A sub-representação de negros na filosofia brasileira, em números

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Esta pesquisa, publicada na revista acadêmica Problemata, revela a escassez de temáticas e referências negras nos estudos filosóficos brasileiros. Por meio de um levantamento dos trabalhos de pós-graduação defendidos entre 1987 e 2018 no Brasil, determinou-se que apenas cerca de 0,5% das mais de 10 mil teses e dissertações em filosofia são relacionadas diretamente a filosofias e filósofos negros.

Dos 53 estudos sobre filosofia negra encontrados, a maior parte foi publicada na última década — período durante o qual políticas de ação afirmativa, como cotas raciais, também aumentaram o número de pesquisadores negros nas universidades. Para o autor, esse dado revela a importância dessas iniciativas, tanto para o combate ao racismo no meio acadêmico quanto para a ampliação do escopo temático abordado em pesquisas de pós-graduação.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como, quando e onde foram produzidas teses de doutorado e dissertações de mestrado em filosofia sobre temas ligados a negros e negras no Brasil?

Por que isso é relevante?

Olhar para a situação desse campo de pesquisa — os estudos filosóficos negros — fornece-nos dados que ajudam a compreender como o racismo ou a luta antirracista se inserem no ambiente acadêmico, e como políticas públicas de acesso à universidade destinadas à população negra podem modificar a própria universidade. Nesse último caso, os dados do artigo sugerem uma correlação entre o maior acesso de negras e negros nas universidades e o aumento da amplitude de temas explorados nos programas de pós-graduação em filosofia. Esse tipo de correlação nos permite pensar as políticas de ação afirmativa como algo que traz consigo benefícios não apenas para os grupos atendidos, mas também à própria instituição que promove essas políticas.

Resumo da pesquisa

Trata-se de uma levantamento e mapeamento de produções de teses de doutorado e dissertações de mestrado em filosofia com um foco temático específico. No caso, o estudo procura identificar os trabalhos de pós-graduação sobre temáticas relacionadas a filosofias e filósofos negros, ou ainda questões relacionadas diretamente à população negra. A metodologia de pesquisa baseia-se em busca e análise no banco de dados do Catálogo de Teses e Dissertações da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). A pesquisa mostra que, entre 10.203 teses e dissertações defendidas entre 1987 e 2018, apenas 53 dialogam mais diretamente com as temáticas negras. E, mesmo assim, dentre elas, apenas 23 possuem foco central nessas temáticas, quase todas defendidas na última década.

Quais foram as conclusões?

Apesar da grande presença negra no país, os programas de pós-graduação stricto sensu da área de filosofia no Brasil praticamente ignoram referenciais teóricos e temas de pesquisa negros. Existem iniciativas louváveis em sentido contrário, mas, ainda assim, é importante perceber que elas são muitíssimo recentes e ainda relativamente pouco enraizadas nas universidades brasileiras. Mesmo com o aumento significativo da produção dos estudos filosóficos negros desde 2014, no melhor dos casos, apenas cerca de 0,5% das mais de 10 mil teses e dissertações em filosofia produzidas entre 1987 e 2018 pertence a esse importante campo de estudos. A partir disso, dois apontamentos são fundamentais. Em primeiro lugar, em uma sociedade como a nossa, o desinteresse por questões negras pode ser visto como um indício da existência de racismo antinegro no meio acadêmico. É preciso identificá-lo e combatê-lo. Em segundo lugar, o maior desenvolvimento dessas temáticas ligadas à população negra desde 2014 parece refletir o aumento da própria presença física de pessoas negra nos bancos universitários na última década, fruto de políticas de ação afirmativa. Se esse for mesmo o caso, é importante destacar o potencial transformador dessas políticas para a própria universidade, que ganha uma visão mais ampla do mundo e da sociedade, quando os membros da comunidade acadêmica se tornam mais diversos.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Todos aqueles que estão diretamente ligados à pós-graduação em filosofia no Brasil; interessados em refletir sobre políticas públicas para a educação superior e pós-graduação; interessados na relação entre filosofia e negritude; e pessoas envolvidas no debate antirracista no país.

Fernando de Sá Moreira é professor adjunto de filosofia da educação e epistemologia das ciências da educação da UFF (Universidade Federal Fluminense), graduado e mestre em filosofia pela Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) e doutor em filosofia pela PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), com estágio-sanduíche na Technische Universität Berlin. É autor do livro “Schopenhauer e Nietzsche: um confronto filosófico sobre quem nós somos” e criador do site “Amo Afer - Online” sobre o filósofo africano Anton Wilhelm Amo.

Referências:

  • CARVALHO, Marcelo; GONÇALVES, Daniela. O crescimento da pós-graduação em filosofia no Brasil: dados e análises sobre o período 1971-2015. In: DOMINGUES, Ivan (org.); CARVALHO, Marcelo (org.). Pesquisa e pós-graduação em filosofia no Brasil: debates ANPOF de políticas acadêmicas. São Paulo: ANPOF, 2015.
  • CHALHOUB, Sidney; PINTO, Ana Flávia Magalhães (orgs.). Pensadores negros – pensadoras negras: Brasil, séculos XIX e XX. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino Traço, 2016.
  • NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 1. reimpressão da 2. edição. São Paulo: Perspectiva, 2017.
  • NOGUERA, Renato. O ensino de filosofia e a lei 10.639. Rio de Janeiro: Pallas/Biblioteca Nacional, 2014.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

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