Como mergulhadores recreativos podem ajudar a biologia marinha

Este estudo, publicado no periódico científico Perspectives in Ecology and Evolution, explora as oportunidades abertas pela ciência cidadã — ou seja, atividades científicas conduzidas por pessoas sem experiência formal em ciência.

Os pesquisadores Edson Vieira e Guilherme Longo desenvolveram um protocolo por meio do qual mergulhadores recreativos podem auxiliar na coleta de dados sobre ambientes recifais. Segundo seus resultados, a qualidade dessa coleta é tão boa quanto a realizada por cientistas treinados. A colaboração pode aproximar a comunidade não acadêmica do processo científico e ampliar o monitoramento das espécies marinhas.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Mergulhadores podem coletar dados científicos para o monitoramento de recifes enquanto desenvolvem suas atividades de recreação?

Por que isso é relevante?

Os ambientes recifais têm sofrido grandes ameaças, tanto em escala local, devido à poluição e sobrepesca, quanto em escala global, com o aquecimento e acidificação dos oceanos. Monitorar esses ambientes é fundamental para entender como eles lidam com essas ameaças e para desenvolver estratégias para a sua conservação. Entretanto, os cientistas não podem mergulhar a todo tempo e em todos os lugares para coletar dados, então envolver a comunidade não acadêmica no processo de coleta de dados é vantajoso e aumenta a escala em que eles são obtidos. Além disso, o monitoramento cidadão é uma excelente forma de aproximar a comunidade não acadêmica ao processo científico, bem como ao meio ambiente em que vivem, contribuindo para a valorização da ciência e para a geração de responsabilidade ambiental.

Resumo da pesquisa

O objetivo foi desenvolver um protocolo de monitoramento de organismos recifais (peixes e tartarugas) que fosse atraente e pudesse ser conduzido por mergulhadores recreativos durante as suas atividades de lazer. Para isso, selecionamos espécies que são importantes ecológica e economicamente e que também são atrativas e de fácil identificação, visando empolgar o voluntário a realizar a coleta dos dados. Nas pranchetas de monitoramento com as fotos das espécies, os mergulhadores podiam registrar o número de indivíduos de cada espécie em diferentes classes de tamanho e, no final, avaliavam a satisfação em realizar a experiência científica. Esse protocolo foi conduzido no recife do Batente das Agulhas, localizado a aproximadamente 25 km da costa de Natal (RN), durante a estação de mergulho (dezembro de 2017 a abril de 2018) por mergulhadores de diferentes níveis de experiência, bem como por cientistas treinados, possibilitando avaliar a influência da experiência com mergulho e da falta de conhecimento científico prévio no registro e na qualidade dos dados.

Quais foram as conclusões?

Sim, mergulhadores recreativos podem ser excelentes parceiros dos pesquisadores no monitoramento recifal! Em nosso estudo, eles foram eficientes em registrar espécies de peixes e tartarugas comuns em recifes — algumas inclusive que não são normalmente registradas em metodologias tradicionais de monitoramento por limitações dessas abordagens, como é o caso de raias, tubarões e tartarugas. Além disso, os diferentes níveis de experiência que o mergulhador recreativo tem com atividades de mergulho e a falta de conhecimento científico prévio não influenciaram nos dados coletados. Esses fatos, juntamente com a avaliação positiva em desempenhar essa atividade científica, mostram que o protocolo para monitoramento cidadão de ambientes recifais proposto tem grandes chances de sucesso ao ser aplicado em diferentes locais e com outros tipos de organismos, aumentando assim a escala da coleta de dados nos ambientes recifais ao longo da grande costa brasileira.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Tanto cientistas marinhos da comunidade acadêmica quanto pessoas fora do mundo acadêmico, mas que se interessam pelo mar, mergulho e ambientes recifais. Esses resultados são importantes de serem divulgados a cientistas, pois a comunidade acadêmica ainda apresenta uma grande resistência à incorporação de dados gerados por cidadãos sem treinamento científico formal. Há sempre uma grande dúvida sobre a qualidade e efetividade da coleta de dados, mas nosso trabalho mostra que com um protocolo claro, atrativo e bem desenvolvido, é possível que os mergulhadores recreativos coletem dados confiáveis e que podem ser agregados às pesquisas tradicionais. Por outro lado, também é importante de serem apresentados à comunidade não acadêmica para mostrar como a ciência é fundamental e pode ser uma atividade prazerosa, desempenhada por qualquer pessoa que queira. Historicamente, a comunidade científica se distanciou da sociedade, e essa reaproximação é fundamental para que ciência seja valorizada e para que a escala da coleta de dados seja ampliada. Além disso, esse distanciamento faz com que as pessoas tenham medo e se julguem incapazes de realizar ciência, mas nossos resultados mostram que qualquer cidadão seguindo um protocolo padronizado pode coletar dados científicos e se divertir enquanto realiza essa atividade.

Edson A. Vieira é graduado em ciências biológicas, mestre e doutor em ecologia pela Unicamp. Atualmente é pós-doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), atuando em pesquisas na área de ecologia marinha e mudanças globais, divulgação científica e ciência cidadã com o uso de mídias sociais por meio da plataforma #DeOlhoNosCorais.

Guilherme O. Longo é biólogo formado pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), tem mestrado em ecologia e conservação pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), doutorado em ecologia pela UFSC e pós-doutorado no Georgia Institute of Technology nos Estados Unidos. Atualmente, é professor adjunto no Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), onde desenvolve atividades de pesquisa e divulgação científica na área de ecologia marinha apoiado pelo Instituto Serrapilheira. Sua pesquisa atual foca nos impactos das mudanças globais sobre os recifes brasileiros, e as atividades de divulgação científica são voltadas ao uso de m��dias sociais e ciência-cidadã por meio da plataforma #DeOlhoNosCorais.

Referências:

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