A vigilância da ditadura na repressão ao movimento estudantil

Esta dissertação de mestrado, realizada na USP (Universidade de São Paulo), investiga as práticas de vigilância empregadas pela ditadura civil-militar brasileira para reprimir o movimento estudantil universitário. A pesquisa tem como base informações produzidas, apreendidas e acumuladas pelo Deops (Departamento de Ordem Política e Social) paulista entre os anos de 1968 e 1978.

Segundo a autora, os resultados mostram que a coleta de informações por parte da polícia política foi usada para minar atividades do movimento e construir históricos político-ideológicos dos estudantes — usados para associá-los a crimes políticos, levá-los à prisão e afastá-los do ambiente universitário.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como o movimento estudantil universitário foi associado ao crime político durante a ditadura civil-militar brasileira? Quais foram os mecanismos usados pelo Estado e pela polícia política para reprimir os estudantes? Qual foi a importância das práticas de espionagem desse período e o consequente acúmulo de informações para as tentativas de desmobilização do setor estudantil?

Por que isso é relevante?

A pesquisa possibilita uma compreensão mais detida do processo repressivo dirigido ao movimento estudantil por parte dos agentes do Estado ditatorial brasileiro. Contribuindo, assim, para o melhor entendimento dos mecanismos de silenciamento destinados aos setores de oposição social nos tempos de ditadura.

A importância do conhecimento desse fenômeno transcende o âmbito dos especialistas da área, na medida em que o trabalho possibilita ao leitor uma reflexão sobre algumas das continuidades, no discurso e na práxis estatal, até os dias atuais, de práticas e regimentos do período ditatorial, e expõe acontecimentos interessantes de serem resgatados das margens do esquecimento.

Diante do cenário atual, no qual se intensificam discursos saudosistas que clamam pelo retorno dos militares ao poder e são legitimados pelos mais altos escalões da nossa classe política, e no qual o conhecimento histórico, como acontece com os demais saberes científicos, passa a ser atacado e lançado ao negacionismo, torna-se cada vez mais indispensável que assuntos como o evidenciado neste trabalho se tornem alvo do fazer histórico, da prática política e do conhecimento público.

Resumo da pesquisa

A dissertação pretendeu investigar, a partir das informações produzidas, apreendidas e acumuladas pelo Deops/SP (Departamento de Ordem Política e Social), a repressão lançada pela polícia política à categoria estudantil universitária da cidade de São Paulo, entre os anos de 1968 e 1978, com ênfase nas práticas, produtos e implicações da vigilância. Durante a ditadura civil-militar brasileira, diversos setores sociais foram trazidos frente às lentes da suspeição do Estado e de seus órgãos de segurança e informação, dentre os quais o estudantil. O Deops paulista, que tomava notas sobre movimentações estudantis anteriormente ao golpe de 1964, intensificou, progressivamente, suas ações. A análise lançou luz à associação generalizada do estudante e do movimento da categoria ao crime político, assim como aos principais agentes, meios e espaços do processo de espionagem e demais modos de obtenção de informações. Demonstrou-se que os produtos decorrentes da vigilância constituíram uma ferramenta substancial para as tentativas de dominação e silenciamento do movimento estudantil. De modo paralelo, o estudo também versou sobre os posicionamentos e as lutas estudantis frente ao intenso cerceamento de suas atividades.

Quais foram as conclusões?

Embora a categoria estudantil universitária tenha empreendido suas lutas de maneira contínua no decurso da ditadura, nem todas das suas atividades obtiveram êxito integral e nem todos de seus militantes escaparam às investidas repressivas. Semelhantemente aos estudantes, a polícia política readequou suas ações conforme as particularidades de cada ciclo repressivo. No entanto, apesar de determinadas transformações ao longo desse processo, alguns aspectos marcaram as atividades policiais durante todo o período, como a associação indiscriminada dos estudantes ao crime político e a contínua vigilância sobre eles lançada.

Os resultados expostos na dissertação demonstram que o acompanhamento silencioso de todas as movimentações do setor estudantil, com o auxílio de colaboradores de setores distintos — diretores e estudantes apoiadores do regime, por exemplo —, levou a um vasto acúmulo de informações pela polícia política. Os dados obtidos permitiram a antecipação policial às ações do estudantado e, também, a construção de históricos político-ideológicos sobre aqueles que foram postos diante da mira da repressão, constituindo, desse modo, uma ferramenta essencial da repressão política.

Os saldos desse processo repressivo foram variados. Em âmbito coletivo, a categoria estudantil vivenciou significativas experiências de desmantelamento de suas atividades pelas forças repressivas, o que, por vezes, prejudicou sua articulação. Em nível individual, os estudantes associados à “subversão”, normalmente os politicamente ativos, além de terem sido recorrentemente afastados de seu principal espaço de atuação social (a Universidade), sofreram com indiciamentos e prisões. Além disso, alguns deles tiveram que lidar com barreiras erguidas posteriormente à sua militância estudantil, sendo impedidos de darem continuidade à carreira acadêmica devido à intervenção estatal no processo de contratação de professores das instituições de ensino superior.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados desse trabalho podem ser interessantes a grupos e organizações empenhados nos estudos e na recuperação da história do período em questão, a estudantes e pesquisadores do campo temático, a militantes e a cidadãos em geral.

Dayane Soares da Silva é doutoranda e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da FFLCH/USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) e graduada em história, nas modalidades licenciatura e bacharelado, pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). Tem experiência na área de história, com ênfase em história contemporânea e história do Brasil República, atuando principalmente nos seguintes temas: movimento estudantil, ditadura militar, esquerdas armadas e repressão política.

Referências:

  • ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil. São Paulo: EDUSC, 2005.
  • AQUINO, Maria Aparecida de. DEOPS/SP: visita ao centro da mentalidade autoritária. In: AQUINO, M.; MATTOS, M.; SWENSSON, JR.; LONGHI, C. (Orgs.). O Deops/SP em busca do crime político. Família 50. São Paulo: Arquivo do Estado/Imprensa Oficial do Estado, 2002.
  • FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da Ditadura Militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.
  • MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e ditadura militar: 1964-1968. Campinas: Papirus, 1987.
  • MOTTA, Rodrigo Patto Sá Motta. Em guarda contra o perigo vermelho: O anticomunismo no Brasil (1917-1964). Tese (Doutorado em História Econômica) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2000.
  • ______. As universidades e o regime militar – cultura política brasileira e modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

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