In: DIETRICH, Michael et al (eds). Handbook of the Historiography of Biology. Springer Internacional Publishing, p. 1-22, 2018.
  • LARA, Jorge Tibilletti de. A febre dengue em Curityba, de Trajano Joaquim dos Reis. Temporalidades, v. 11, n. 2, p. 853-864, 2019.
  • MÉTHOT, Pierre-Olivier. Writing the history of virology in the twentieth century: Discovery, disciplines, and conceptual change. Studies in History and Philosophy of Biological and Biomedical Sciences, v. 59, n. 1, p. 145-153, 2016.
  • PACKARD, Randall M. “Break-Bone” Fever in Philadelphia, 1780: Reflections on the History of Disease”. Bulletin of the History of Medicine, v.90, n.2, p. 193-221. 2016.
  • Van HELVOORT, T. History of virus research in the twentieth century: the problem of conceptual continuity. History of Science, v. 32, n.1, p. 185-235, 1994.

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