Como a divisão de tarefas domésticas afeta a mobilidade urbana

Esta tese de doutorado, realizada na USP (Universidade de São Paulo), examina como a divisão de tarefas domésticas pode influenciar o tempo que indivíduos gastam no deslocamento ao trabalho.

Os resultados da pesquisa indicam que mulheres em casamentos heterossexuais têm sua mobilidade prejudicada pela divisão desigual de responsabilidades domésticas. Devido ao fato de as mulheres frequentemente assumirem a dupla função de provedoras e donas de casa, elas dispõem de menos tempo para o deslocamento do que os homens. Isso faz com que elas tenham que trabalhar em locais próximos a suas moradias, limitando a possibilidade de procura por melhores condições empregatícias.

Casais homossexuais, em contrapartida, registram tempos de commuting mais parecidos — evidência de que o afrouxamento de papéis de gênero tradicionais associados ao trabalho doméstico pode proporcionar maior igualdade nos deslocamentos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa busca entender o diferencial de gênero no tempo de deslocamento ao trabalho dos indivíduos (ou “commuting”, em inglês), e como se dá sua relação tanto com a HRH (sigla em inglês para Hipótese da Responsabilidade Doméstica) quanto com as normas sociais. A HRH estabelece uma relação negativa entre o grau de responsabilização com as tarefas domésticas e o tempo de deslocamento ao trabalho. Dessa forma, os diferenciais de gênero no tempo de commuting entre os indivíduos casados encontrados na literatura seriam justificados pelo diferencial de gênero na divisão de afazeres domésticos entre os cônjuges, que confere às mulheres o duplo papel de provedora e de dona de casa, com efeitos sobre sua valoração marginal do tempo.

Por que isso é relevante?

A pesquisa desenvolvida expande a fronteira do conhecimento em várias frentes, a começar por trazer a discussão para fora do eixo dos países desenvolvidos. Mais importante ainda, discute o desenrolar da HRH no que diz respeito à capacidade de se locomover no espaço em busca de melhores oportunidades de emprego. Finalmente, a pesquisa ainda traz insights sobre a diferença entre gêneros e papéis de gênero como condicionantes do comportamento de viagem dos indivíduos, permitindo que políticas públicas sejam desenhadas visando mitigar os efeitos adversos da HRH para as mulheres.

Resumo da pesquisa

A tese tem como objetivo estudar o diferencial de gênero no tempo de commuting dos indivíduos e entender sua relação com a Hipótese da Responsabilidade Doméstica. Em um primeiro momento, busca-se identificar as diferenças no comportamento de viagens a trabalho de homens e mulheres e associá-las à HRH, ao passo que a segunda parte vai mais a fundo na questão da divisão de tarefas e analisa o papel das normas sociais como motor do diferencial de gênero no tempo de commuting. Aplicando informações provenientes da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2011 a 2015 para indivíduos casados, a primeira parte constrói uma métrica para o grau de responsabilização do cônjuge com os afazeres domésticos e investiga a sua importância na determinação do tempo de commuting. Reconhecendo que a divisão de afazeres domésticos é influenciada pelos papéis de gênero que cada cônjuge assume dentro de um casamento, a segunda parte utiliza dados do Censo Brasileiro de 2010 para incluir na análise casais do mesmo sexo e entender como as normas sociais podem ser responsáveis pelas diferentes durações no trajeto casa-trabalho de homens e mulheres.

Quais foram as conclusões?

Os principais resultados indicam que gênero só se apresenta como característica relevante para explicar a duração do deslocamento ao trabalho nos cenários em que a parcela desempenhada de afazeres domésticos não é levada em consideração. A HRH se mostra válida mesmo quando incluídos nas análises aspectos do mercado de trabalho, que tradicionalmente são apontados como explicações para homens e mulheres apresentarem diferentes durações do commuting. Ainda, os resultados revelam que casais do mesmo sexo apresentam maior probabilidade de terem o mesmo tempo de commuting e que mulheres que se relacionam com outras mulheres conseguem ter maior mobilidade no espaço urbano, trazendo evidências de que o afrouxamento das normas sociais, materializado na não-designação tradicional de papéis sociais de gênero em um casamento, tem efeitos positivos sobre a igualdade no tempo de deslocamento ao trabalho.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pessoas inseridas no mercado de trabalho, casais, gays, o poder público.

Deborah Maria da Silva Seabra tem graduação e mestrado em economia pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e doutorado em economia pela USP (Universidade de São Paulo), sempre com foco em questões urbanas. É economista sênior na DataZAP, braço de inteligência imobiliária do Grupo ZAP.

Referências:

  • JOHNSTON-ANOMUNWO, I. Influence of Household Type on Gender Differences in Work Trip Distance. Professional Geographer, v. 44, n. 2, p. 161-216, 1992.
  • GIMENEZ-NADAL, J. I.; MOLINA, J. A. Commuting time and household responsibilities: evidence using propensity score matching. Journal of Regional Science, v. 56, n. 2, p. 332–359, 2016.
  • ELSTER, H. Social Norms and Economic Theory. Journal of Political Economy, v. 3, n. 4, p. 99–111, 1989.
  • BECKER, G. S. A Theory of the Allocation of Time. The Economic Journal, v. 75, n. 299, p. 493-517, 1965.
  • AKERLOF, G. A.; KRANTON, R. E. Economics and Identity. The Quarterly Journal of Economics, 2000.

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