As festas de aparelhagem nas periferias de Belém do Pará

Esta dissertação de mestrado, realizada na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), apresenta um estudo etnográfico sobre as festas de aparelhagem, típicas das periferias de Belém do Pará, cujo nome faz referência às estruturas de som e iluminação desses eventos.

Entre os resultados, o autor identifica três tipos de festas de aparelhagem, cada qual com repertórios musicais, perfis de frequentadores e danças diferentes. Ele faz um registro descritivo do lugar que esses eventos ocupam nas periferias da capital paraense, levando em consideração os diferentes elementos urbanos e sociais que influenciam na relação dos moradores com as aparelhagens.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Aparelhagens são grandes estruturas sonoras e de iluminação que reproduzem prioritariamente o repertório do gênero tecnobrega em eventos realizados principalmente nas áreas mais empobrecidas de Belém do Pará, e são uma importante forma de diversão das populações desses locais. Por essa razão, a presente pesquisa tem como objetivo compreender o que atrai tantas pessoas a se reunirem nesses eventos. Quais são as motivações envolvidas? Que tipo de relações elas estabelecem entre si e com as aparelhagens? Quais os significados envolvidos nessa prática sociocultural? Qual a relação dessas pessoas com a música tocada nos eventos?

Por que isso é relevante?

A pesquisa se justifica na medida em que apresenta um enfoque ainda pouco usual nas etnografias da música. É bastante comum que o interesse dos pesquisadores da etnomusicologia esteja centrado nas pessoas que estão produzindo os sons musicais. Aqui, a observação gira em torno de como as pessoas se relacionam com a música reproduzida pelas aparelhagens, ficando a análise do som subordinada às reações desencadeadas na audiência. Outra característica que confere importância ao trabalho é a proposta de aproximação entre etnomusicologia e geografia, por meio da utilização de conceitos e metodologias desta área de conhecimento. Por fim, apesar de toda a sua relevância sociocultural, a festa de aparelhagem é um tema ainda pouco abordado sob o viés do estudo etnomusicológico.

Resumo da pesquisa

O trabalho é uma etnografia de festas de aparelhagem em Belém (PA), tendo como foco os seus frequentadores. A metodologia da etnografia da música se refere muito mais a uma abordagem descritiva acerca das pessoas em torno de eventos musicais do que a uma busca por conclusões. Essa metodologia compreendeu duas saídas de campo a Belém, de duração aproximada de 25 dias cada. Durante esse período, visitei 16 festas de aparelhagem e realizei entrevistas semiestruturadas com seus frequentadores, produtores, DJs e moradores da cidade.

Quais foram as conclusões?

Por meio da pesquisa foi possível identificar três segmentos distintos de festas de aparelhagem — a saber, “Saudade”, “Marcantes” e “Toca-tudo” — que se diferenciam pelo repertório, o perfil dos frequentadores, as motivações envolvidas, a forma de usufruto e sociabilidade dessas pessoas, a paisagem da festa e a dança, entre outros elementos.

Identificou-se que as festas de aparelhagem influenciam na paisagem física e sonora da periferia de Belém, com banners de divulgação de festas espalhados pela periferia, luzes dos holofotes das aparelhagens que são vistos à distância, brega tocando em vários bares e casas, além do som das próprias aparelhagens.

Notou-se também como questões urbanas e sociais definem a escolha da festa a ser frequentada, devido à dificuldade em relação à mobilidade urbana que impede moradores da periferia de frequentarem festas longe de casa, poder aquisitivo e questões territoriais ligadas à criminalidade. Por fim, destacou-se a importância da perspectiva da experiência na tentativa de compreender as pessoas e os significados de todas as características desse universo tão plural e complexo que gira em torno das aparelhagens.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pesquisadores de áreas de conhecimento como musicologia, etnomusicologia, sociologia, antropologia e geografia humana; gestores públicos que desenvolvem políticas culturais focadas nas populações pobres e periféricas; público em geral que se interessa por práticas culturais urbanas de periferia.

Rodrigo Moreira Magalhães é mestre em música pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e bacharel em turismo pela mesma instituição; é músico profissional há quase 15 anos, tendo estudado música popular na UFMG e na Bituca – Universidade de Música Popular; diretor musical e arranjador de projetos musicais em Belo Horizonte e agitador cultural do carnaval da mesma cidade.

Referências:

  • AMARAL, Paulo Murilo Guerreiro do. Estigma e cosmopolitismo na constituição de uma música popular urbana de periferia: etnografia da produção do tecnobrega em Belém do Pará. 2009. 244 f. Tese (Doutorado) - Curso de Música, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009.
  • BLACKING, John. Music, culture & experience. Selected papers of John Blacking. Chicago: The University of Chicago Press, 1995.
  • SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
  • SEEGER, Anthony. Etnografia da Música. Cardernos de Campo, São Paulo, v. 17, n. 17, p.237-260, jan. 2008. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/ cadernosdecampo/article/view/47695/51433>. Acesso em: 7 fev. 2017.
  • VIANNA, Hermano. O mundo funk carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. 115p. (Antropologia social)

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